Disney: histórias originais e romantização da realidade

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[Imagem: Giovana Christ/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior]

Branca de Neve, Hércules, Bela e a Fera e muitas outras dessas histórias marcaram a infância de gerações com seus bailes, suas maçãs envenenadas e suas lições. A maioria das pessoas, atualmente, conhece a versão retratada pela Disney, mas nem sempre ela é muito fiel às lendas que as inspiraram.

Branca de Neve e os Sete Anões

O filme clássico de 1937 sobre a menina que foge da madrasta má, vai morar com 7 anões e é acordada pelo beijo de amor verdadeiro do príncipe é mundialmente conhecida. Entretanto, sua versão original, escrita pelos irmãos Grimm, não é assim tão romântica. Até se encontrar com os anões, a história de Walt Disney é praticamente igual à de Jacob e Wilhem Grimm, mas, ao se hospedar com eles, a mudança começa. A madrasta tenta matar Branca de Neve três vezes: uma vez com um espartilho apertado; outra com um pente enfeitiçado e, finalmente, com a maçã envenenada.

Mas essa não é a única diferença do longa. No conto, quem encontra Branca de Neve é um soldado do Príncipe, o qual a leva da casa dos anões desmaiada. Mas não espere por um beijo de verdadeiro amor, porque não é isso que acorda a princesa. Ao ser carregada em um caixão, um dos soldados tropeça e um pedaço de maçã preso na garganta de Branca se move e ela pode respirar, voltando à vida.

Hércules

O filme musical de 1997 com Hércules, Mégara e Phil cheio de otimismo e humor não tem quase nenhuma semelhança com a lenda original de Hércules, da Mitologia Grega. A Disney, a fim de tornar a história mais vendável e palatável ao público infantil, deixou de fora traições, mortes e castigos.

Na Mitologia, os deuses residentes do Olimpo se aproximam muito dos homens. Sentem inveja, raiva e planejam grandes vinganças. Aqui, ao contrário do filme, a autora da vingança é Hera, esposa de Zeus. E a causa reside na traição de Zeus com uma mortal, gerando Hércules. Por conta disso, a deusa tentou matá-lo quando bebê, mas não foi capaz. Entretanto, quando ele cresceu e criou uma família com Mégara, Hera fez com que ele matasse a ela e a seus filhos.

Devido a esse crime, ele foi punido pelo Oráculo de Delfos a fazer 12 trabalhos. Depois de matar um leão, capturar um touro louco e matar aves antropófagas, além de 9 outras tarefas mortais, ele recebe o perdão e vira um deus.

A Bela e a Fera

Já o filme de 1991 que virou clássico das animações não é tão diferente assim de sua história original, escrita por Jeanne-Marie Leprince de Beaumont. A personagem de Bela é a mesma: corajosa, inteligente e bondosa. Entretanto, os outros personagens sofreram algumas alterações.

Em primeiro lugar, no conto, Bela tem três irmãos e duas irmãs, algo que não é mostrado no filme. E essas irmãs se assemelham muito às de Cinderela, por serem malvadas, gananciosas e invejosas. Ao contrário delas, Gaston está presente no longa e não no conto. Nele, há menções de homens querendo casar com Bela, mas nenhum aprofundamento deles. Além disso, a maior diferença é a personalidade da Fera. No filme, Bela demora vários dias para perceber que por baixo daquele monstro tem um homem bom, mas, na história original, ele é gentil desde o início.

Frozen – Uma Aventura Congelante

O sucesso assombroso de 2014 também é baseado em um conto. Entretanto, ele carrega poucas semelhanças da história The Snow Queen (A Rainha da Neve, em tradução livre), escrita por Hans Christian Andersen.

O conto é dividido em sete partes e retrata a história das crianças Gerda e Kay. Eles são muitos amigos até que um fragmento de um espelho encantado entra no coração de Kay e o torna maldoso. Por conta disso, ele foge da cidade em que moram, levando Gerda a sair à sua procura. A Rainha da Neve aparece muito pouco e possui quase nenhuma semelhança com Elsa, além do fato de ambas controlarem a neve. Já Gerda lembra Anna em sua busca implacável pela irmã no filme.

Nesse caso, o conto foi apenas uma vaga inspiração, já que o enredo não possui quase nenhuma similaridade.

A Pequena Sereia

Não é hoje que as sereias são retratadas na ficção. Em algumas mitologias, elas são mostradas como seres feios e maldosos que querem atrair os homens para o mar e afundar os navios. Entretanto, nesse conto de Hans Christian Andersen, elas são bem mais adoráveis. No início, a história é bem parecida com o clássico da Disney, exceto pelo fato de os personagens não terem nome.

Porém, a partir do momento em que Ariel faz o trato com Úrsula, lá intitulada apenas de “a bruxa do mar”, o enredo se separa quase que totalmente. Para começar, o acordo consiste em a sereia oferecer sua voz (através do corte de sua língua) à bruxa em troca de um par de pernas, mas, cada vez que ela as mexesse, sentiria uma dor excruciante. Se não conseguisse se casar com o príncipe, ela morreria. Depois, a perspectiva não melhora. Quando o príncipe se apaixona por outra mulher, ela tem a opção de matá-lo para sobreviver, mas não o faz e é condenada a 300 anos em forma de espuma do mar até poder atingir o céu.

Pocahontas

A história da princesa indígena da Disney, teoricamente, foi baseada em pessoas e fatos reais. Entretanto, as mudanças foram brutais. Para começar, o nome da protagonista, na realidade, era Matoaka e Pocahontas era um apelido pejorativo que significava “menina mimada”. Além disso, o fio condutor do longa, a paixão da personagem por John Smith que a leva a salvá-lo da morte, pode nem ter acontecido na vida real. O que se tem certeza é que o explorador inglês realmente existiu e foi à América do Norte na tribo Powhatan, mas nada sobre o salvamento pode ser confirmado.

Além disso, Matoaka teria sido vendida, ainda na América, por exploradores e forçada a se casar com um inglês, tendo um filho com ele e sendo levada à Londres. Lá, ela foi aculturada, aprendendo a falar inglês. A história romantizada da Disney, porém, não retrata a verdadeira colonização que aconteceu na América do Norte pelos ingleses, que dizimaram a maior parte dos nativos, assim como na América do Sul, pelos portugueses e espanhóis. A vida real infelizmente não foi tão bonita e poética como o filme mostra.

Mulan

O filme que conta a vida da jovem chinesa que vai para guerra disfarçada de homem no lugar de seu pai e acaba por salvar o país tem a origem mais inusitada: um poema. Muitas foram as vezes em que Hua Mulan (suposto nome original da guerreira) apareceu em contos, lendas e histórias, mas acredita-se que a mais antiga seja mesmo nos versos da Dinastia Wei do Norte (386-557d.C.).

Aqui estão alguns versos de “A Balada de Mulan”, disponíveis no site Epoch Times:

“Ela viu os rascunhos militares ontem à noite,

Khan está convocando muitos soldados.

Uma dúzia de listas rascunhadas,

cada uma com o nome de seu pai.

O pai não tem um filho crescido,

Mulan não tem irmão mais velho.

Ela decide adquirir um cavalo e sela,

e alistar-se em lugar de seu pai.”

A Princesa e o Sapo

A história original da princesa que encontra um sapo e o transforma em príncipe foi escrita pelos Irmãos Grimm, assim como várias outras do gênero. E, analogamente à Branca de Neve, o conto foi bem romantizado pela Disney, que inventou até o beijo de amor verdadeiro.

A princesa do conto, que no filme se chama Tiana, estava brincando com sua bola à beira de um lago e a derruba na água. Lá um sapo promete ajudá-la com uma condição: que ela o transforme em seu companheiro no palácio. Ela, a princípio concorda, mas depois não cumpre a promessa.

O filme, desde o início já se propõe a ser diferente: nele, Tiana é pobre e trabalha dia e noite para montar um restaurante em Nova Orleans, que era o sonho do pai. Certa noite, encontra um sapo que pede um beijo para quebrar um feitiço e voltar a ser príncipe. Entretanto, o beijo tem o efeito contrário e Tiana também vira um sapo.

Apesar da inovação do longa, a imagem do beijo como forma de quebrar o feitiço é mantida baseada no imaginário popular de que essa seria a história. Mas, os Irmãos Grimm tratam essa transformação de maneira diferente. O príncipe só volta à eu forma original quando a princesa é obrigada pelo pai a aceitá-lo no castelo e, com raiva, o joga na parede.

Aladdin

Um dos maiores clássicos da Disney tem sua base no famoso livro As Mil e Uma Noites. Porém, as diferenças são várias. Em primeiro lugar, a história de Aladdin se passa na China. Após ser enganado por um mago africano, mais ou menos da mesma forma que acontece no filme, ele consegue um anel é uma lâmpada e descobre que em ambos residem gênios.

Com a posse desses dois gênios, ele pede comida para si e sua mãe e todas as exigências do sultão para que Aladdin se case com sua filha, Badr al-Budur, que no longa se chama Jasmine.

Um tempo depois, o mago retorna e recupera a lâmpada, sequestrando a princesa e deixando a vida de Aladdin em risco. Entretanto, este consegue derrotá-lo com a ajuda de sua amada, que envenena o vilão e recupera o gênio.

por Maria Carolina Soares
mcarolinasoares@uol.com.br

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