A evolução estética-emocional nos filmes de Harry Potter

por Ian Alves e Juliana Lima
ian.andrade.alves@gmail.com
juslimas@gmail.com

A saga Harry Potter foi um fenômeno cinematográfico – assim como literário – e fez parte da infância de muitas pessoas. O primeiro longa, Harry Potter e a Pedra Filosofal (Harry Potter and the Philosopher’s Stone), foi lançado em 2001 e o último, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 (Harry Potter and the Deathly Hallows – Part 2) em 2011. A franquia manteve seu público-alvo original, e a evolução da história foi adaptando-se a suas expectativas. Os espectadores envelheceram com as personagens: aos poucos, elas começam a se interessar e a se preocupar com assuntos cada vez menos infantis, como relacionamentos amorosos e a possível imortalidade do Lorde das Trevas. A história também amadurece, assim como nos livros, e a inicial fantasia de abordagem infantil toma a forma de uma aventura épica, com a presença de mortes e questões psicológicas.

A cada filme, a história fica mais perigosa e isso é refletido até mesmo pelo logo da Warner Bros., distribuidora dos filmes, exibido no começo de cada um deles. Ele fica gradativamente mais escuro, sombrio e enferrujado. A mudança também ocorre na trilha sonora do começo do filme: apesar de trazer uma única melodia em todos os casos, sua execução passa de calma para intrigante – e até mesmo um pouco assustadora. Essa combinação já demonstra desde os primeiros minutos o que o filme trará e começa a despertar emoções diferentes no espectador.

É interessante perceber como as mudanças estéticas nos filmes acompanham a evolução de emoções que os personagens – e consequentemente, os espectadores – sentem. Ao longo da saga, com os enredos ficando cada vez mais sérios e os problemas mais graves, cresce o número de tragédias, como mortes de personagens, por exemplo. O gráfico mostra como a quantidade de risadas decai a cada filme, enquanto a quantidade de choros aumenta – até que, no último volume da série, as duas se igualam. Coincidência?

Amanda Panteri e Laila Mouallem/ Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Harry Potter e a Pedra Filosofal

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Em Harry Potter e a Pedra Filosofal (Harry Potter and the Philosopher’s Stone, 2001), Harry tem 11 anos e, ao descobrir que é bruxo, vai para Hogwarts pela primeira vez. Tudo é novidade e a inocência dos personagens é refletida na estética do filme. As cenas iniciais, em que o menino está na casa dos tios sem saber quem realmente é, são marcadas por forte luminosidade e uso de cores diversas tanto no cenário como no figurino. A partir do momento em que chega em Hogwarts, a estética muda, porém não drasticamente, visto que o enredo ainda é infantil. O longa apresenta, em muitos momentos, paisagens abertas e a luz do dia – o que remete a uma sensação de calor, conforto e felicidade. Uma curiosidade é que as duas cenas mais perigosas – quando Harry é atacado por Voldemort na Floresta Proibida e quando o garoto e seus amigos vão encontrar a pedra filosofal – se passam durante a noite, ajudando a aumentar a sensação de perigo.

e a Câmara Secreta

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No segundo filme da saga, Harry Potter e a Câmara Secreta (Harry Potter and the Chamber of Secrets, 2002), ainda há presença de luz e cor, embora em menor quantidade. Assim como no anterior, as cenas ao luz do dia geralmente representam momentos mais divertidos e leves, como quando Harry e Rony dirigem o carro mágico da família Weasley. A imagem do carro azul sobrevoando as verdes montanhas nos faz esquecer, por um momento, do risco que os garotos estão correndo. Ao encontrar o carro novamente, na Floresta Proibida, é durante a noite e o veículo, que está destruído, não apresenta mais a cor vívida – isso, é claro, vai ao encontro à tensão do momento.

e o Prisoneiro de Azkaban

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Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (Harry Potter and the Prisoner of Azkaban, 2004) deixa evidente o fim das cenas coloridas. A tendência de cenas frias, com uso de cores insaturadas, é apresentada à franquia. E o filme conta com uma característica marcante, típica do diretor Alfonso Cuarón: o uso de takes sem cortes. O longa mostra Harry em real perigo: um fugitivo da prisão de Azkaban, teoricamente seguidor de Lord Voldemort, estaria a sua procura. Além disso, a presença de dementadores no castelo o afeta mais do que a todos e ele começa a perceber que as marcas de seu passado o diferenciam dos demais. Apesar de ter o apoio de seus amigos Rony e Hermione, o menino começa a se sentir solitário: ele aparece sozinho em cena em seis momentos (a maior quantidade de vezes em toda a saga).

e o Cálice de Fogo

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O perigo aumenta ainda mais em Harry Potter e o Cálice de Fogo (Harry Potter and the Goblet of Fire, 2005). Misteriosamente selecionado para o Torneio Tribruxo, Harry corre risco de vida constantemente. A volta de Voldemort, que estava sugerida desde o começo do filme, se confirma ao final e a primeira cena de morte da saga ocorre, com o assassinato de Cedrico Diggory. Nesse caso, o tom sombrio se mantém presente desde o início do momento que leva ao clímax – a cena da volta do Lorde das Trevas e a morte do garoto. Novamente, o uso das cores é fundamental para fomentar as emoções: é frequente o uso de cores terrosas e insaturadas; e a cena mais colorida é a do baile, um momento divertido do longa.

e a Ordem da Fênix

Quem assistiu a toda a saga provavelmente percebeu que Harry vive tendo pequenos acessos de raiva, que acontecem porque Voldemort, cheio de ódio no coração, também faz parte da essência do jovem bruxo. Seja como for, esses chiliques de Harry deixam a carga emocional do filme mais tensa e negativa, e o quinto longa da saga é recordista dessa categoria, com incríveis 9 chiliques potterianos.

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Harry Potter e a Ordem da Fênix (Harry Potter and the Order of the Phoenix, 2007) é também o filme em que Voldemort é citado mais vezes – são 29 citações – e, aliando esse a outros fatos, como o afastamento de Dumbledore e a concreta interferência da força das trevas no psicológico de Harry, pode-se dizer que é nesse volume que Voldermort consolida seu poder como Lorde das Trevas. Isso se reflete em todo o longa, desde os primeiros momentos, que já abrem o filme com dementadores e toda aquela história de “era como se toda a felicidade houvesse sumido do mundo”; passando por diversas cenas literalmente escuras (seja porque é noite, seja porque tem uma tempestade acontecendo); até os últimos minutos, em que Bellatrix Lestrange assassina Sirius Black, a atual figura paterna de Harry.

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Bellatrix Lestrange, por sinal, é recordista entre os personagens com incríveis 11 cenas de riso durante os últimos 4 filmes. As risadas de Bellatrix são sua marca registrada e, por serem muito mais sombrias do que felizes, elas não foram consideradas na construção do gráfico.

e o Enigma do Príncipe

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Assistir a Harry Potter e o Enigma do Príncipe (Harry Potter and The Half-Blood Prince, 2009) depois de ter visto o quinto volume da saga é extremamente aliviante. Não por conta do que ocorre (afinal, a morte de Dumbledore é muito mais significativa do que a de Sirius, por exemplo), mas pela maneira como elas ocorrem. Harry provavelmente consultou um ótimo psicólogo nas férias, porque dos 9 chiliques no último longa, ele passa a ter apenas 1. A chegada do professor Horácio Slughorn rende diversas cenas descontraídas e o alegre quadribol, que não marca presença em a Ordem da Fênix, é retomado nesse filme. Também há muito mais cenas durante o dia, e o próprio filtro da imagem traz cores menos frias e sombrias. Toda a condução do filme, enfim, é mais leve, com direito a Harry dando o primeiro beijo em sua futura esposa, Gina Weasley.

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e as Reliquias da Morte: Parte 1

Edwiges, a coruja de estimação de Harry, é morta por um Comensal da Morte; Hermione lança um feitiço em seus pais, fazendo-os se esquecerem da existência da filha; Harry e Voldermort se enfretam novamente em uma batalha de feitiços; e uma professora de Hogwarts que estuda os trouxas é violentamente morta por Nagini, a cobra de Voldemort. Isso tudo ocorre nos dez primeiros minutos do filme, já deixando claro que o clima não está dos melhores.

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Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 (Harry Potter and the Deathly Hallows – Part 1, 2010) traz recursos sofisticados para transmitir os sentimentos dos personagens aos espectadores. Um exemplo é o barulhinho irritante que é ouvido quando alguém coloca o Medalhão da Sonserina no pescoço, explicitando a energia negativa que as horcruxes carregam. Além disso, a maior parte das cenas do filme se passam nos locais escolhidos durante a fuga de Harry, Hermione e Rony: sempre muito vastos e  isolados, onde há bastante natureza mas nenhum sinal de vida humana, o que reforça a sensação de solidão dos três bruxos.

e as Relíquias da Morte: Parte 2

Em Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 (Harry Potter and the Deathly Hallows – Part 2, 2011), o confronto direto das forças de Harry e de Voldemort durante a Batalha de Hogwarts produz alegorias estéticas marcantes, como a barreira de proteção mágica que é formada em torno da escola e depois destruída pela força das trevas.o Apesar das muitas passagens de aventura, é nesse volume que vemos uma das cenas mais bonitas da saga: Severo Snape revelando suas memórias a Harry. As lembranças de Snape destoam do resto do filme, trazendo cenas coloridas e cheia de vida (árvores, animais) quando retratam sua infância ao lado de Lilian, mãe de Harry. Esse pedaço do longa também se destaca por sua alta carga emocional, uma vez que Snape, que sempre foi um dos símbolos de uma maldade erroneamente associada à Sonserina, mostra ter um dos corações mais corajosos entre todos os personagens.

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Harry coloca o nome de seu filho “Alvo Severo Potter”, reconhecendo as qualidades de um bruxo da Sonserina. E, pela primeira vez, a quantidade de risadas dos filmes se equipara à quantidade de choros. Talvez seja exatamente isso que J.K. Rowling queria nos mostrar: que a verdadeira vitória não tem a ver com a predominância ou com a extinção de nosso lado sombrio, mas sim com sua mais serena e sincera aceitação.

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