Estradas Sonoras

Cris Sinatura

Em Quase famosos, a voz quase angelical de Elton John em Tiny Dancer amacia os nervos excitados da banda Stillwater durante as viagens da turnê pelos Estados Unidos. Para Ana, Tenoch e Julio de E sua mãe também, as estradas do México ficam bem mais agitadas quando o rádio toca rap. E por que não mencionar o ritmo que Shania Twain e sua Man I feel like a woman dão às “aventuras” de Britney Spears e amigas a bordo de um conversível velho em Crossroads?

Quem vai negar que música e estrada formam um par tão prazeroso quanto cinema com pipoca? Como não reparar que as notas e os tons e os timbres colocam em harmonia rodas, estradas e paisagens, conferem ritmo à dança agitada do ponteiro no velocímetro, transformam em melodia o ronco quente do motor?

Tanto é verdade que um road movie que se preze eleva a trilha sonora da categoria de mera complementação de uma cena à condição de sustentáculo condutor da mesma.  O que seria das viagens de Orlando Bloom em Tudo acontece em Elizabethtown sem a seleção musical feita por Kirsten Dunst, que vai de James Brown a Smashing Pumpkins? E o que seria de Diários de Motocicleta sem a canção Al otro lado rel rio, que, por ilustrar tão bem as viagens de Ernesto Guevara e Alberto Granada pela América do Sul, acabou por render um Oscar de Melhor Canção Original ao cantor uruguaio Jorge Drexler?

Cada estrada e cada humor pedem trilhas sonoras diferentes. Para uma viagem em clima rock ‘n’ roll, como em Quase famosos, Pearl Jam cai feito uma luva com Alive, e Lenny Kravitz com Fly away. E já que o tema dessa viagem é a busca pela fama no mundo do rock, por que não Rockstar, do Nickelback, ou All Star, do Smash Mouth?

Mas se o destino é o mar, o sol e a areia, a voz da vez é, sem dúvidas, o havaiano Jack Johnson – por clichê que seja. É só fugir do óbvio; as canções menos conhecidas, como Tomorrow morning e The horizon has been defeated, é que realmente ganhariam a cena em um bom road movie praiano.

Falando em clichê, quantos não são os filmes que usam e abusam da cena clássica em que a mocinha ou o mocinho choram rios sobre o volante enquanto dirigem? Se um desamor é o combustível que alimenta o seu road movie, então James Blunt vem a calhar com Same mistake ou então Matchbox Twenty com Cold.
Se você quer hits clássicos para conduzir os rumos sinestésicos da sua viagem, vá de Like a rolling stone do lendário Bob Dylan ou de qualquer uma dos bons e velhos Beatles (desde Help! e Ticket to ride até All you need is love, vale tudo).


Mas se seus anos dourados foram bem depois da década de 60, então aperte o play em dois hits dos anos 90: That thing you do, dos fictícios The Wonders, ou Wannabe, das queridinhas do pop Spice Girls. Saudosismo pouco é bobagem.

Se em Cinema, aspirinas e urubus, um road movie com o típico jeitinho brasileiro de ser, é Carmen Miranda quem dá ritmo às andanças de Johan e Ranulpho pelo sertão nordestino, outros nomes da música nacional também são capazes de embalar boas viagens. Da Jackie Tequila do Skank ao Cotidiano de Seu Jorge, tem opções para todo tipo de gosto, de viagem e de paisagem.

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