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Estrelas Além (da santa paciência do) Tempo
CINÉFILOS
20 fev 2017 | Por Jornalismo Júnior

Muitas são as histórias importantes que devem ser ficcionalizadas. Nem todas elas, no entanto, rendem bons filmes. Às vezes por uma abordagem reducionista, um tom melodramático ou um roteiro maniqueísta, o relato mais importante torna-se uma obra pobre e manipulativa; Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, 2016) reúne os três. Contando o caso de três matemáticas negras (Katherine G. Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer – indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) e Mary Jackson (Janelle Monáe)) vitais para o lançamento do primeiro homem ao espaço pela NASA, o filme é categórico ao fundamentar acima de qualquer discussão científica, as questões de cor e gênero. Infelizmente, o recheio para que tudo isso funcione se mostra muito aquém do conteúdo em si.

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Assim, por mais que o trio se esforce em entregar personagens empoderadas e combativas, sua postura acaba se tornando irreal frente a um universo de coadjuvantes estereotipadas. Al Harrison (Kevin Costner), chefe da equipe da NASA, incorpora o “bom moço branco”, disposto sempre a quebrar os protocolos, como o faz de forma eloquente na cena em que derruba a placa de banheiro para negras. Já o cientista Paul Stafford (Jim Parsons) e a secretária Vivian Mitchell (Kirsten Dust) tentarão sempre diminuí-las, mesmo quando o roteiro dava a parecer que Katherine ou Dorothy, por exemplo, já haviam conquistado a simpatia dos dois.

De maneira geral, a função dos brancos é a de criar barreiras a serem contornadas pelas negras, o que acaba gerando um desdobramento problemático e artificial: as únicas pessoas na NASA inteira capazes de resolver os contratempos serem elas. Dorothy, por exemplo, começa, em determinado momento, a entrar escondido na sala em que os computadores IBM para cálculos estão, sendo apenas descoberta quando ela já sabe manipulá-los perfeitamente. Da mesma forma, por mais que seus companheiros não queiram que Katherine tome do mesmo bule de café, nunca há impedimento de que ela escreva na lousa. Assim, o roteiro simplista (mas indicado ao Oscar) de Allison Schroeder e Theodore Melfi (que também assina a direção) manipula as reações e conflitos à sua necessidade, preocupando-se mais com que a trama se desenvolva do que as personagens nela.

Roteiro este que é também repleto de diálogos expositivos, como aquele em que os cientistas discutem o porquê do foguete precisar estar em órbita, quando eles já haviam lançado (mesmo que sem sucesso) pelo menos duas outras aeronaves com o mesmo propósito; portanto, provavelmente já tendo discutido o mesmo nessas duas outras ocasiões. Mas sem dúvidas, o maior erro do roteiro é o seu ritmo. É claro que explicar todas as nuances técnicas de um lançamento não seria comercial, mas também fazer com que em questão de três cenas, a placa do banheiro seja destruída, o foguete seja lançado e a tentativa se mostre infrutífera é informação demais; não há tempo de respiro. Para citar mais um exemplo, agora na esfera pessoal, a relação de Katherine e seu interesse amoroso (Mahershala Ali) se dá basicamente em quatro cenas: em uma ela o censura pelo machismo dele, na outra ela é “obrigada” a dançar com ele, afinal, não há nenhuma outra opção. A seguir, ele já o beija, e na última cena, ele já a pede em casamento. O roteiro então apenas segue fixo com a ideia de que eles devem terminar juntos, esquecendo-se do mais importante: a química do casal.

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Por fim, ainda é importante mencionar o quão importuna é a trilha sonora de Hans Zimmer. Além de genérica, ela é utilizada com tanta frequência, que ela não só se torna melodramática demais, como em determinado ponto ela deixa de surtir qualquer efeito. Ela é tão cansativa, que até mesmo em cenas em que uma personagem precisa se deslocar de um prédio ao outro, ela está presente. E mesmo quando músicas mais funkies quebram as cordas de Zimmer, o incômodo de pensar que ela voltará à frente permanece. Assim, por mais que seja positivo vermos obras que deem representatividade e protagonismo a mulheres negras, a condução sabota o potencial do filme. E mesmo que sejam elas as Estrelas Além do Tempo, nós somos os sabotados além da paciência.

 

Trailer legendado:

por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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