Ficção ou vida real? ─ As histórias por trás das narrativas dos filmes

É muito fácil nos identificarmos com alguma narrativa contada no cinema, até porque muitas delas são inspiradas em fatos reais. No entanto, para algumas pessoas vai além de uma simples identificação, pois além da arte e do entretenimento, o cinema tem um poder muito maior do que imaginamos: criar opinião e ser ferramenta de inclusão social.

É o caso da Luciana, da Mariana e da Sabrina. Três mulheres com histórias completamente diferentes, mas que de algum modo encontraram no cinema um meio involuntário de divulgarem sua história, alcançar aceitação e força na luta contra o preconceito.

O filme que proporcionou esse sentimento em Luciana foi Que Horas Ela Volta? (2015). A história de Val e Jéssica, mãe e filha nordestinas, separadas ainda cedo para que Val pudesse ter condições de sustentar a filha, proporcionou que muitas pessoas se identificassem e  muitas outras pudessem conhecer essa realidade.

Nascida em uma pequena cidade do Maranhão, Luciana com apenas 5 anos viu seus pais se separarem e sua vida mudar completamente quando sua mãe decidiu vir para São Paulo e a deixar sob os cuidados de sua madrinha em Recife. Assim como a Val, a mãe de Luciana era empregada doméstica e mandava mensalmente dinheiro para que a filha pudesse estudar, e viver na casa da madrinha.

Luciana, tal como Jéssica, também passou na USP. E hoje mora com a mãe em São Paulo. As duas estão juntas seguindo seus sonhos, Luciana como jornalista e sua mãe como futura estudante de história.

“Eu, entre muitas pessoas, sou apenas mais uma das Jéssicas que existem no Brasil”

QUE HORAS ELA VOLTA

Já o filme Joy: O Nome do Sucesso (Joy, 2015), significou uma mudança ainda maior na vida de Mariana, pois foi através dele que ela encontrou forças para enfrentar o preconceito por ser mulher no mundo do empreendedorismo. No longa, a personagem de Jennifer Lawrence é a criadora de um produto revolucionário no mundo da limpeza, o que ocasionalmente a faz lutar para manter sua empresa próspera e ainda sim ser mãe solteira de dois filhos.

Médica veterinária há 12 anos, Mariana decidiu que precisava de mais dinheiro e tempo para ficar com os filhos e se tornou uma empreendedora. Começou com atendimento domiciliar, porém com alguns empecilhos.  

“Enfrentei preconceito por ser mulher quando fazia atendimentos veterinários em fazendas, um ambiente altamente machista”

Não desistiu; logo depois acabou se encantando com as propostas de uma empresa de marketing multinível e com a possibilidade de conciliar sua carreira como veterinária com o cargo de supervisora na Herbalife, onde tem seu próprio Espaço Vida Saudável.

Hoje, alcançou o salário que desejava e tempo para cuidar das filhas.

“Não é fácil, vejo como o principal nisso tudo o foco no autodesenvolvimento, temos que nos melhorar como pessoa para ter sucesso profissional”

JOY

Por fim, o caso da Sabrina. Mulher, mãe, esposa, filha e um exemplo de vida que tivemos a chance de conhecer melhor ao assistir o filme Extraordinário (Wonder, 2017). O longa retrata a vida de Auggie, que nasceu com uma síndrome rara chamada Treacher Collins (condição hereditária em que alguns ossos e tecidos do rosto não se desenvolvem). A trama se passa durante o primeiro ano de escola do menino e descreve as dificuldades enfrentadas por ele nesse período.

“22 de março de 1988, foi a minha estreia no mundo e dia nove de dezembro de 2017 foi a reestreia. Sim, foi assim que eu me senti ao assistir o filme Extraordinário, foi exatamente meu renascimento diante das pessoas, foi como se agora sim elas pudessem entender de forma leve o que foi e é a minha vida.”

Sabrina sempre teve muito carinho e apoio de sua família e amigos. Porém, relata casos parecidos com os sofridos por Auggie no filme.

Lembro de uma vez que me marcou, estava esperando algo na rua e uma menininha olhou pra mãe e disse: ‘olha, mãe, ela parece a bruxa daquele desenho’. Isso me deixou tão constrangida, tão marcada que eu tinha medo de me aproximar muito de crianças desconhecidas, eu evitava.”

Desde seu nascimento, assim como o personagem, Sabrina passou por diversas cirurgias. Foram 28 ao todo, e demorou quase a vida inteira para alcançar o resultado que os médicos esperavam.

“Desde o meu nascimento buscando melhorar o que não havia nascido comigo”

Hoje em dia, Sabrina leva a sua síndrome como ensinamento. Superou todas as barreiras e construiu uma família linda.

“No filme a irmã do Auggie diz pra ele, ‘não queira ser normal se você nasceu pra ser destacado’. É assim que eu me sinto. Eu me destaco por onde quer que eu passe. Seja pelo meu jeito bravo de ser porque aprendi a me defender, seja pelos sorrisos que eu dou pra qualquer um que me sorria de volta, seja pela minha tagarelice, seja pelo meu cabelo longo ou curto, pelo meu jeito de andar ou falar, meu jeito de vestir, pelo meu corpo, pela curiosidade e pela minha síndrome.”

EXTRAORDINÁRIO

Desse modo, é notório que o cinema é um mecanismo forte, e deve ser usado também para causar esse tipo de transformação. Seja para nos fazer olhar a vida por outros ângulos, ou até mesmo para nos fazer sentir parte de algo maior. Pois através de filmes como Que horas ela volta?, Joy e Extraordinário, é possível denunciar, encorajar e fazer com que uma pessoa se sinta, apesar das diferenças, incluída e relevante em nossa sociedade.

por Gabrielle Torquato
gabrielletorquato17@usp.br

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