O Animal Social – Elio Petri, um cineasta que representou o espírito de seu tempo

por Pedro Graminha
graminhaph@gmail.com

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Os anos 50 representavam, para a Itália, a perspectiva de construção de um novo modelo de sociedade. O povo italiano, desperto do torpor autoritário que estivera durante os anos da guerra, ganhava gradativa consciência da situação em que se encontrava, e tudo o que podia ver ao seu redor eram as ruínas da guerra que até então assolava o país. Tudo havia de ser refeito. Os italianos deviam pensar sobre que nação gostariam de viver, sobre quais bases construiriam sua sociedade. E o cinema americano, já presente na Itália muito antes que as tropas de Tio Sam desembarcassem nas praias de Anzio e Salerno, surgiu como forma de propaganda de um sistema no qual se podia tomar como referência na reconstrução do país, chegando assim uma ideologia de vida plenamente capitalista. A economia industrial passou a se desenvolver e, aos poucos, as feições do país foram se modificando. Foi em torno desse período que os fluxos migratórios entre o Sul do território, que se manteve com uma economia sobretudo agrária, e o Norte, berço da recente industrialização, se intensificaram, levando a atritos sociais, entre os próprios italianos, nunca antes visto.

Foi nesse cenário efervescente, sobretudo dos anos 60 e 70 que representavam a possibilidade de consolidação daquelas mudanças, que cineastas como Francesco Rosi, Vittorio e Otavio Taviani e Elio Petri se debruçaram buscando a matéria prima para a produção de seus filmes. E entre todos os realizadores que podem ser enquadrados no movimento denominado de cinema político, nenhum representou tão bem o espírito daquele período como Elio Petri o fez.

Infância e primeiras influências

Nascido em Roma em 1929, filho de operários, Petri teve contato com o cinema ainda quando menino. Mais tarde, graduou-se em Literatura pela Universidade de Roma. Passou a escrever crítica de cinema para a revista L´Unita, suplemento do Partido Comunista Italiano no qual o cineasta foi membro ativo até 1956, ano de invasão da Hungria pela União Soviética. Nos anos 50, Petri passou a trabalhar como roteirista, diretor de documentários e como assistente do diretor Giuseppe de Santis, ao qual contribui com a pesquisa do filme Roma às onze horas (Rome: ore 11, 1951). Foi nesse período que surgiram cineastas, e um movimento, que marcariam profundamente a história do cinema mundial. Nasceu o neorrealismo, e nomes com Victório De Sica, Michelangelo Antonioni e Federico Fellini. O alvo principal do ataque desses artistas era a profunda alienação a que o povo italiano fora submetido nos anos do pós-guerra, mas uma alienação sobretudo psicológica. Petri, trabalhando como roteirista nesse período, foi influenciado pela temática, pelas críticas e pelo trabalho desses cineastas, mas o jovem e promissor diretor ainda tomaria um caminho diferente dos tomados por esses artistas.

Em 1961, Petri dirigiu seu primeiro filme, e este foi O Assassino (L´Assassino, 1961), com Marcello Mastroiani no papel de um membro da alta aristocracia que se envolve no assassinato da namorada socialite. O segundo filme de Petri, Os dias contados (Il giorni contati,1962) foi a verdadeira guinada do cineasta em direção àquilo pelo que pensava. A alienação realmente era o mal de uma geração que fora jogada de encontro a uma sociedade consumista, mas, para Petri,  essa noção aproximava-se mais da anáçise de Marx- alienação decorrente do trabalho – e não a abordagem tomada pelos neorrealistas. As duas principais influências ideológicas no trabalho de Petri são, o materialismo de Marx e a psicanálise de Freud e Jung; de Marx, Petri tomou o conceito do homem como animal social, produto dos fatos que ocorrem em sua sociedade, e da psicanálise, a abordagem do subconsciente como motor de ações humanas.

A revolução de um gênero (ou, Petri deixa sua marca)

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Foi no final dos anos 60 que Elio Petri produziu o filme que não apenas o lançaria ao mundo, mas se tornaria o marco do cinema político que passaria a se desenvolver na Itália. Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita (Indagine su um citadino al di sopra di ogni sospetto, 1969), filme realizado com seus principais parceiros, o ator Gian Maria Volonté e o roteirista Ugo Pirro. A trama explora os abusos de autoridade no governo e na polícia italiana, que ainda resguardavam dentro de si certas características e comportamentos dos governos fascistas, uma herança maldita que a democracia italiana daqueles anos precisava combater.

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Na trama, Volonté interpreta o chefe da polícia de Roma, figura que representa o típico macho italiano: falastrão, machista, e que se considera acima da lei. Seu relacionamento com uma femme fatale, interpretada pela brasileira Florinda Bolkan, revela toda a fragilidade e impotência de seu ego de macho. Assim, o personagem é subconscientemente movido a matar a amante. Porém, este espalha indícios da autoria de seu crime por todos os lados e, ao mesmo tempo, incrimina um jovem anarquista, amante da mulher, como culpado pelo assassinato. Sua posição social o torna imune de qualquer acusação, mesmo que a sua culpa no crime seja óbvia. Assim, Petri e Ugo Pirro tecem uma dura crítica à impunidade dos homens de estado. O filme causou rebuliço em seu lançamento, por este ter ocorrido um pouco após um jovem anarquista ter sido encontrado morto em uma delegacia de Roma. A coincidência entre ficção e realidade apenas reforçam o posicionamento de Petri em relação à sua sociedade: um cineasta antenado ao que ocorria em sua época. Desta forma, seu cinema ia além da denúncia, realizando uma forte analise da realidade político-social de seu país. Investigação foi premiado no mesmo ano com o Oscar de melhor filme estrangeiro.

O sistema se rendeu a Petri? A classe operária vai ao paraíso

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Em 1972, o até então mais recente trabalho de Elio Petri ganhou a Palma de Ouro no festival de Cannes. Filme que também seria escrito na história do cinema mundial como um dos maiores representantes do gênero “cinema político” já feitos. O nome da obra é A classe operária vai ao Paraíso (La classe operaria va in paradiso,1972). Nesse trabalho, Petri retoma a premiada parceria com Volonté e Ugo Pirro para contar a história do operário Lulu Massa (Volonté), representante do típico trabalhador alienado na concepção marxista. Lulu é plenamente dedicado ao trabalho, considera sua função na fábrica como vital, não questionando o abuso de sua força de trabalho feito pelos chefes, chegando ao ponto de somente conseguir ter algo próximo de uma excitação sexual enquanto trabalha, e não com sua esposa. Certo dia, após a diretoria da fábrica aumentar o ritmo da produção, Lulu perde seu dedo indicador na máquina.Seus patrões, o menosprezam, outorgando-lhe a culpa pelo acidente. O operário passa então a ver com crescente importância o movimento sindical que lutava contra os abusos de poder na fábrica. O paraíso, do título,é na própria terra. É o resultado do ganho do poder e quebra das correntes que mantém o homem preso a um sistema doentio. “A classe operária” é um verdadeiro chamado de consciência ao espectador, para que este possa repensar seu papel na sociedade em que está inserido, pois é dessa forma que Elio Petri vê o seu trabalho de fazer cinema: Um esforço feito dentro do coração do próprio sistema, tentando levantar a consciência da audiência, por mais impressionante que seja a habilidade des em absorver tudo.

Por mais que o título do filme explicite um posicionamento a esquerda, a obra não apresenta iconografias soviéticas, nem faz qualquer alusão à URSS. A intenção do filme não é fazer propaganda de nenhum regime, mas sim, por um processo dialético, atingir aqueles que não são simpáticos as ideologias políticas do cineasta.

Em uma entrevista dada ao jornalista Joan Mellen da revista Cineaste em março de 1972, Elio Petri comentou a vitória de A classe operária vai ao Paraíso no festival de Cannes daquele ano. Petri disse acreditar que seu filme recebeu a Palma de Ouro para ter seu “veneno” inoculado. Seria uma forma do sistema demonstrar não ter medo das ideias apresentadas na obra, ao ponto mesmo de premiá-lo.

Entre outras obras de destaque esta A propriedade não é mais um roubo (La proprietá non è piú um furto, 1973), filme que analisava o dinheiro na sociedade e as formas que o poder corrompe. em 1982, o cineasta, tinha um novo trabalho programado, um novo filme com o ator Marcello Mastroianni. Porém, o projeto não se concluiu: vítima de câncer, Elio Petri morreu em 10 de novembro do mesmo ano, aos 52 anos. O legado do cinema de Petri foi a luz cômica e caricata lançada às zonas escuras do poder italiano, um cinema digno de um artista que considerava sua obra mais como fenômeno social do que estético. Petri foi um observador atento, expressionista, que não hesitava em desnudar as feridas de seu país.

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