Festival Varilux de Cinema Francês 2015: quando a arte francesa encontra o público brasileiro dá samba

por Heloísa Iaconis
helo.iaconis@hotmail.com

           ‘’Dá samba”, “cai como uma luva”, “casa perfeitamente”, “ajusta-se bem”… Seja qual for a expressão empregada, o fato é que o Festival Varilux de Cinema Francês 2015 prova o interesse brasileiro em relação às películas francesas. No âmbito da sexta edição da mostra, o vocábulo “samba” também carrega a referência ao título de um dos longas apresentados: Samba (Samba, 2015), comédia dramática de Eric Toledano e Olivier Nakache, a qual conta a história de um senegalês que reside, ilegalmente, na França. Ademais, Christian Boudier, diretor do festival, declara, em mensagem publicada no site oficial do evento, que o Varilux “segue com crescimento em ritmo de samba”.

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Samba, imigrante ilegal que mora na França, protagonista da produção homônima

 

Dos irmãos Lumière, com a invenção do cinematógrafo, ao movimento Nouvelle Vague, passando por ícones como Brigitte Bardot, o cinema francês coleciona motivos para se orgulhar. Almejando divulgar a contemporaneidade de um cinema com história, o Varilux se consolida como o primeiro festival cinematográfico com abrangência nacional. A mostra ocorre de 10 a 17 de junho em todo o Brasil, atinge 80 salas espalhadas por 50 cidades e recebe amparo, por exemplo, do Ministério da Cultura do Governo do Rio de Janeiro e da Secretaria de Estado e Cultura. A expectativa, por parte dos organizadores, é levar mais de 110 mil pessoas aos cinemas para assistir aos 16 filmes em cartaz, um acréscimo de 10% em relação a 2014.

Jean-Luc Godard, cineasta francês, em entrevista à Express, afirmou: “O cinema, como a pintura, mostra o invisível”. Tal sentença pode ser costurada, com certa precisão, no bojo do Varilux 2015. Na seleção de obras, há a exposição do não notado e o tratamento fino de assuntos latentes, aspectos ímpares para que o público se deleite com um quadro que abarca, de forma concomitante, sensibilidade e reflexões.

Filme O Homem do Rio, incluído no festival como homenagem aos 450 anos da cidade maravilhosa

Filme O Homem do Rio, incluído no festival como homenagem aos 450 anos da cidade maravilhosa

2010: o festival desembarca em terras tupiniquins

 

Em 2010, o Festival Varilux de Cinema Francês aterrissa em solo brasileiro tendo como base um escopo exemplar do que há de mais representativo na cena cinematográfica contemporânea francesa. Sessões populares, ações educativas e encontros com diretores e atores complementam a programação. Neste ano, o Rio de Janeiro recebe uma homenagem, através da obra O Homem do Rio (L’homme de Rio, 1964), em virtude dos seus 450 anos. A cidade maravilhosa divide as reverências com o ator Pio Marmaï, personagem de uma retrospectiva especial.

 

 

 

A arte cinematográfica ultrapassa barreiras linguísticas        

Cadeiras e placas com nomes dos participantes; garrafas de água; jornalistas prontos: a coletiva de imprensa do Festival Varilux iria começar. O encontro aconteceu em São Paulo, na tarde do dia 10, data que marca o início da semana destinada à mostra. Com o auxílio de tradução simultânea, a linguagem do cinema estampou, mais uma vez, o seu caráter universal.

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Cartaz de divulgação do Festival Varilux de Cinema Francês 2015

 

Christian Boudier abre a conversa destacando o quão difícil é o desafio de adentrar nas telonas dominadas por super-heróis e monstros hollywoodianos. Faz questão de enfatizar que os convidados ali presentes não vieram a turismo e, sim, com a missão de promover o cinema francês.

Tahar Rahim, ator que participa de Samba, declara que, para ele, a origem argelina não faz diferença. A questão do imigrante, norte do longa, fez uso de elementos cômicos ao ganhar vida nos cinemas, representando a percepção os envolvidos no projeto de que a comédia é uma ferramenta para temas delicados serem tratados. Eric Toledano, um dos diretores da obra, diz que a comédia é a forma deles, os idealizadores, se expressarem. Para ele, através desse gênero é possível falar de maneira mais sutil, abordar o lado mais surreal da burocracia.

Questionado sobre uma cobrança por êxito devido ao sucesso de Intocáveis (Intouchables, 2011), produção de 2011 da dupla Toledano e Nakache, Toledano responde que tanto ele como Olivier Nakache sabiam da expectativa, mas que esta não os condicionou. Pondera que tiraram proveito do sucesso por escolherem o tema que queriam. Pontua ainda que tentaram ser sinceros e que o resultado final foi fruto da vontade de ambos.

A respeito da escolha da trilha sonora de Samba, Olivier Nakache declara que, em todas as suas obras, fazem questão de escolher boa música. As notas musicais, ressalta, trabalha com o irracional.

Retomando o ponto acerca da comédia, Martin Bourboulon, diretor de Papa ou Maman (Papa ou Maman, 2015), assinala que, muitas vezes, o gênero é “uma via de acesso eficaz para contar coisas dramáticas”.

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Papa ou Maman, filme acerca da separacção de um casal e a luta pela guarda das crianças

 

Eric Toledano rememora que, durante muito tempo, na França, houve uma visão de que a comédia seria um gênero menor. Com Samba, por exemplo, “queremos mostrar que a comédia não irá diminuir o filme”, afirma. Recapitula a fama das comédias italianas, as quais são consideradas referências nesse segmento. “Alguém disse que o riso é o menor caminho entre duas pessoas”, coloca. Toledano expressa uma vontade proveniente dos diretores de não criar nichos de “comédias populares” e produções “para a elite”. Esclarece que querem justapor os dois.

Patrick Bruel, ator do longa Sexo, Amor e Terapia (Tu Veux ou Tu Veux Pas, 2015), pensa que, há alguns anos, a comédia se tornou um gênero nobre nas terras francesas. Antes, segundo ele, havia um certo desprezo de determinada parte da imprensa. Todavia, quando a comédia começou a se inspirar em fatos sociais, o quadro foi modificado. “As grandes comédias francesas sempre foram baseadas em dramas”, diz. Abordam assuntos que tocam a todos e, até por isso, recebem uma maior consideração do público e da mídia. Valendo-se dessa ótica, Olivier Nakache aponta para a importância de aspectos como um cinema de autor e com cunho social.

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Sexo, Amor e Terapia, história de Judith, uma mulher que vive, abertamente, a sua sexualidade, e Lambert, um viciado em sexo que tenta conter os seus desejos

 

Pio Marmaï fala sobre ser homenageado pelo festival, fato que o deixou, ao mesmo tempo, emocionado e angustiado, pois o ator tem apenas 30 anos. Avalia que retrospectivas são feitas, geralmente, para quem está no fim da vida. Pega-se, por vezes, perguntando a si próprio se o seu trabalho está à altura. “Você também não ficaria emocionado se tivesse uma retrospectiva?”, pergunta para um jornalista.

Marmaï também tece comentários acerca do filme Beijei uma Garota (Toute Première Fois, 2015), no qual atua, e da questão da homossexualidade. Pontua que, na França, foi votada, há pouco tempo, a lei do casamento para todos. Salienta que o longa foi escrito bem antes da aprovação e que, portanto, não se aproveitou da lei. Acredita que, devido à perspectiva cômica, o filme abre possibilidades para que um público mais conservador o assista. “Não há clichês, é algo bem concreto. Trata-se de uma sexualidade normal, simples”, enfatiza.

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Beijei uma Garota, um longa que aborda questão da homossexualidade

 

Anne Fontaine, falando em português, definiu a história Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte (Gemma Bovery, 2014) – obra, da qual é diretora, baseada no clássico da literatura Madame Bovary, de Gustave Flaubert – como envolta por uma “intensidade de vida”. Sobre a escolha de Gemma Arterton para protagonista, Fontaine afirma que a atriz ganhou o papel só por ter dito “bom dia, Anne”.  Para a diretora, Arterton tem uma sensualidade natural, não fabricada. “Ela tem uma graça”, concluiu Anne Fontaine.

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Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte, remake contemporâneo do romance de Flaubert

 

Emmanuelle Bercot, ganhadora da Palma de Ouro de Melhor Atriz no recente Festival de Cannes, discorre sobre o tema da maioridade penal, tópico discutido em De Cabeça Erguida (La Tête Haute, 2015), produção da qual ela é diretora. Bercot conta que soube, através de um jornalista, que a questão da maioridade penal está sendo debatida no Brasil. “Eu tenho objeções sobre isso”, ressalta. De acordo com a atriz, diretora e roteirista, o seu filme fala da justiça para menores na França, uma justiça muito especifica e virtuosa em seu ponto de vista. Crê que é necessário protegê-los. Trabalhos educativos e, não, repressivos, segundo ela, seriam essenciais tanto para os menores quanto para quem já completou 18 anos (e, nem por isso, deixa de precisar de acompanhamento).

Em outro momento, ao ser questionada sobre o crescimento de mulheres ocupando o posto de direção, Emmanuelle Bercot disparou que as mulheres, na França, são muito mimadas. Para ela, os homens são maioria por estarem há mais tempo no cenário cinematográfico. Sobre as múltiplas funções na teia do cinema, arremata: “Eu só trabalho”.

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De Cabeça Erguida, obra que retrata um educador e uma juíza procurando salvar Malony, jovem que, desde os seis anos, comete pequenos delitos e possui problemas com a polícia

 

Diante de uma pergunta direcionada para todos sobre o cinema brasileiro, houve um desconforto em responder. Cidade de Deus (2002) foi um dos poucos lembrados. Christian Boudier atribui o constrangimento da mesa a um aspecto da produção brasileira atual, a qual, de acordo com ele, é mais voltada para o mercado interno do que para o exterior. Salienta que o mercado francês é bem aberto e que os seus filmes conseguem dialogar de maneira universal e, assim, ultrapassam os limites da França.

O Varilux 2015 na praça

Confira abaixo os títulos agrupados na sexta edição do Festival Varilux de Cinema Francês. Para saber mais acerca do evento, como as salas de cinema que possuem a programação, além de fotos de trailers, acesse o site: http://variluxcinefrances.com.

 

Vinheta Festival varilux 2015 from Daniel Lopes on Vimeo

Filmes:

Asterix e o Domínio dos Deuses (Asterix – Le Domaine des Dieux, 2014)

Beijei uma Garota (Toute Première Fois, 2015)

Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte (Gemma Bovery, 2014)

De Cabeça Erguida (La Tête Haute, Emmanuelle Bercot, 2015)

Hipócrates (Hippocrate, 2014)

Na Próxima, Acerto no Coração (La Prochaine Fois Je Viserai Le Coeur,  2014)

O Diário de uma Camareira (Journal D’une Femme De Chambre, 2015)

O Homem do Rio (L’homme de Rio, 1964)

O Preço da Fama (La Rançon De La Gloire, 2014)

O Que as Mulheres Querem (Sous Les Jupes des Filles, 2014)

Os Olhos Amarelos dos Crocodilos (Les Yeux Jaunes Des Crocodiles, 2014)

Papa ou Maman (Papa ou Maman, 2015)

Que Mal eu Fiz a Deus? (Qu’est Ce Qu’on A Fait Au Bon Dieu?, 2014)

Samba (Samba, 2015)

Sexo, Amor e Terapia (Tu Veux ou Tu Veux Pas, Tonie Marshall, 2015)

Sobre Amigos, Amor e Vinho (Barbecue, 2014)

 

 

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