Como um brasileiro contribuiu para o extraordinário sucesso de ‘Harry Potter’

por Leonardo Mastelini
leomastelini@gmail.com

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Eduardo trabalhou nos filmes com Miraphora Mina por mais de uma década. Foto: Reprodução/Instagram MinaLima

“Mudou minha vida completamente”

Com essas palavras que Eduardo Lima, de 42 anos, define a passagem dos filmes de Harry Potter em sua vida — uma relação que já perdura há 16 anos, sete filmes e um parque temático. Mineiro nascido em Caxambu, Eduardo foi responsável por dar forma à imaginação de J.K. Rowling e levar os objetos dos livros para as telas, em um dos trabalhos de design gráfico mais elogiados do cinema mundial. Foram centenas de cartazes, livros, etiquetas e artigos bruxos, desde os equipamentos de Poções até o Profeta Diário: produções que estouram detalhes, humor e identidade, inconfundíveis ao olhar de qualquer fã da saga.

Formado em Comunicação Visual pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, Eduardo deixou a cidade mineira de apenas 22 mil habitantes para unir duas de suas paixões: o cinema e o design. Foi assim que, ainda na faculdade, decidiu fazer um curso de inglês de três meses na capital britânica. “Três meses que duraram dois anos”, brincou Eduardo, em entrevista para o Cinéfilos. De 1997 a 1999, com o visto de estudante vencido em meio a bicos de garçom e bartender, o designer retornou ao Brasil. Dessa vez, com uma nova paixão: Londres — e, quem sabe, uma carreira no Reino Unido.

De volta ao Rio de Janeiro, Eduardo foi convidado pela diretora de cinema Ludmila Ferolla para trabalhar na produção de um documentário, Anésia – Um Voo no Tempo (2000). “Contei à Ludmila sobre minha vontade de voltar à Londres, e ela me disse que conhecia uma amiga que estava trabalhando numa produção inglesa, de um bruxinho, que na época ninguém sabia o que era”. Assim, Eduardo, munido de um portfólio e um passaporte português, embarcou para a Inglaterra para conhecer aquela que viria a ser sua melhor amiga e sócia até hoje: Miraphora Mina, designer gráfica dos filmes de Harry Potter.

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Eduardo e Miraphora formam a dupla MinaLima. Foto: Reprodução/Instagram MinaLima

“Era como se nos conhecêssemos há muito tempo”, afirma. “Nos conectamos tão bem, tão rapidamente, que parecia obra do destino”. Não foi por acaso que Eduardo ganhou um estágio com Miraphora em Harry Potter e a Câmara Secreta (Harry Potter and the Chamber of Secrets, 2001), e conquistou um cargo permanente de designer gráfico logo em seguida, em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (Harry Potter and the Prisoner of Azkaban, 2004).

Até Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 (Harry Potter and Deathly Hallows – Part 2, 2011), foram mais de cem itens criados. Em alguns casos, objetos que ganharam o mundo na febre pottermaníaca, como o Mapa do Maroto, o Vira-Tempo e a própria carta de admissão em Hogwarts. Além de fundar uma empresa de design com Miraphora, Eduardo contribuiu para a criação do Parque Temático de Harry Potter, em Orlando. Agora, embarca em um novo projeto: Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beasts and Where to Find Them, 2016) também contará com o trabalho artístico do mineiro.

Oito meses em um item

O trabalho de Eduardo começa com o roteiro. É a partir dele que um designer gráfico encontra as informações necessárias para a produção, listando os vários objetos em cena. Em seguida, são realizadas reuniões com o diretor de arte e, às vezes, também com o diretor e os produtores — tudo para decidir os diversos aspectos na composição dos itens.

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A criação da dupla MinaLima inclui horcruxes e tipografias variadas. Foto: Reprodução/Site MinaLima

Para o designer, o filme mais difícil para ser trabalhado foi o terceiro. Harry Potter e Prisioneiro de Azkaban foi lançado em 2004 com a menor bilheteria da saga, mas configura entre os mais elogiados pelo público e crítica especializada. “Foi ali que mudou o tom da história, para todos os departamentos”, explica Eduardo, cujo livro e filme preferidos são justamente o Prisioneiro de Azkaban. “Aquele filme foi muito importante para quebrar o estilo infantil da série. Tudo começou a ficar mais triste, e grande parte disso deve-se ao diretor Alfonso Cuarón, que entrou e conseguiu mostrar isso de forma clara”.

A Gemialidades Weasley, loja dos irmãos Fred e Jorge, foi outro dos grandes desafios enfrentados pela equipe de arte, em Harry Potter e o Enigma do Príncipe (Harry Potter and the Half-Blood Prince, 2009). Para encher três andares de objetos, foram necessários mais de 150 produtos diferentes e cerca de 60.000 cópias, além de cinco meses, três assistentes e três estagiários, que ajudaram Eduardo e Miraphora a criar o que ele considera um dos trabalhos mais divertidos que já fez. “No livro, tinham sete produtos descritos. Tivemos que descrever todo o resto, como se fôssemos dois adolescentes sem ideia de design”, conta.

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Com cores berrantes, desenhos desconcertantes e combinações caóticas, a dupla MinaLima produziu diversos rótulos e embalagens para a Gemialidades Weasley, como se fossem Fred e Jorge. Foto: Reprodução/Site MinaLima

Eduardo adora trabalhar para personagens autênticos. Exemplos dessa característica são Rita Skeeter, jornalista do Profeta Diário, e Dolores Umbridge, professora e Alta Inquisidora de Hogwarts. “Personagens assim costumam ter vários objetos, ou objetos de personalidade”, explica. Entre os pertences de Skeeter, estão a Pena de Repetição Rápida e o livro “A Vida e as Mentiras de Alvo Dumbledore” — sendo este último finalizado em oito meses, desde os primeiros esboços até a produção final.

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Desenvolvido para ser “um livro de aeroporto barato”, o design da biografia de Dumbledore inclui cores artificiais e papeis ultrafinos. Foto: Reprodução/Flickr Scott Ableman

Letterpress, estilo gótico, barroco, vitoriano; da alquimia do século XVI ao estilo gráfico da década de 30 à 60. Os filmes de Harry Potter se caracterizam pela sobreposição intensa de referências visuais, principalmente por se passar em um mundo paralelo — embora semelhante ao nosso. Para ganhar inspiração, Eduardo afirma frequentar lojas londrinas de itens antigos: livros de couro e rótulos antiquados já são parte de sua sacola de compras. “Vou guardando tudo para ver como foi feito e dali tirar novas ideias”, diz. “Nos baseamos em objetos reais, mas sempre dando uma mexida que faça com que ganhem uma cara mais mágica”.

O fenômeno “Profeta Diário”

Considerado pelo designer mineiro seu item preferido, o Profeta Diário é a principal fonte de notícias para os bruxos britânicos — e também uma ferramenta poderosa utilizada pelos filmes para pontuar acontecimentos e ajudar a contar a história. Excetuando uma ou duas manchetes indicadas no roteiro, todas as notícias eram inventadas por Eduardo e sua equipe. “Os outros diziam que não precisava, mas eu fazia questão de fazer todas as páginas de trás. Todas têm conteúdo: introdução, texto do editor, previsão do tempo, loteria, signos”, conta.

Segundo Eduardo, o item acompanhou a estética dos filmes na medida em que ficam mais sombrios. “Nos dois primeiros filmes, era mais infantil, um pouco mais adorável. A partir do quinto, quando o Ministério da Magia toma conta do jornal, damos a ele uma estética mais construtivista. Para isso, folheamos muitas propagandas da Revolução Russa, com letras grossas e alocadas, para botar mais medo, mas nunca sem perder o humor”.

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Ao todo, foram mais de 50 exemplares diferentes para o Profeta Diário. Foto: Reprodução/Instagram MinaLima

Foi no Profeta Diário que Eduardo mais homenageou o Brasil. Entre aparições de Caxambu, Teresina e Manaus na seção de previsão do tempo, a preferida do designer está em um jornal produzido para Harry Potter e o Cálice de Fogo (Harry Potter and Goblet of Fire, 2005). “Nele estava escrito que o Brasil sediaria uma reunião importante do grupo bruxo G8 ¾”,  diz o designer, que conferiu à sua mãe o cargo de repórter do Profeta Diário. “Quem sabe não aconteceu?”.

Apesar da atenção aos detalhes, nem sempre o jornal era aberto ou mostrado em cena — assim como vários outros produtos, entre livros e etiquetas cheios de informação. Entretanto, Eduardo considera que a preocupação estética em cada fonte ou em cada traço foi importante para tornar o mundo mágico de Harry Potter mais real. “Certa vez, J.K. Rowling entrou em nossa sala e perguntou: ‘Quem escreve isso?’. Nós pedimos desculpas, e ela disse: ‘Perfeito’.”

Relacionamento com J.K. Rowling e elenco

O estúdio de trabalho da dupla MinaLima, no Leavesden Studios do complexo Warner Bros., já foi considerado “a sala preferida de J.K Rowling na Terra”. Todos os pôsteres, letreiros, mapas, cartas e pacotes, feitos para tornar o universo bruxo mais real, encantaram a escritora britânica — que, segundo Eduardo, já levou um objeto para casa mesmo sem a finalização da equipe.

Responsável por criar a história que inspirou os filmes de Harry Potter, J.K. Rowling não se envolveu muito com a produção porque “confiava no trabalho dos diretores e preferia que tomassem conta”. Entretanto, Eduardo afirma que o departamento de arte precisou de sua ajuda em algumas ocasiões. “No nosso caso, foi enquanto fazíamos a árvore genealógica da Família Black, em Harry Potter e a Ordem da Fênix”, explica. “Não sabíamos o nome de todos parentes, e então ela fez um diagrama de quem era quem. Ela sempre estava disponível para responder perguntas, mas, ao mesmo tempo, ocupada terminando de escrever os livros”. Na época, J.K. Rowling escrevia o sétimo e último livro da saga.

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A árvore genealógica da família Black aparece no quinto filme, em uma tapeçaria do Largo Grimmauld, nº12. Foto: Reprodução/Instagram MinaLima

Sobre o elenco dos filmes, Eduardo elogiou o humor de Imelda Stauton (Dolores Umbridge) e disse que viu o trio principal crescer. “Como eles tinham escola no estúdio, às vezes, quando a gente fazia algum projeto de arte, a Emma (Watson) vinha pedir papel, tesoura, pedir opinião”, conta. Ao todo, foram quase dez anos trabalhando com Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson — a quem ele carinhosamente chama de Harry, Rony e Hermione. “Só não cresceram muito em altura”, brinca.

A artista preferida de Eduardo na série é Helena Bonham Carter. A atriz, responsável por interpretar a sádica Bellatriz Lestrange, era conhecida no estúdio por se interessar por arte gráfica. “Helena costumava vir na nossa sala vestida de Bellatriz e ficava conversando conosco”, diz o designer. “Eu e Mira somos apaixonados por ela”.

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Eduardo e Miraphora com Helena Bonham Carter, no evento “The Graphic Art of Harry Potter”, em 2013. Foto: Reprodução/RadioTimes

Em janeiro de 2016, a dupla MinaLima homenageou Alan Rickman em seu Instagram após a morte do ator em decorrência de um câncer. Com a legenda “So perfectly Snape” — ou “Tão perfeitamente Snape”, na tradução literal —, Eduardo e Miraphora mostraram que o intérprete do professor de poções de Hogwarts também era querido pela dupla. “Como os produtores e o próprio Daniel (Radcliffe) já disseram, viramos uma grande família porque ficamos juntos por muito tempo. Parece clichê, mas é a verdade”, conclui Eduardo.

Casa de MinaLima

Em 2010, Eduardo e Miraphora oficializaram seu próprio estúdio de criação, o MinaLima Design. Seis anos depois, a dupla resolveu ir além. “Sempre quisemos criar um lugar onde os fãs pudessem ir para se sentir parte do mundo bruxo”, diz Eduardo. “Aqui tem os Estúdios de Leavesden, com figurinos, cenários… Mas queríamos algo com a parte gráfica”. Foi assim que, com a licença da Warner Bros., nasceu a Casa de MinaLima — uma exposição gratuita com todo o design do universo de Harry Potter.

Itens das edições limitadas, quadros, pôsteres, cartazes e até uma cascata de cartas de Hogwarts saindo da lareira preenchem uma casa de quatro andares no centro de Londres. Caindo aos pedaços, com paredes tortas, escadas estreitas e perfil desregrado, o lugar é digno do mundo bruxo. “Ele nos escolheu”, brinca Eduardo, que revestiu diversas paredes com suas páginas preferidas do Profeta Diário.

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Localizada Greek Street, nº 26, em West End, Londres, a Casa fica na esquina do Teatro Palace, responsável por apresentar a peça “Harry Potter and the Cursed Child – Parts I and II”. Foto: Reprodução/Instagram MinaLima

Desde que abriu, em maio de 2016, a Casa de MinaLima já recebeu mais de 60.000 pessoas; entre elas, Helena Bonham Carter. A atriz, que compareceu à inauguração, já foi caracterizada de Bellatriz Lestrange para conversar com Eduardo e Miraphora — “com dentes postiços e tudo”. “Os fãs de Harry Potter são incríveis. Eu e a Mira ficamos emocionados por fazer parte dessa família tão imensa”, confessa o designer.

Coração brasileiro e potterhead

Depois de ter passado pelo teste de seleção do Pottermore — “afinal, é esse que vale” —, Eduardo confirma: “Sou da Corvinal”. Em Ilvermorny, Escola de Magia e Bruxaria dos Estados Unidos, o designer é de Pumaruna, a casa dos guerreiros. Eduardo é, antes de tudo, um fã da saga: leitor assíduo de todos os livros, com os nomes mágicos na ponta da língua, o designer representa o Brasil ao contribuir com a série cinematográfica de maior sucesso de todos os tempos. E se orgulha muito disso: “Vou morrer falando de Harry Potter”.

Com a voz já caracterizada pelo sotaque inglês, Eduardo viaja ao Brasil apenas uma vez por ano para visitar a família. O trabalho intenso faz com que o designer retorne menos do que gostaria. “Quando eu ficar um pouco mais velho e tiver menos trabalho, passo o verão inteiro”, brinca. Para ele, o Brasil ainda tem muito a se orgulhar e as Olimpíadas podem ser uma boa oportunidade. “Ainda quero que a gente cale a boca do mundo inteiro e mostre para eles o quanto a gente é bom”.

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“Terra natal nós nunca escolhemos. Sempre serei brasileiro”. Foto: Reprodução/Instagram MinaLima

Outros projetos

Ao todo, foram dois anos e meio trabalhando exclusivamente para o Parque Temático de Harry Potter em Orlando, diretamente de Londres. Segundo Eduardo, o convite aconteceu de forma natural, já que seu amigo e diretor de arte dos filmes, Stuart Craig, estava no comando da construção. “Fizemos todos os letreiros das lojas, seus produtos, propagandas pintadas na parede, e até rótulo de água”, explica o designer. Foi assim que, em 2010, a Warner Bros. Entertainment Inc. e a Universal Orlando Resort inauguraram “O Mundo Mágico de Harry Potter”, com reproduções fieis de lojas do vilarejo de Hogsmeade e das ruas do Beco Diagonal.

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Sapos de Chocolate e Febre Fudge são algumas das embalagens desenvolvidas para loja de doces Dedosdemel, em Hogsmeade. Foto: Reprodução

Apesar de não ter deixado de “respirar Harry Potter todos os dias” desde o último filme da saga, Eduardo passa a viver uma nova fase de sua carreira potteriana. O filme “Animais Fantásticos e Onde Habitam” chega ao cinema em novembro de 2016 e já tem trilogia garantida pelo menos até 2019. Dessa vez, com uma nova estética: os Estados Unidos da década de 20.

Para o designer, o melhor disso tudo é voltar a trabalhar com e David Yates, David Heyman e Stuart Craig — equipe de direção e produção de Harry Potter, que acompanhou o mineiro por pelo menos cinco anos da franquia. Ao Cinéfilos, Eduardo diz que os detalhes gráficos do primeiro filme já estão prontos, mas não podem ser revelados até sua estreia.

Além de Harry Potter, o designer trabalhou com Miraphora em outros filmes, como A Bússola de Ouro (The Golden Compass, 2007), O Jogo da Imitação (The Imitation Game, 2014) e A Lenda de Tarzan (The Legend of Tarzan, 2016). “Fazer filme é uma trabalheira”, conta Eduardo. “Contanto que você faça o que você goste, fica tudo prazeroso”.

 

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