Os millennials de Joanesburgo em “Eles Só Usam Black Tie”

Sem tirar os olhos do celular, a mãe chega em casa com a filha mais nova para o almoço. Não há tempo a perder. A garotinha vai correndo ao quarto da irmã mais velha para anunciar a refeição. Não a encontra. Minutos antes, Emily, a irmã adolescente, fora até o quintal, onde subira em uma pequena escada, amarrara a ponta de uma corda de pular no mais grosso dos galhos de uma árvore e enrolara a outra extremidade em seu pescoço. Tacitamente tirou os pés do suporte e se enforcou. No quarto, tudo o que a menina encontrou foi uma câmera em frente à janela que mirava toda a cena. Empregados da casa tentavam, em vão, resgatar a jovem, enquanto tudo era transmitido na internet.

Eles Só Usam Black Tie 1

Um ano depois, o caso foi investigado por uma jornalista que interrogou os conhecidos da adolescente em busca de respostas às mais inexplicáveis perguntas: por que Emily se matou? O suicídio é um pecado? Você já pensou em fazer o mesmo?

Eles Só Usam Black Tie (Necktie Youth, 2015), ficção sul-africana e holandesa não se propõe a explicar o inexprimível. O diretor, roteirista e ator Sibs Shongwe-La Mer optou por uma solução mais eficiente ao contextualizar o fato e cercar os amigos de Emily, expondo questões com as quais eles e muito provavelmente ela lidavam: racismo, sexualidade, drogas e meritocracia.

Eles Só Usam Black Tie 2

Entre os jovens de Joanesburgo, a sensação generalizada de fracasso por não corresponder às expectativas de um sistema falido e ultrapassado os assombra. Impotentes e confusos, eles se veem vulneráveis ao hedonismo de uma sociedade meritocrática. Não conseguem compreender a si mesmos e muito menos uns aos outros. As disparidades de classe, raça e gênero os afastam ainda mais.

Nesse quadro, Emily já não é mais o centro da narrativa, mas um exemplo do que cada uma das personagens pode sorrateiramente se tornar. “Ninguém presta atenção em ninguém até que algo aconteça”, resume Jabz, protagonista do filme que critica o egoísmo letal da sociedade sul-africana.

Além dos diálogos intensos construídos por Shongwe-La Mer, a angústia juvenil é endossada por outras ferramentas audiovisuais. A filmagem em preto e branco é um traço dessa sensação, somada à escassez de trilha sonora e a agressividade desta quando presente —, além da grafia vermelha nos nomes de cada personagem assim que aparecem na tela.

Eles Só Usam Black Tie 3

Apesar de lidar com temas densos, o cineasta sul-africano consegue trabalhar o filme de forma clara e sem sufocar o público. Com apenas 25 anos, Shongwe-La Mer têm alcançado considerável projeção internacional. Seu curta de estreia, Death Of Tropics (2012), competiu em festivais de cinema dos Estados Unidos, Suíça e França, tendo faturado seu primeiro prêmio internacional no Festival de Cinema Mosaic World, em Illinois.

Em 2013, o rascunho Pissings Territorials, que mais tarde se tornaria Eles Só Usam Black Tie, seu primeiro longa, foi contemplado pelo programa de inclusão e estímulo à produção audiovisual africana Final Cut, do 70º Festival Internacional de Cinema de Veneza. Desde então, seu nome tem sido requisitado em festivais europeus de países como Grécia e Suíça.

Enquanto o segundo longa do cineasta é filmado, os brasileiros vão poder conferir a partir de 9 de março o início de uma promissora carreira do cinema africano, marcada pelo equilíbrio entre a sensibilidade e a dureza da realidade, uma película francamente empática.

Assista ao trailer:

por Larissa Lopes
larissaflopesjor@gmail.com

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