O Doutrinador: um anti-herói da realidade brasileira

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O Doutrinador (2018) conta a história de um personagem dos quadrinhos de Luciano Cunha, apresentando um anti-herói legitimamente brasileiro. A adaptação de HQ para o cinema apresenta um filme de ação inserido no contexto nacional. A construção deste anti-herói passa pela indignação perante a corrupção que está extremamente presente nos diversos setores da política brasileira.

A produção brasileira tem em Miguel (Kiko Pissolato) o foco de toda a trama, sendo um agente federal altamente treinado, que investiga políticos em seus esquemas milionários de corrupção. Estando próximo ao sistema corrupto que rege as diretrizes da política nacional, Miguel tenta por meio de ações legais prender os envolvidos. Contudo a personagem passa por transformações, momentos decisivos. Toda essa dinâmica resulta na passagem de Miguel para Doutrinador. Agora, passa a caçar diversos políticos por vias ilegais, pautadas na violência e em assassinatos.

O filme com direção de Gustavo Bonafé e o codireção de Fábio Mendonça surpreendeu muito nas cenas de ação, com tomadas no alto de prédios, valorizando a habilidade do Doutrinador no manuseio de armas e vigor físico, considerando o capacitado agente por trás da máscara. Por outro lado deixou a desejar em questão de enredo, a trama é construída de maneira totalmente previsível, com aspecto clichê.

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Uma cena completamente esperada, mas que ao mesmo tempo é extremamente relevante por se tratar de um ponto de virada, é a bala perdida que atinge a filha do nosso herói. De modo a desencadear um processo de construção do nosso anti-herói, finalizado na agressão de um político chamado Sandro Corrêa (Eduardo Mascovis). Essa construção da narrativa gera incômodo após a comparação clara com Tropa de Elite 2 — O Inimigo Agora É Outro (2010) produzido por José Padilha.

Há uma ligação evidente entre o filme e todo o cenário político atual, com inúmeros escândalos de corrupção, em todas as esferas de poder e abrangendo todos os partidos. Os diretores ainda exploram a completa polarização da população, com o caráter de intolerância presente. Principalmente ao levantar a discussão sobre “O Doutrinador”: serial killer ou justiceiro?

Esse panorama tomou conta da disputa presidencial deste ano, com disseminação do ódio, em que parte da população acha válido fazer justiça com as próprias mãos. Com respaldo em frases como: “bandido bom é bandido morto”. E isto que faz com que O Doutrinador seja mais um ramo para se discutir a política brasileira, a corrupção e seu caráter cultural.

Mesmo com certos clichês, O Doutrinador deve agradar o público por ser um dos poucos filmes no estilo de quadrinhos, com um anti-herói tipicamente brasileiro, com qualidade. Além de seu aspecto social de colocar em pauta a conscientização política.

O filme estreia por todo o Brasil no dia 1 de novembro. Confira o trailer:

por Gabriel Cillo
gccillo@usp.br

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