Dos palcos ao Oscar, cantando

por Guilherme Weffort

Soa o terceiro sinal, a plateia se prepara nas cadeiras, a cortina se abre e começa o espetáculo. Irrompe o canto dos atores: um número inicial, normalmente para apresentar o cenário e a personagem principal, toma conta dos ouvidos atentos. Depois disso, a história se desenrola, com grandes amores, mudanças de vida, busca por fama, e, até mesmo, assassinatos. A cada cena, uma nova coreografia pode incendiar ou colocar em prantos os espectadores, tirando deles, por meio da música, suas mais profundas emoções. O final se aproxima, o “gran finale”, o mocinho matando o vilão, o alcance da glória, o tão sonhado show… Palmas, palmas e mais palmas! Que espetáculo! Que músicas! Que atores! Será, com toda a certeza, indicado ao Oscar!

Ué, não era de uma peça teatral que estávamos falando? O que isso tem a ver com o Oscar? Por incrível que pareça, muito. As produções de teatro musical norte-americanas, famosas pelos altos orçamentos, filas quilométricas por ingressos e atores que se tornam famosos por participar delas, ganham tanta notoriedade que são transformadas em longas-metragens hollywoodianos. Em alguns casos, essas releituras até alcançam boas bilheterias, porém sem serem consideradas grandes obras cinematográficas. Em outros, têm um resultado avassalador e tornam-se dignas de receber o prêmio máximo do cinema norte-americano: o Oscar de melhor filme.

Um sublime começo

O primeiro musical a ganhar o prêmio foi “The Broadway Melody” (Melodia da Broadway), em 1930, segundo ano de premiação. Contudo, assim como “The Great Ziegfeld (Ziegfeld- O Criador de Estrelas”, ganhador em 37 e “Going My Way” (O Bom Pastor), em 45, não teve como base o teatro. O primeiro filme a sair dos palcos e chegar ao topo em sua versão musical foi “Gigi”, na premiação de 1959, dando início a uma década de ouro.

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Em 1962, “West Side Story” (Amor, Sublime Amor), uma releitura do clássico Romeu e tado do homônimo teatral, de 1957, faturou 10 estatuetas, incluindo a mais importante (melhor filme) e é, até hoje, o musical mais vitorioso de todos os tempos. Com o foco na história de amor entre duas pessoas ligadas a gangues rivais, Tony, ex-líder dos Jets (brancos anglo-saxões) e Maria, irmã do líder dos Sharks (imigrantes porto-riquenhos), e ambientado em uma Nova York “selvagem”, marcada por rixas ente diferentes grupos, o filme apresentou duas horas e meia de acrobacias, canções e coreografias intensas e quase ininterruptas. Além disso, a rebeldia dos jovens, o figurino e as brigas dançadas foram um prato cheio para a geração “beat”. Apesar de todo o sucesso, as críticas ao estereótipo do imigrante latino, com ênfase ao sotaque carregado e a maquiagem, foram inevitáveis, ainda mais em um contexto no qual começava-se a debater o preconceito nos EUA.

Duas divas, dois Oscars seguidos

Após dois anos sem música, duas estrelas levam dois prêmios em sequência. Primeiro, Audrey Hepburn interpreta Eliza, uma florista que se encontra com Henry Higgins, um professor de fonética. Ele se vê horrorizado com o sotaque da moça e aposta que irá transformá-la em uma dama da alta sociedade em seis meses. Com o tempo, obviamente, é desenvolvida uma paixão entre os dois, mesmo com o enorme buraco social e a inicial dificuldade do aristocrata em lidar com a dama. Um roteiro simples, porém, muito agradável, com canções belíssimas que contribuem para a construção da história. Esses fatores, somados ao brilhantismo na atuação dos protagonistas, levaram “My Fair Lady” (Minha Bela Dama), lançado na Broadway na década de 1950 e adaptado para a telona em 1964, a conquista de 8 prêmios da Academia.

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Um ano depois, foi a vez de Julie Andrews, protagonista de “My Fair Lady” em sua versão teatral, estrelar um musical digno de Oscar. “The Sound of Music” trouxe a história de Maria von Trapp, uma noviça austríaca enviada para cuidar dos sete filhos de um Capitão do exército. A governanta traz consigo o carinho e a música e conquista o amor das crianças e de seu pai. Em um ambiente dominado pelos nazistas, Maria é peça importante para a manutenção da tranquilidade no lar dos von Trapp e, depois, para a sobrevivência da família, a qual ela passa a pertencer após se casar com o patriarca. O filme ganhou cinco Oscars e o carinho e admiração dos amantes de musicais. Aos palcos, “A noviça rebelde” chegou em 1959 e se manteve, por muito tempo, com diferentes protagonistas, em cartas. Na premiação de 2015, os cinquenta anos do filme foram celebrados com uma emocionante apresentação de Lady Gaga, a qual levou o público e a atriz principal aos prantos.

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O fim da década de ouro e 30 anos sem brilho

Ao contrário dos vencedores de antes, foi uma peça musical britânica de 1960, adaptada pela Broadway em 1963, que deu origem ao longa ganhador de melhor filme em 1969. “Oliver!” é uma releitura do clássico da literatura “Oliver Twist”, de Charles Dickens e narra a história do garoto que, ao questionar a escassez de comida no orfanato, é vendido para o dono de uma funerária. Após ser preso num porão, Oliver acha uma maneira de fugir, e passa a perambular por Londres, até se juntar a um grupo de crianças treinadas por um malfeitor para roubar. Assim como “A noviça rebelde”, o filme foi o ganhador de, além do prêmio máximo, mais quatro estatuetas. Encerrava-se, então, a época mais gloriosa das produções musicais de Hollywood.

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Nas três décadas a seguir, os musicais passaram a um posto secundário, ganhando, em grande parte das vezes, apenas prêmios de produção, fotografia e figurino. Filmes como “Cabaret” e “Grease”, apesar do sucesso, não emplacaram conquistas além de premiações específicas para o gênero. No fim do século, Madonna protagoniza a versão cinematográfica de “Evita”, também sem muito sucesso.

A ressurreição vem com o palco

Tem início o século XXI, com filmes de alta tecnologia, efeitos especiais, futuros não mais tão distantes. Mas, no caso do filme musical, a tentativa de voltar ao topo foi baseada em se apegar ao que deu origem a ele: o teatro. E foi assim que Chicago conquistou, depois de 33 anos, o Oscar de melhor filme. Com Renée Zellweger como Roxie Hart e Catherine Zeta Jones como Velma, duas assassinas, sendo uma aspirante a fama e outra já famosa, o longa retrata a busca incessante por notoriedade, ainda que temporânea, na Chicago dos anos vinte, onde as mulheres ganham as páginas dos jornais ao cometerem assassinatos. Em meio a tudo isso, está o advogado Billy Flynt, um vigarista interpretado por Richard Gere, que manipula informações, provas e até testemunhos, com o objetivo de absolver suas clientes e, principalmente, ganhar dinheiro e os louros do sucesso.

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O mais interessante é como se dá a estrutura da trama. As cenas têm caráter teatral, o cenário transforma-se em um palco num piscar de olhos, um julgamento torna-se o grande ato de uma peça, com vedetes, maquiagens, marionetes e excelentes interpretações, coreografias e, é claro, músicas. Uma obra alucinante, como se dançasse com quem assiste, não poderia deixar de ser premiada: foram seis estatuetas na premiação de 2002.

Para manter as cortinas abertas

Apesar de Chicago, os musicais produzidos na última década mantiveram, em sua maioria, a característica dos clássicos. Consequentemente, nenhum conseguiu chegar ao maior prêmio do cinema hollywoodiano em 13 anos. Resta saber se teremos novos Chicagos ou Noviças Rebeldes, para que a música e o cinema continuem produzindo grandes espetáculos.

 

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