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Efeitos Especiais: Por Trás da Magia do Cinema
CINÉFILOS
02 set 2017 | Por Jornalismo Júnior

Carros explodindo, vidros quebrando, poderes mágicos e até um tom de pele diferente. Tudo isso é muito conhecido no imaginário popular dos filmes de Hollywood. Entre milhares de outros, esses exemplos constituem os efeitos especiais. Utilizados, inicialmente, em filmes para o público infantojuvenil e, por isso, sendo negligenciados, essas técnicas usadas na produção de obras cinematográficas trilharam um longo caminho até chegarem ao que são hoje: um personagem por si só.

De acordo com o pesquisador da Universidade de São Paulo Marcelo Henrique Leite, em entrevista ao Cinéfilos, “a princípio, os efeitos especiais estavam muito ligados ao cinema americano e, por isso, a um contexto sociopolítico, pelos filmes dos Estados Unidos terem esse significado aqui no Brasil”. Ele afirma que esse tipo de produção, como os quadrinhos e as animações, era visto como infantil, mas que, atualmente, isso está mudando. “Acho que os efeitos estão caminhando como uma coisa secundária que começa a ter seu espaço na linguagem, seu contexto próprio”, continua ele.

Para analisar essa evolução, serão usados aqui oito filmes com diferentes abordagens na produção desses efeitos: A Origem (Inception, 2010), Doutor Estranho (Doctor Strange, 2016), Matrix (The Matrix, 1999), As Aventuras de Pi (Life of Pi, 2012), Star Wars IV: Uma Nova Esperança (Star Wars: Episode IV – A New Hope, 1977), Poltergeist – O Fenômeno (Poltergeist,1982), Poltergeist – O Fenômeno (Poltergeist, 2015) e Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 2010).

Sobre os filmes

A Origem trata-se do ladrão de mentes Don Cobb  que invade os pensamentos de pessoas a fim de descobrir segredos. Entretanto, um dia, ele recebe uma tarefa mais difícil: plantar uma ideia no subconsciente de alguém. E isso pode arruinar toda a sua vida.

Doutor Estranho é sobre um médico bem-sucedido que sofre um acidente de carro e perde a habilidade de operar. Por isso, ele procura todo tipo de cura para seu problema e se depara com um grupo intitulado Kamar-Taj, que, além de processos medicinais, trabalha com as energias do universo para proteger a Terra de forças malignas.

Matrix tem como centro Neo, um jovem programador que sofre de pesadelos frequentes que o fazem questionar a realidade em que vive. Ao conhecer Morpheus e Trinity, ele descobre a Matrix: uma inteligência artificial que cria ilusões de realidade para se aproveitar dos indivíduos.

As Aventuras de Pi, filme muito conhecido pelas suas 11 indicações ao Oscar, é uma biografia de Pi, um jovem que sobreviveu sozinho a um naufrágio e é obrigado a dividir um bote salva-vidas com um tigre. A história mostra todos os acontecimentos do tempo em que ele ficou à deriva no oceano.

Já o filme que deu origem a uma das maiores sagas da história do cinema, Star Wars IV: Uma Nova Esperança, apresenta-nos Luke, um fazendeiro que compra dois robôs (R2-D2 e C3PO) com informações cruciais para libertar a princesa Leia do domínio do império comandado por Darth Vader. Sob o aconselhamento de Obi-Wan Kenobi, Luke se associa a Han Solo, um contrabandista intergalático, para restaurar a paz da galáxia.

Ambas as produções de Poltergeist possuem o mesmo enredo: espíritos atormentam uma família através de um aparelho de televisão. Como a interação ocorre majoritariamente através da filha mais nova, esta acaba por desaparecer. Então, os outros membros da família fazem de tudo para trazê-la de volta.

Alice no País das Maravilhas é baseado no romance de Lewis Carroll, com algumas mudanças. Alice, prestes a se casar com um homem que detesta, retorna ao País das Maravilhas e descobre que faz parte de uma profecia: matar o monstro Jaguadarte e proteger os habitantes dessa terra estranha.

 

Tipos de Efeitos Especiais

Marcelo Leite separa os efeitos em três categorias: os produzidos no set de filmagem, como maquiagem e figurino; os realizados na pós-produção, como explosões e poderes mágicos, e a computação gráfica, em que o próprio personagem é produzido artificialmente.

Levando essa classificação em consideração, pode-se dividir os filmes em questão com base na predominância de um dos aspectos:

  • Tipo 1: Alice no País das Maravilhas
  • Tipo 2: A Origem, Doutor Estranho, Matrix, Star Wars, Poltergeist
  • Tipo 3: As Aventuras de Pi

Apesar de ser possível realizar essa divisão, deve-se perceber que nenhum dos filmes se encaixa apenas em uma categoria, necessitando de vários aspectos para produzir os efeitos especiais. Dito isto, analisemos um a um.

Efeitos Tipo 1

No filme dirigido por Tim Burton, vê-se a presença constante de artifícios para retratar o País das Maravilhas: dragões, coelhos falantes, gêmeos enantiomorfos e rainhas com cabeça de coração. Entretanto, um aspecto interessante de ser notado é a maquiagem utilizada na produção.

Personagens como o Chapeleiro Maluco e a Rainha de Copas ganham quase toda a sua personalidade através da caracterização dos atores. Esse efeito produzido no set é um dos pontos altos do filme, incluindo maquiagem e figurino.

Outros longas aqui representados também entrariam nessa categoria, como Doutor Estranho com a pintura envolta dos olhos do vilão Karl Mordo quando ele drena magia negra para obter seus poderes.

Efeitos Tipo 2

Esse tipo é o mais comum em filmes de sucesso hollywoodianos: a pós-produção. Nela podem ser inseridos quaisquer imagens desejadas para completar o enredo. Dois exemplos parecidos são as cenas de manipulação da realidade em A Origem e Doutor Estranho. Nelas prédios são dobrados, ruas são duplicadas e os personagens desafiam a lei da gravidade.

Ainda nesse contexto, Matrix explora bastante a questão entre real e imaginário. Aqui vemos colheres sendo dobradas com a força da mente, a cena clássica em que Neo se desvia de vários projéteis com a artimanha de desafiar a Matrix e, em outro momento, em que ele faz tais projéteis pararem no ar.

Em Star Wars, muito do longa é pós-produção: espaçonaves, guerras intergaláticas, explosões e planetas estranhos. Tudo isso pode ser produzido com uma associação de efeitos sonoros com o chroma key, a famosa “tela verde”. Por conta disso, os atores têm quase toda a sua experiência em estúdio.

Com Poltergeist não é diferente. Apesar da desigualdade da qualidade dos efeitos entre 1982 e 2015, a maioria das cenas em ambos os filmes não está acontecendo ‘ao vivo’, mas é adiciona na edição. A eletricidade estática, a gosma e as rachaduras podem ser feitas na gravação, mas as mãos no aparelho de televisão, o ‘buraco negro’ do armário que suga tudo ao seu redor e os vários mortos-vivos só podem ser obra da pós-produção.

Efeitos Tipo 3

Já em As Aventuras de Pi, tem-se um tipo de efeito especial que ficou famoso: a computação gráfica na criação de personagens. Usado também em filmes como A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 2 (The Twilight Saga: Breaking Dawn – Part 2), O Senhor dos Anéis (The Lord of the Rings, 2001 – 2003) e os filmes mais recentes de Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, 2011 – 2017), o longa dirigido por Ang Lee chocou a todos com o seu tigre de bengala feito no computador. A natureza do animal no filme era tão perfeita e sua interação com Pi tão realista que muitos acreditaram ser um tigre de verdade.

Além disso, o filme é muito rico em efeitos especiais, com luzes em neon, tempestades, baleias e reflexos usados de maneira harmoniosa a fim de produzir sentido na história do personagem principal. Tanto que o filme foi premiado na categoria Melhores Efeitos Visuais no Oscar de 2013. Entretanto, o reconhecimento veio tarde demais: a empresa responsável pelos efeitos em Pi foi à falência após a produção milionária do longa.

 

Relação com os atores

Como citado anteriormente, muitas vezes o elenco do filme não contracena com o que realmente estamos vendo na tela. O chroma key e técnicas similares acabam por dificultar o trabalho do ator, como afirma Caco Ciocler, protagonista do longa brasileiro Dois Coelhos, em entrevista ao Cinéfilos.

A maior dificuldade na atuação é você conseguir manter-se num estado que boia entre a sua realidade concreta e a crença viva na realidade ilusória do personagem”, ele conta. Mas ele afirma que, por mais difícil que seja, não é ruim: “É o próprio exercício da atuação, mentir fingindo que está acreditando piamente naquele jogo ilusório. Mas quando você tem uma coisa concreta na frente, ainda que seja outro ator, que assim como você está fingindo de acreditar na mesma história, fica um pouco mais fácil o jogo. Fingir que acredita tendo na tua frente um pano verde, onde depois serão inseridos coisas que você não esteja vendo, por exemplo, é excitante mas, para mim, mais difícil.”

Caco ainda conta que, na gravação de Dois Coelhos, uma cena particularmente complicada de filmar foi ao atirar com uma arma de festim: “A grande dificuldade que tive foi não fazer careta num close em super câmera lenta quando eu disparava um tiro. Qualquer micro-reação parece uma aberração num super close de câmera lenta. Eu fazia muita careta, por causa do medo da bala de festim, do estouro. Depois fazia muita careta tentando não fazer careta”.

Custos

Um grande problema das produções com efeitos especiais são os custos da pós-produção. De acordo com o pesquisador Marcelo Leite, é por conta disso que se faz tantos testes nas gravações. “Geralmente, se faz muita pré-visualização. No 3D, é feita uma versão muito grosseira para verificar a câmera e o cenário”, especifica ele.

Filmes com grandes orçamentos acabam por ter efeitos com melhor acabamento, já que esse tipo de produção é muito cara. Um bom exemplo é Doutor Estranho, que teve orçamento de 160 milhões de dólares, rendendo alta qualidade nas cenas produzidas em computador.

Apesar disso, alguns longas conseguem fazer história com muito pouco, como é o caso de Poltergeist, de 1982. Com apenas 10 milhões de dólares de orçamento, o diretor Tobe Hooper conseguiu marcar gerações com esse clássico do terror. Isso rendeu até um remake em 2015, que também não teve uma reserva monetária muito alta: 35 milhões de dólares. Se comparados a Alice no País das Maravilhas, com 150 a 200 milhões, vê-se que muito pode ser feito com pouco dinheiro, dependendo do viés da história.

Imagem: Daniel Medina/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Mudança de perspectiva

Leite ainda argumenta dizendo que a aceitação dos efeitos especiais depende muito da geração tratada. “A minha geração viu o computador nascer. Ele era um objeto de laboratório. Já a geração atual os vê como objetos domésticos, por isso os efeitos especiais são mais naturais. Precisamos começar a discutir a relação deles com a cultura a gente enxerga esse efeito. Passamos do regime da palavra para o regime visual e os efeitos são excelentes objetos para vermos essa reconfiguração do olhar”, ele conclui.

Por Maria Carolina Soares
mcarolinasoares@uol.com.br

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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