Ficção, vida e documentário

Márcia Scapaticio

O festival de documentários “É tudo verdade” foi o destaque cultural  desta semana em São Paulo. Amir Labaki, idealizador e diretor do festival, compôs júris inportantes, como de Cannes e Berlim, apresenta o  programa “É tudo verdade” na TV Brasil, escreve livros sobre crítica e teoria de cinema, além de atuar como diretor de documentários. O evento tradicional do cinema de não ficção já está em sua 14 edição. Labaki conversou com o Cinéfilos sobre a sua trajetória profissional e os desafios enfrentados em sua carreira.

Entre a medicina e o audiovisual

Estudei primeiramente Medicina na USP/Pinheiros. Acreditava que psiquiatria poderia ser minha vocação. Cursei os dois primeiros anos, na época de formação básica, e já no terceiro combinei Medicina com o curso de Cinema na ECA-USP. Optei por abandonar a primeira e seguir na segunda. Sempre gostei

de documentários e desenvolvi o projeto de um, sobre a luta da posse de João Goulart em 1961 após a renúncia de Jânio Quadros, que acabou virando meu primeiro livro, publicado em 1986 pela Editora Brasiliense. Cursando cinema, acreditava que seria roteirista. A palavra, sempre a palavra.

Diversas atividades

Uma atividade é extensão da outra. Sinto-me essencialmente um crítico de cinema, mesmo quando mais recentemente comecei a dirigir documentários sobre cineastas, como os que fiz sobre Eduardo Escorel (2006) e agora sobre o dinamarquês Jorgen Leth (2008/09).  Escrevi ainda uma peça, “Lenya”, montada no ano passado, e também ela transitava pelos bastidores das artes.

Critérios para as mudanças do Festival

Em primeiro lugar, a necessidade de aumentar o número de reprises de cada título, num evento que ocorre simultaneamente em SP e RJ com entrada franca. Segundo: criar uma data nobre também no segundo semestre para a cultura do documentário no Brasil.

Destaques

Parece-me  ser a competição brasileira de longas e médias-metragens, ao adiantar os principais títulos de documentário da safra nacional de 2009.

Conciliar gratuidade e qualidade

A gratuidade é uma decisão política. O festival é patrocinado fundamentalmente utilizando leis de incentivo. Parece-me justo e natural retribuir este investimento público com entrada franca. Fica mais difícil fechar as contas, claro, mas tenho me empenhado, com o apoio essencial dos patrocinadores, para manter a gratuidade.

A Equipe

A equipe básica tem se mantido nos últimos anos com estudantes de jornalismo e audiovisual formando regularmente a base de nossos monitores.

Rompendo estigmas

O documentário contemporâneo rompeu o estigma de gênero didático e monótono, que se originou sobretudo da matriz griersoniana. A  sedução do espectador  se tornou uma preocupação mais marcada, como sempre foi regra para o cinema ficcional. Para os jovens cineastas, a profissão de documentarista ganhou nova legitimidade, transcendendo a imagem de atividade de formação e de passagem.

A ficção e o documentário

Ficção e documentário dialogam no cinema desde que este existe e assim continuará sendo. Há momentos em que a balança pesa mais para um dos pratos, depois para outro. Não acredito ser um fenômeno raro e tampouco nacional.

Oscar

Mudaram o essencial: a comissão de pré-seleção, as regras para inscrição e para votação dos finalistas e do vencedor. O ganho em legitimidade e representatividade dentro da categoria foi imenso

Cinemateca na TV

O festival alcançou em março sua quinta temporada ininterrupta na TV. Mais de 250 títulos, abarcando mais de 50 anos de produção, foram exibidos. Além disso, os principais documentaristas brasileiros generosamente dividiram comigo suas histórias, objetivos e projetos. É um privilégio estar por trás desta cinemateca no ar.

Cinusp

Foi muito interessante. O Cinusp era uma novidade na época e buscava definir rapidamente sua identidade.  Impôs-se e realiza um trabalho de raro dinamismo no campus. Muito me honra, passada mais de uma década, manter-me de alguma forma colaborando com o Cinusp, em mostras durante o festival e na realização em parceria da Conferência Internacional do Documentário. Essa história de sucesso deve muito à competência e ao empenho de sua coordenadora, Maria Dora Mourão.

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