Ella e John – O que o tempo não pode roubar

Ella e John (The Leisure Seeker, 2018) é um filme baseado no romance homônimo, de 2009, de Michael Zadoorian.  A película é dirigida por Paolo Virzì, sendo estrelada pelos experientes e premiados Helen Mirren e Donald Sutherland. A atriz britânica foi nomeada por esse papel ao Globo de Ouro. Ela perdeu para Saoirse Ronan, em Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird, 2018), na categoria Melhor Atriz – Comédia ou Musical. Embora algumas piadinhas e sutilezas irônicas estejam diluídos no decorrer da trama, seu ânimo é calibrado também com um drama pouco complexo, mas sincero.

A história se passa na Costa Leste dos Estados Unidos mediante as eleições presidenciais de 2016. Will (Christian McKay) dirige seu carro pelo quase totalmente pacato, mas ainda muito arborizado e belo, subúrbio de Boston, Massachusetts. Ao chegar em sua casa, dividida com seus idosos pais, o solteiro de uns quarenta anos descobre que estes não se encontram lá. Também desaparecido está o antigo trailer do casal, batizado carinhosamente de Leisure Seeker (Busca Prazer). O amante da literatura John (Donald Sutherland) e a energética Ella (Helen Mirren) retomaram seu volante rumo a uma última viagem sozinhos. O destino: a casa (tornada em um museu) de Ernest Hemingway, em Key West, Flórida.

O roteiro é do próprio diretor italiano junto ao escritor Francesco Piccolo e à cineasta Francesca Archibugi, com os quais Virzì já trabalhara, e ao autor de livros Stephen Amidon. A história, em si, é o principal do filme, cujos aspectos técnicos não são utilizados determinantemente na condução da trama. A temática de narrativa de viagem é traçada em sua forma mais primária. E sem arriscar em se aprofundar nela. O casal segue rumo ao ambiente fora de sua zona de conforto e se depara com desafios (sempre relacionados a suas condições de saúde como idosos). O importante é o processo de transformação de John e Ella, assim como o redescobrimento de sua relação. Se não fosse pelas constantes referências à obra de Hemingway proferidas pelo protagonista, o destino final da viagem seria esquecido pelos espectadores.

Pouco importa a casa de Hemingway. O mesmo é válido para o Leisure Seeker. A diferença se encontra no fato desta última ser uma constatação de um defeito. O Leisure Seeker, além de servir de abrigo para os protagonistas e de cenário para algumas cenas, pouco é utilizado a favor da história. Ele, realmente, não passa de uma carcaça metálica com rodas movida a gasolina. Não diz algo a mais sobre os protagonistas, não acrescenta nada à ação. Não simboliza algo maior. É apenas um trailer mesmo. O Leisure Seeker é mal aproveitado. E, assim, curiosamente, o título traduzido para o Brasil se faz mais pertinente do que o original. Parabéns à distribuidora Sony Pictures.

Com relação aos personagens, o longa apresenta discrepâncias. Todos os coadjuvantes são irrelevantes ou, no mínimo, apáticos. Tenta-se apresentar o relacionamento fraternal entre Will e Jane (Janel Moloney), mas ele mal é explorado. As fracas atuações prejudicam ainda mais. A performance de todos os outros coadjuvantes, assim como a construção de seus personagens, também é decepcionante. Em contraste, os protagonistas agradam. Mirren e Sutherland atuam polidos. Ella e John são muito carismáticos e comovem aos mais sensíveis definitivamente. Suas personalidades apresentam certa solidez. A debilitação física específica de cada um também é muito importante para sua construção como personagens.

O tempo e a idade são as questões centrais em Ella e John. Esse é o aspecto mais bonito da película, e o qual a sustenta. O tempo pode nos roubar habilidades motoras e cognitivas, assim como relacionamentos e autoestima. Mas não a liberdade. Nunca se é velho demais para viajar, para amar e muito menos para ser livre. Óbvio que essas constatações, por si, soam muito banais e clichês, mas, moldadas em uma história, podem talvez produzir certo significado. Esse é um dos poucos filmes para grande público, nos últimos anos, a tratar tal assunto como seu tema principal, embora não o faça para além de um nível facilmente inteligível. Em questão de divertimento e de qualidade também —, Antes de Partir (The Bucket List, 2007), por exemplo, é mais interessante.

Ella e John é um filme simples, mas bonitinho e engraçado. Com atuações reconhecíveis de Mirren e Sutherland, os protagonistas se destacam em muito na trama, a qual carece muito de seus esquecíveis em minuto coadjuvantes. A temática é cativante, mas sua abordagem não inova. Cabe aqui um porém: esse talvez seja o primeiro longa de massa a usar o cenário das eleições presidenciais de 2016 como pano de fundo, proporcionando uma cena muito cômica e, curiosamente, crítica aos seguidores de Donald Trump — tidos como pessoas de curta memória, massificadas e manipuláveis. Ella e John é para se descontrair. Não espere muito além disso.

 

O filme estreia dia 5 de abril. Confira o trailer:

por Caio Mattos
caiomattcardoso@gmail.com

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