41ª Mostra Internacional de SP: El Pampero

Este filme faz parte da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

É a partir de três personagens e um veleiro que se constrói El Pampero (El Pampero, 2017), longa-metragem argentino dirigido por Matías Lucchesi. Tal restrição de cenário pode parecer cansativa — em alguns momentos, até chega a ser —, mas o filme promove suspense e dúvidas na mente do público, o que faz com que seja difícil (mas não impossível) classificá-lo como entediante.

El Pampero

Imagem: reprodução

A narrativa tem como protagonista Fernando (Julio Chávez), um homem doente que deixa sua casa para embarcar numa viagem de rumo incerto em seu veleiro. Surpreendentemente, uma mulher, Carla (Pilar Gamboa), aparece em seu barco e muda os possíveis planos do homem, pois está toda ensanguentada e clamando por ajuda. Assim, os dois iniciam uma jornada silenciosa pelo Rio da Prata, sem que o espectador tenha muito conhecimento dos objetivos e da personalidade de cada um deles.

Ao longo do filme, é possível notar que a doença de Fernando não é algo simples: o personagem faz de seus remédios suas fiéis companhias durante todo o tempo. No entanto, o espectador não sabe nada além disso, já que os diálogos são raros e têm como finalidade estabelecer conexão entre os personagens, sem esclarecer questões sobre a vida de ambos. Desse modo, nasce no público a curiosidade de entender melhor a história e a angústia para um desfecho explicativo.

O terceiro personagem, Mario (Cesar Troncoso), é introduzido após um tempo e protagoniza situações de discórdia com Fernando. Nesse momento, os atores se mostram impecáveis, fazendo com que se estabeleça uma atmosfera de tensão muito realista. O destaque fica com Pilar Gamboa, que, em passagens nas quais Mario insinua uma atração por Carla, consegue se fazer extremamente desconfortável, de modo que as cenas parecem se estender por longos minutos.

El Pampero

Imagem: reprodução

Salvo algumas exceções, a narrativa de El Pampero tem como plano de fundo o veleiro de Fernando e as águas do Rio da Prata. O espaço apertado do interior do barco cria uma aproximação entre Fernando e Carla que justifica a ausência de diálogos profundos e faz do filme uma experiência de interpretação de expressões faciais. Além disso, há uma veracidade promovida pela câmera que, ao filmar, flutua junto com o barco, podendo até causar náuseas naqueles de estômago fraco e fazendo com que o espectador, mesmo sem compreender muito sobre os personagens, esteja participando da viagem com eles.

Ao explorar a doença de Fernando, El Pampero cria uma reflexão sobre o corpo humano, funcionando como uma prisão que impede a vivência plena de um indivíduo. Apesar desse ponto interessante, o filme é resgatado apenas pela atuação brilhante, pois a falta de dinamismo deixa a desejar em muitos momentos. Mesmo gerando aflição em quem assiste, essa angústia muitas vezes é negativa e deixa o público ansioso para que o desfecho aconteça o mais rápido possível.

O longa será exibido na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que tem início no dia 19 de outubro. Confira o trailer:

Por Gabriela Bonin
gabibonin@usp.br

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