Selton Mello fala sobre “Feliz Natal”

Heloísa Ribeiro

Bento Santiago, o protagonista do livro Dom Casmurro de Machado de Assis, torturado pela dúvida e pela solidão, diz, em um dos poucos momentos em que a tristeza lhe vem despida de ironia: “Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.”

Na recente estréia de Selton Mello como diretor, seu longa Feliz Natal também traz um protagonista atormentado pela lacuna de si mesmo. Caio é um homem marcado por uma tragédia, que se afastou da família e dos amigos por um longo tempo. Ele tem 40 anos, uma companheira leal e um ferro-velho no interior. Mas essa é uma estabilidade aparente: sua consciência, como o ferro-velho, está repleta de peças corroídas e desarranjadas.

selton-cameraAmbos protagonistas vêem a necessidade de “atar as duas pontas” de suas vidas. Bento reconstrói a casa de sua mãe com a esperança de “restaurar na velhice a adolescência”. Caio se dirige à festa de Natal da família para restaurar o elo entre quem ele é hoje e quem foi cinco anos atrás. Volta à capital, chegando à casa de Theo, seu irmão, um homem enredado no corporativismo e num casamento em crise. Miguel, o pai, está vivendo com uma moça de caráter ambíguo e a mãe, Mércia, está abandonada à sorte de coquetéis alcoólicos e psicotrópicos. Fabiana, sua cunhada, perdeu-se entre frustrações do casamento naufragado. Seus amigos do peito, Neto e Alex, perderam-se no tempo, consumindo-se nos vícios da juventude. Mas a simples presença de Caio nesse quebra-cabeça vai transformar a trajetória de todos, mostrando a avalanche que pequenos fatos isolados são capazes de provocar.

Diante dessa trama, a pergunta do por que de Feliz Natal ser tão melancólico não podia escapar ao bate-papo entre diretor e platéia realizado terça-feira, 16, no HSBC Belas Artes. Selton responde: “Queria falar da incomunicabilidade dentro da própria família, da necessidade de falar verdades, falar o que está pensando”.

Dos seus quase 36 anos de idade, Selton Mello já tem 28 como ator. Atuou em O Que é Isso Companheiro? (1996, Bruno Barreto), Lavoura Arcaica (2001, Luiz Fernando Carvalho) e, nos anos 2000, seus trabalhos com Guel Arraes – O Auto da Compadecida (2000), Caramuru – A invenção do Brasil (2001), Lisbela e o Prisioneiro (2003) – lhe renderam extrema popularidade e respeito. Recentemente, em O Cheiro do Ralo (2006, Heitor Dhalia) e Meu Nome não é Johnny (2007, Mauro Lima), Selton provou-se além do talento para o humor, desenvolvendo personagens, ainda que cômicos, marcados por profunda tragicidade.

Selton Mello orientando Darlene Glória durante as filmagens

Em Feliz Natal, a cumplicidade conquistada com os atores rendeu espontaneidade e confiança no retrato daqueles relacionamentos perdidos. Dispensando preparadores de elenco, Selton trabalhou com a improvisação, modificando o roteiro original ao sabor do acaso.

O acaso também lhe rendeu a idéia do ferro-velho, descoberta acidental em uma estrada de Minas Gerais, e a decisão de introduzir uma mãe, a matriarca dos males da família, que só foi tomada após uma entrevista da atriz Darlene Glória no Tarja Preta, programa do Canal Brasil que Selton dirige e edita por conta própria desde 2004. “Avisei a equipe 2 semanas antes da filmagem que o filme agora tinha uma mãe. Acharam que eu tinha pirado!”.

Com todos os sobressaltos, Selton Mello está satisfeito com a estréia: “Talvez eu tenha feito um filme que eu realmente gostaria de ter sido convidado a atuar”. Diz ainda que dirigir foi uma “experiência tão avassaladora” que ele está até menos estimulado a atuar. O que ficou maçante para ele como ator? “Nada”, responde, “Mas é muito bom poder imprimir o seu olhar, poder fazer o seu [filme]! Agora sinto que as pessoas realmente estão vendo quem eu sou.”

Com tanto talento e entusiasmo, vale a pena conferir o primeiro dos projetos de direção de Selton, que já é um dos atores mais importantes do cinema brasileiro.

Leia mais sobre Feliz Natal: http://cinefilosjjunior.wordpress.com/2008/11/22/feliz-natal/

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