“As pessoas precisam conhecer a obra de Torquato” – Entrevista com diretores de Todas as horas do fim

Nascido em Teresina, 1944, Torquato Neto foi um dos principais representantes do movimento de contracultura dos anos 1960 no Brasil. Poeta e jornalista, ele é responsável pela letra de músicas famosas do grupo Tropicália, como Geleia Geral e Mamãe, coragem. Mas, embora alguns de seus companheiros da época, como Caetano Veloso e Gal Costa, sejam ainda hoje muito conhecidos e lembrados, pouco se fala de Torquato. A História não ajuda muito: há pouquíssimos registros de sua imagem, ou mesmo da sua voz.

Foi pensando em resgatar essa imagem “perdida” que os diretores Eduardo Ades e Marcus Fernando fizeram o documentário Torquato Neto – Todas as Horas do Fim (2018), que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta. O Cinéfilos conversou com os dois para descobrir mais sobre como foi remontar a vida desse poeta esquecido.

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Torquato Neto em detalhe da capa de Tropicalia ou Panis et Circenses

Como surgiu a ideia de fazer o filme?

Marcus: A gente achava que as pessoas precisavam conhecer essa obra [do Torquato]. A ideia surgiu de uma conversa que eu tive com o Salgado Maranhão, poeta, que é meu amigo e conviveu com o Torquato, e a gente lembrava de como a obra dele é rica e pouco conhecida. Na época, não tinha nada em catálogo de livros sobre ele, embora tenham sido publicadas duas antologias [coletâneas] até então, a Torquatália e Os Últimos Dias de Paupéria. Mas não tinha nenhum livro que a pessoa fosse numa livraria e pudesse comprar.  Agora, acaba de sair um livro da [editora] Autêntica chamado Torquato Essencial, organizado pelo Ítalo Moriconi, e saiu um segundo volumezinho da Global também, só com a poesia. Então, hoje tem, mas naquela época nem isso tinha. Eu pensei num filme porque acho que o audiovisual proporciona essa coisa de chegar mais facilmente, mais rapidamente e a mais gente. Tem hoje televisão, cinema, a pessoa pode ver alguma matéria que a gente fez, se interessar. Era uma forma de realmente jogar o Torquato pro Brasil, de “vamos prestar atenção nesse cara!”. A opção por fazer um documentário era essa, jogar uma luz sobre a obra dele.

E o convite pro Jesuíta, por que vocês escolheram ele pra narrar o filme?

Eduardo: O Jesuíta surge de três aspectos principais. Primeiro, a gente queria construir um personagem do Torquato, isso era o mais importante de tudo. Ele tinha que ser o protagonista do filme, portanto constituído como personagem, que falava durante o filme inteiro, agia. E as outras pessoas, das entrevistas, eram coadjuvantes. Então, tinha que ter um ator que pudesse dar voz, quase como se fosse o corpo do Torquato, essa voz. E aí, quase num processo de ficção, tinha que ser um cara que tivesse uma voz parecida, mesmo que a gente não conheça a voz dele [Torquato]. [O Jesuíta] nem é muito parecido, mas da mesma idade. O Torquato morreu muito jovem, com 28, e o Jesuíta acho que tem hoje 27, ele é muito jovem também, está na mesma faixa etária.

Não era “ah, vamos procurar uma boa locução, uma pessoa que leia bem poesia, tenha uma grande voz”. A gente não queria isso, uma grande voz pra fazer uma bela leitura de poema, a gente queria uma atuação. E, transformando esses poemas em falas, essas falas em poemas, essas categorias ficam muito misturadas, a gente não identifica nada.

Marcus: A poesia dele tá em todos os lugares, como diz o Edimar [Oliveira, amigo de Torquato] no filme. Então a gente quase trata tudo como poesia e tudo como fala, tudo muito natural.

Eduardo: A ideia foi tratar como atuação mesmo, e pensar num ator pra esse personagem. O Jesuíta tinha essa idade, pra esse personagem, tinha a expressividade dramática do que a gente conhece do trabalho dele, uma coisa explosiva como em Justiça [minissérie de 2016] ou o trabalho mais contrito no Praia do Futuro [filme de 2014]. A gente via o trabalho dele e pensava “cara, esse cara vai dar conta de fazer”. E, por fim, tem esse plus de o cara ter um sotaque nordestino natural, não precisa emular. Se não fosse ele, se fosse um ator do Rio ou de São Paulo, a gente não ia pedir pro cara fazer um sotaque nordestino, porque seria artificial. Mas já que ele tem, ele fez o sotaque dele que dá uma…

Marcus: Ajuda a ficar próximo do personagem, ainda que não seja do mesmo estado e que cada um tenha sua particularidade, mas você identifica ali um sotaque nordestino. O nordestino vai identificar diferente, mas vai saber o que é mais importante, e o [Gilberto] Gil diz isso no filme, que eles eram representantes da cultura nordestina. Então, o Nordeste é mais importante do que o Piauí propriamente, a localização ali. São caras que vieram do Nordeste pro Rio de Janeiro e venceram na música, nas artes em geral, acho que era isso. O sotaque nordestino tinha essa importância por isso.

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Uma das poucas imagens de arquivo de Torquato, também mostrada em Todas as Horas do Fim

O filme lembra um pouco outros documentários sobre músicos, como o Cobain: Montage of Heck (2015), e o Amy (2015), no sentido de todos eles terem uma coisa de levar o público pra dentro da obra da pessoa retratada, mais do que apenas falar sobre ela. Vocês se inspiraram nesses ou em outros filmes para compor essa “aura”?

Eduardo: Amy certamente foi [uma inspiração], durante o processo de montagem eu assisti esse filme. E o que eu acho importante é isso, entrar na sensibilidade do personagem mais do que ficar marcando datas e fatos. O filme é bastante cronológico até, tem raros momentos em que ele sai da ordem, mas isso não é relevante. A gente não quer marcar a data, “isso aconteceu depois disso, depois daquilo”, não é isso o que importa. O que importa é a gente entrar no fluxo da vida do Torquato e, a partir daí, entender as inquietações e a poesia dele, e como é que ele produziu coisas tão importantes [a partir] disso. Em termos de forma, eu lembro também do Senna [filme de 2010], que é um filme totalmente diferente, mas também é 100% em off.

Marcus: O da Amy parece e não parece. Ele parece nesse sentido de que você quer mergulhar no universo do personagem, mas a Amy tinha a “vantagem” de ser muito conhecida.

Eduardo: E muito filmada.

Marcus: Exatamente. E a gente tinha que contar a historinha do Torquato ali, minimamente, biograficamente, fazer as pessoas entenderem as angústias dele, aquela poesia, de onde ele veio, as inquietações. Seria mentira se eu dissesse que tem alguma influência direta, [porque] eu não pensei nisso. Mas certamente, a gente vê tudo isso, e nas opções que você faz, tudo o que você identifica e gosta, você acaba colocando no que você faz.

Vocês incluem no filme várias imagens de arquivo, não só do Torquato, mas também de referências da época, de TV, filmes, etc. Como vocês fizeram essa seleção, tanto quanto ao enfoque que vocês dariam pra falar do Torquato, quanto de outras coisas que não eram diretamente sobre ele?

Eduardo: Essa riqueza de material audiovisual que tem ao longo do filme surge de um desafio, uma proposta que virou um desafio, de a gente tirar todas as entrevistas em on de todo mundo e deixar só o Torquato ser protagonista. Todo mundo, assim como ele, só vai aparecer com a imagem descolada da voz. Então a gente tinha que criar imagens pra esses depoimentos todos, e até pras falas do Torquato também, e aí fomos procurar nas referências dele, os filmes que ele admirava, que ele via, que ele comentava em carta, em coluna de jornal, etc. Cinema Novo, Cinema Marginal, super 8… é a partir desse universo que a gente vai procurar. Esse era o material que a gente ia procurar e depois tentar ver como encaixar isso no filme. Aí, é um trabalho de montagem que o João Felipe Freitas fez, brilhante, na nossa opinião, que é achar o tom certo de cada cena, porque é uma montagem muito livre, como as coisas estão descoladas a gente podia mexer pra qualquer lado, mas quando é que fica bom?

Imagino que durante o processo de pesquisa vocês descobriram bastante coisa. Tem alguma informação que vocês descobriram fazendo o filme que chamou mais a atenção de vocês?

Eduardo: O que não era claro até a gente começar a fazer o filme era a relação conflituosa com a mãe, que eu acho uma marca muito forte da vida do Torquato. Algumas pessoas começaram a citar em entrevistas, e a gente começou a ficar atento nisso, e quando a gente foi pra Teresina e conversou com a Iara, que era a madrinha dele, e ela contou que a Salomé, mãe do Torquato, teve muita raiva de Mamãe, coragem [música do grupo Tropicália, escrita por Torquato], aquilo deu um estalo na gente, de que isso era muito importante. E aí você percebe o quanto Mamãe, coragem é uma música pra mãe dele mesmo, é sobre ele e é pra ela, e o quanto aquilo afetou ela também. E a gente achou outras coisas também.

Marcus: É, a gente achou uma carta em que ele pede desculpa pra mãe. Essa coisa da relação conflituosa com a mãe tão clara foi algo que [apareceu] remexendo o material de arquivo, e com a entrevista da madrinha, que foi a única pessoa que tinha esse elo de ligação, já que os pais tinham morrido. A gente tinha primos, chegamos a entrevistar uma prima, e tinha um olhar ali que acabou não entrando na montagem final, mas que não era o da madrinha, que conviveu de perto com a mãe e era capaz de dizer que ela detestava essa música, que o que ela queria era ele ali.

Eduardo: E isso não nos pareceu uma mera curiosidade, uma anedota da vida do Torquato, [o fato de] que ele tinha uma relação conflituosa com a mãe. Isso é uma marca que ele trás pra iniciar os movimentos de ruptura dele. Ele começa a ganhar coragem de romper com tudo quando ele rompe com a mãe. A primeira coisa com que ele rompe é a mãe, e daí depois ele vai romper com a MPB, rompe com a Tropicália… é a primeira ruptura que ele faz. Então isso era muito importante, marcar que o vínculo mais forte que a gente quase sempre tem, ele foi capaz de romper.

 

Torquato Neto – Todas as Horas do Fim já está em cartaz nos cinemas brasileiros. Veja o trailer abaixo e confira aqui nossa resenha sobre o filme.

por Matheus Souza
souzamatheusmss@gmail.com

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