Estereótipos LGBT: O preconceito em Hollywood

por Lucas Almeida
almeidalucas1206@gmail.com

O uso de personagens que são estereótipos de um grupo já é mais do que comum em Hollywood. Homossexuais foram representados como pessoas com distúrbios mentais no passado e hoje muitas vezes são colocados em papéis pequenos apenas para proporcionar pontos de comédia. Enquanto isso, as outras letras da sigla LGBT sofrem ainda mais, por muitas vezes não terem nenhum tipo de representação na mídia, em especial a população trans.

A ativista e apresentadora do Canal das Bee, Debora Baldin, falou para o Cinéfilos sobre a importância da exposição da diversidade: “A representatividade dos segmentos minoritários no cinema importa porque ele repercute em massa na sociedade e a nossa maioria se acostumou a esquecer que nós existimos. E quem não existe, não precisa de direitos, não tem demandas, não precisa ser reconhecido ou respeitado, porque está à margem. O cinema é parte fundamental para alterar esse quadro.”
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Personagens de homens gays com trejeitos afeminados são comuns, como em Brüno (Brüno, 2009) e Crô – O Filme (2013). E esse tipo de atuação em si não demonstra nenhum problema, pois expõe parte dessa população que muitas vezes é alvo de forte preconceito no dia-a-dia. No entanto, o que acontece frequentemente é o uso desses papéis como algo cômico, ridicularizando esses personagens.

A problemática continua quando as produções apresentam constantemente homens gays afeminados apenas como conhecedores da cultura pop, arte e das grandes divas da música. Isso faz com que os objetifiquem, atribuindo-lhes uma utilidade. Debora comenta sobre essa representação, dizendo que “é parte de uma construção que tem como objetivo humilhar e colocar essas pessoas numa posição inferior, posto que eles apresentam características femininas (mais uma prova da misoginia estrutural que permeia a nossa sociedade). O gay afeminado é retratado sempre como um acessório conhecedor de moda/cabeleireiro/bicha venenosa de alguma mulher e não como uma pessoa normal como qualquer outra, que é o que eles são. E o reforço desse estereótipo não serve à comunidade.”

Esse é o caso do desfecho de Legalmente Loira (Legally Blonde, 2001), em que a personagem de Reese Witherspoon, Elle Woods, afirma que Enrique (Greg Serano) é gay pelo fato dele saber que os sapatos que ela usava eram da temporada passada.
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O filme adolescente Melhor Amigo Gay (G.B.F., 2013) trata exatamente desse tipo de estereótipo, em que as três garotas mais populares de um colégio começam a brigar pela amizade de Tanner, quando ele é tirado do armário, pelo fato de estar na moda ter um amigo gay, como um verdeiro acessório.
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As representações homossexuais em filmes hollywoodianos das décadas entre 1890 e 1930 eram muitas vezes feitas de forma pejorativa, através de ridicularizações e objetificações. A questão não melhorou com a implantação do código Hays, regras de autocensura instituídas em 1931 pelos próprios estúdios de cinema, na tentativa de abordar apenas temas conservadores, para não provocar a ira de determinadas camadas sociais.

Esse código acarretou em uma perda de visibilidade da população LGBT, que parou de ser representada nas telonas ou quando apareciam era majoritariamente de forma discreta e retraída. Foi apenas em 1966 que ele foi oficialmente anulado. No período entre 1960 e 1970, enquanto os movimentos sociais que lutavam principalmente pelos direitos de gays e lésbicas ganhavam cada vez mais força, as manifestações no cinema eram carregadas de preconceitos, com personagens vistos como predadores, perigosos ou violentos.

Uma forte ilustração disso foi o curta Boys Beware (Boys Beware, 1961), feito em cooperação do Departamento de Polícia de Los Angeles, que tenta alertar os garotos sobre o perigo de “homossexuais predadores”. A produção ainda foi considerada recomendada para as escolas de ensino médio pelo procurador geral da Flórida Richard Gerstein.

Outro exemplo desse tipo de representação foi a comédia Os Enganadores (The Gay Deceivers, 1969), em que dois amigos mentem ser gays para não terem que entrar para o exército. Eles passam a conviver com outras pessoas LGBTs, que são retratadas com desejos sexuais constantes e predatórios, além de mostrar que homossexuais teriam vontade de ser mulher.
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Desde a década de noventa a situação tem melhorado cada vez mais, o filme Filadélfia (Philadelphia, 2003) foi um dos primeiros da linha comercial de Hollywood a tratar sobre AIDS e homofobia. Hilary Swank levou o Oscar de melhor atriz por interpretar a vida do transexual Brandon Teena em Meninos Não Choram (Boys Don’t Cry, 1999).
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No entanto ainda há grande receio por parte dos estúdios sobre a diminuição de investidores ou o risco de perder uma parcela da audiência ao produzir filmes que abordam a diversidade.

A organização estado-unidense de monitoramento de mídia Glaad (Gay & Lesbian Alliance Against Defamation, ou Aliança de Gays e Lésbicas Contra Difamação, em tradução livre) publicou um relatório em 2015 analisando a representação da população LGBT em quantidade e em qualidade nos filmes dos sete principais estúdios de Hollywood lançados no ano anterior.

Apenas 17,5% dos 114 longas analisados possuíam pelo menos um personagem identificado como LGBT. E mesmo dentro desses números, ainda há muito preconceito: 65% desses personagens eram homens gays, enquanto não houve nenhuma retratação de transexuais, travestis ou transgêneros. Essa disparidade continua na diversidade racial: quase 70% desses personagens eram brancos e apenas 11% eram negros.

Debora também comenta sobre como isso não é uma realidade apenas no cinema: “A comunidade LGBT não está fora da estrutura patriarcal, racista, cissexista e de classe que organiza a sociedade em que vivemos. Dentro dela, homens gays cisgêneros brancos estão no topo dessa cadeia alimentar e oprimem todas as outras categorias como normalmente acontece fora.”

Com a finalidade de analisar a qualidade dessas representações foi desenvolvido o Teste Vito Russo. Para o filme passar por esse teste a produção deve preencher três requisitos:

– Possuir um personagem que se identifica como lésbica, gay, bissexual e/ou transgênero.
– Esse personagem não deve ser unicamente ou predominantemente definido pela sua sexualidade ou identidade de gênero.
– O personagem também deve estar inserido no enredo de forma que a sua retirada teria efeito significativo para a história.

De todos os filmes analisados pelo relatório, aproximadamente 9% passaram no teste, e mesmo assim esse número representa uma melhora em relação aos relatórios anteriores.

Na última edição do Oscar, o filme Carol (Carol, 2015), que retrata o romance entre duas mulheres interpretadas por Cate Blanchett e Rooney Mara, recebeu seis indicações. O drama A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl, 2015), que narra a história de uma das primeiras mulheres transexuais a se submeter à cirurgia de redesignação de sexo foi indicado em quatro categorias.

E mesmo assim, ainda há muita segregação na premiação. Jamais uma produção LGBT ganhou a estatueta de Melhor Filme, e essa foi uma das reivindicações que foram feitas esse ano, além de críticas ao machismo e o racismo presentes na Academia. Debora comenta ainda como há poucos atores LGBTs e diz que “O problema é que esse tipo de prática segue perpetuando uma estrutura que mantém a comunidade LGBT longe de espaços sociais e o mercado do cinema é um e para além disso, faz com que nós continuemos a ser tratados como [seres] abjetos e não sujeitos das nossas vivências. A presença majoritária de pessoas cisgêneras e heterossexuais no mercado do cinema não é um dado natural e muito menos é o fato de que a essas pessoas são dados todos os papéis possíveis: é uma consequência de uma estrutura opressiva.”

O progresso na desconstrução de preconceitos e estereótipos é visível ao longo do tempo, mas ainda há muito a se fazer e filmes com piadas ou conteúdo discriminatório devem ser problematizados, para que um dia a sétima arte realmente represente todos.

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