23º Festival É Tudo Verdade – Ex-Pajé

“Ex-Pajé” faz parte do 23º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

Nos letreiros iniciais, o filme explica que, diferente do que muitos pensam, etnocídio não é matar os indígenas fisicamente, mas espiritualmente. Em outras palavras, os costumes. Por isso, Ex-Pajé (2018) passa os primeiros 20 minutos quebrando toda a imagem que teríamos de um pajé: impedido de dormir ao lado do fogo, a única luz que ilumina Perpera é a elétrica. Além disso, sem mais o calor das chamas, o que o protege dos insetos são o mosquiteiro e o ventilador. A locomoção só se dá por Hilux ou motocicletas. E até mesmo as burocracias só podem ser resolvidas na Caixa Federal. Para piorar toda a situação, ao ser destituído pelo branco da função de pajé, o único trabalho que lhe sobra é ser zelador de uma Igreja Evangélica. Por conta disso, Perpera comenta aos irmãos indígenas que é constantemente assombrado à noite pelos espíritos.

Ao mesmo tempo em que desprezam, os indígenas retratados denotam também uma certa admiração pelos brancos. Como o pajé comenta ao ler o estudo de um antropólogo europeu, “o branco faz bem” o que se propõe. Mais adiante, descobrimos que um deles é, inclusive, casado com uma caucasiana. Mesmo assim, quando uma das mulheres da aldeia é picada por uma cobra, e nenhum rito evangélico parece salvá-la, Perpera se vê encarregado de exercer contato xamânico.

Ex-Pajé 1

O que, à primeira vista, parece ser um respiro à autonomia indígena, se mostra um cárcere ainda maior pelas escolhas estéticas do diretor Luiz Bolognesi. Optando por uma câmera  sempre estática, ele enquadra os indígenas em uma simetria que causaria inveja até em Stanley Kubrick ou Wes Anderson. Ainda, a costumeira granulação vista em documentários dá lugar a contrastes e saturações, na maioria dos casos, perfeitos. E o jogo de câmeras parece estar sempre à frente de seus personagens, gravando uma mesma cena de vários pontos de vista. O que não seria um problema, se não parássemos para nos perguntar onde estaria se escondendo o cinegrafista que faz o plano mais fechado, para não aparecer no outro mais aberto que víamos anteriormente?

Obviamente estaríamos sendo ingênuos se passássemos a julgar todo documentário pelo seu grau de manipulação. Uma situação memorável, narrativamente falando, pode não ser a melhor representação visual do mesmo. Se levássemos a discussão a fundo, até mesmo aqueles que se propõem fielmente a não interferirem na ação estão direcionando o olhar do espectador. Afinal, a simples escolha de gravar X, e não Y, denota um recorte do que os realizadores desejam que vejamos naquele momento.

Nesse sentido, Ex-Pajé não estaria nada mais, nada menos do que oferecendo uma visão mais polida do assunto. A ironia está no fato de que as personagens do filme, ao retornar às origens, estariam justamente confrontando as podas que o homem branco veio exercendo. Visão essa endossada pelo tom místico que o filme dá a esses momentos. No entanto, não poderia ser mais trágico que essa confrontação venha regrada pelo quadro do branco. Ao ser incapaz de fugir dos limites e simetrias da câmera, o indígena é mais objeto de estudo do que personagem em ação. O que Luiz Bolognesi parece não perceber é que a estetização mais mistifica a cultura, já muito vista como pagã, do que de fato celebra suas crenças.

Ex-Pajé 2

Muito por isso se questiona o lugar de fala dessas obras. Com raízes que remontam às origens da sétima arte, o cinema etnográfico sempre condicionou a civilização retratada a um olhar externo de curiosidade e excentricidade. O que muitos defendem é que para representar essas populações, os próprios deveriam pegar nas câmeras. O problema é que, distantes dos meios de produção, poucos seriam aqueles com conhecimento audiovisual para entregar um bom filme. Nesse sentido, é de se admirar o trabalho de Vincent Carelli, do maravilhoso Martírio (2017) do ano passado.

Lá, acompanhávamos a luta dos guarani-kaiowá contra latifundiários e bancadas políticas. A diferença é que, além da abordagem ser muito mais intimista, sem refinos audiovisuais, Carelli também deixava que os próprios indígenas gravassem cenas que iriam para o corte final. E o mais interessante disso tudo é a preocupação que ele tem com a educação audiovisual dessas comunidades; que mais do que simplesmente extrair a história desses povos e deixá-los na mesma miséria que os havia encontrado inicialmente, ele deixa sua contribuição os ensinando a manejar câmeras no projeto “Vídeo nas Aldeias”. E uma boa notícia é que, no começo da semana, a iniciativa disponibilizou uma plataforma de streaming com uma série de filmes produzidos pelos próprios indígenas.

Ex Pajé 3

Certamente esse debate sobre o impacto social do jornalista ou etnógrafo é complicado. No mundo repleto de prazos em que vivemos, é cada vez mais difícil que esse profissional retorne às fontes das quais se utilizou. Infelizmente, esse é um problema sistêmico que, em última análise, se expande até a forma com que nos relacionamos de forma fugaz, principalmente, nas grandes cidades.

De qualquer forma, em coletiva após a sessão, Bolognesi lembra um dos momentos supostamente mais transgressores e bonitos da obra. À porta da Igreja, Perpera dá sempre as costas ao padre para observar e ouvir o som das abelhas na árvore ao lado. Pena somente que, ao fazer isso, ele também dê de frente para os realizadores brancos do filme.

Confira o trailer:

por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

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