Em Busca de Thelma e Louise

Felipe Marques

Quem não se lembra da mãe solteirona e descolada vivida por Cher em “Minha mãe é uma sereia”? Ou de Jodie Foster como Clarice Starling em “O Silêncio dos Inocentes”? Agora imagine essas atrizes num Ford Thunderbird 1966, conversível, fugindo da polícia, encontrando um cowboy vigarista vivido por George Clooney e sendo dirigidas por Richard Donner, diretor do Superman original. Ainda que hoje esse road movie só exista na imaginação, por muito pouco não virou aquilo que conhecemos por Thelma & Louise. Sob o capô do filme de 1991 existe muito mais do que motores, pistões ou engrenagens.

A começar pela polêmica envolvendo a escolha das protagonistas: Jodie Foster e Michelle Pfeifer já estavam escaladas para os papéis centrais de Thelma e Louise, que seria apenas produzido por Ridley Scott. Contudo, o tempo necessário para convencer Scott a trocar a cadeira de produtor pela de diretor inviabilizou a participação das duas atrizes no projeto. Já Meryl Streep e Goldie Hawn, que buscavam um filme para estrelar juntas, acabaram preferindo “A Morte lhe Cai Bem” ao road movie. Os nomes de Holly Hunter e Frances McDormand também foram citados para dar vida às protagonistas, e até mesmo Cher recebeu um convite para interpretar Thelma. A certa altura, a busca por protagonistas estava tão complicada que Geena Davis, que já havia sido contratada para o papel de Thelma, foi obrigada a assinar um contrato no qual se comprometia a interpretar qualquer uma das personagens principais se assim a necessidade exigisse.

Outra dificuldade relacionada ao elenco era o papel do vigarista JD. Interpretado na versão final por Brad Pitt, o papel que alavancou sua carreira em Hollywood seria originalmente interpretado por William Baldwin. O mais curioso é que Baldwin desistiu do papel em prol de protagonizar o filme “Cortina de Fogo”, projeto em que Pitt também estava envolvido antes de ser contratado para viver o cowboy de Thelma & Louise. George Clooney também fez uma série de testes na esperança de conseguir o papel. Uma curiosidade sobre as cenas quentes protagonizadas por JD e Thelma, que culminaram com a moça acordando na manhã seguinte apenas para descobrir que havia sido roubada, é que o diretor Ridley Scott acreditava que seria necessário contratar um dublê de corpo para Geena Davis. Ao saber disso, a atriz procurou o diretor e lhe disse que ela mesma faria as cenas; ao que parece Davis, assim como todas as mulheres do planeta, também queria tirar uma lasquinha de Brad Pitt…

As filmagens também não foram isentas de episódios singulares. Um dos mais interessantes veio da sugestão do diretor de, em prol de uma maior autenticidade de suas protagonistas, realmente explodir um caminhão em cena, ao invés de filmar separadamente a explosão e as reações. O que Scott não esperava era que de tão surpresas que ficaram assistindo a detonação, Sarandon e Davis se esqueceram de reagir, obrigando-o, mesmo assim, a filmar as reações das duas em outra tomada. O fim da estrada para Thelma e Louise também é um trecho marcado de rumores: reza a lenda que o diretor teve apenas 45 minutos para acertar a cena final, já que a luz havia começado a falhar e um feriado estava se aproximando, o que arruinaria completamente o vazio do cenário.

Outro detalhe marcante é que, por conta de traumas sofridos com filmagens anteriores, Susan Sarandon arrancou de Ridley Scott a promessa de que ele não mudaria o final do filme. Ainda assim, o diretor, como os fãs de Blade Runner e suas milhares de versões alternativas bem sabem, ficou descontente com o final original. Assim, ele substituiu a cena das protagonistas e seu carro mergulhando num precipício ao som de uma melancólica música de B.B. King, por um final mais animador, com uma cena do carro congelado enquanto ainda subia no ar, antes de cair, ao som da trilha sonora de Hans Zimmer. Assim, Ridley Scott manteve para sempre Thelma e Louise na estrada dos sonhos da platéia, dando-lhes um final digno dos grandes road movies do cinema, em que a melancolia e o vazio se encontram com a sensação de aventura e destemor que marca o gênero.

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