Figurino: a primeira fala do personagem

por Mariana Rudzinski
marianarudzinski71@gmail.com

O vestido preto com o colar de pérolas de Holly Golightly. Os sapatos de Maria Antonieta. Os óculos gigantes do excêntrico Willy Wonka. A icônica camisa branca de Mia Wallace. O terninho xadrez de Cher Horowitz. Quem nunca se pegou prestando mais atenção nos figurinos do que na cena do filme e não desejou poder emprestar algumas peças de certos personagens? No entanto, o papel desempenhado por tais itens vai muito além dessa função decorativa – ainda que, muitas vezes, eles nos impressionem grandemente apenas pela beleza e riqueza de detalhes.

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A figurinista Edith Head, cercada por croquis feitos para filmes

À primeira vista, podem parecer pouco relevantes, mas os figurinos têm, de fato, extrema importância no processo de construção de um filme. Se estilo, segundo vários nomes da moda, é uma maneira de mostrar quem você é sem dizer nada, as roupas, sapatos e acessórios em um longa metragem funcionam de maneira semelhante e cumprem esse papel, funcionando como a primeira fala, mesmo que sem palavras, de cada personagem, algo que construirá a primeira impressão da audiência a respeito dele. Além disso, os figurinos são responsáveis por indicar o “o que” e o “onde” de cada produção. São eles os primeiros a situar uma história no tempo e no espaço.

Por conta disso, os figurinistas têm relações muito próximas com os diretores e produtores em um set de filmagem, uma vez que são os responsáveis por concretizar as visões artísticas que todos esses profissionais têm dos personagens de um filme. Em alguns casos, o próprio diretor faz as vezes de figurinista, para garantir que a suas ideias serão totalmente seguidas e respeitadas. É o que faz Xavier Dolan. Em outros, o cineasta convida algum estilista de moda para produzir todas as vestimentas do longa, como fez Tom Ford no longa 007 Contra Spectre (Spectre, 2015), da franquia James Bond. O mais comum, no entanto, é que  figurinista seja um profissional especializado na área e contratado para exercer apenas essa função e que, por vezes, tenha a ajuda de algum estilista, que produzirá algumas roupas ou sapatos específicos. No icônico filme Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s, 1961), por exemplo, a figurinista era Edith Head, porém o estilista francês Hubert de Givenchy assinou todos os vestidos usados por Audrey Hepburn.

figurinos-02Mas como se dá o processo de criação dos figurinos em um filme? As etapas não são exatamente iguais e dependem muito do tipo de produção, orçamento e estilo de trabalho de cada profissional, mas, em linhas gerais, acontece da seguinte maneira: o figurinista recebe a oferta de trabalhar com um longa e lhe é enviado o roteiro. Depois, ele tem uma primeira reunião com o diretor e produtor, na qual apresenta suas pesquisas prévias e todos discutem suas visões criativas e ideias sobre os personagens. Quando os atores são escalados, a equipe responsável pelos figurinos passa a produzir as peças desenhadas pelo figurinista ou estilista, quando é o caso, e buscam por peças em lojas comuns e brechós, ou pedem itens emprestados para marcas prestigiadas.

A pesquisa é uma parte indispensável do trabalho. Para filmes de época, pesquisa-se o período histórico e as roupas utilizadas por pessoas de diversas camadas da sociedade em livros, fotografias e até mesmo documentos de registro como diários. Nesses tipos de produção, o rigor histórico é importante, mas muitos figurinistas dirão que só a precisão não basta. Jacqueline Duran, por exemplo, responsável pelo figurino de Anna Karenina (Anna Karenina, 2012), afirmou considerar essencial criar o tipo de peça que o público acreditaria que a aristocracia russa poderia utilizar, mas que não seriam necessariamente idênticas às usadas na época. Por isso, segundo ela, justifica-se sua inspiração na década de 1950 e uso de jóias Chanel, que ainda não existiam no século XIX, mas que se encaixavam na atmosfera buscada no filme.

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Em longas contemporâneos, as investigações são distintas. O que está sendo vendido nas lojas e a moda de rua são os principais focos de pesquisa, mas também se recorre aos que foi exibido nas passarelas da Semana de Moda. Alguns figurinistas (os com os melhores contatos) conseguem compor o figurino dos filmes em que estão trabalhando com itens exclusivos de grifes conceituadas, como é o caso de Patricia Field, que, para lidar com o orçamento relativamente baixo de O Diabo Veste Prada (The Devil Wears Prada, 2006), contou com a ajuda de seus amigos estilistas, que emprestaram peças de suas marcas para a produção.

Ainda, os figurinistas têm papel fundamental no trabalho com os atores. Muitos já disseram que se sentem como espécies de psicólogos nos sets de filmagens, porque sempre respondem pergunta dos atores a respeito de características de personagens e sobre a visão do diretor e roteirista. A própria escolha das peças que irão compor o figurino tem influência sobre a atuação, uma vez que as roupas são parte intrínseca do processo de formação daqueles que darão vida aos personagens.

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Patricia Field com Meryl Streep no set de O Diabo Veste Prada

O figurino, portanto, exerce várias funções importantes em um longa: auxiliam a caracterizar física e psicologicamente um personagem, situam o enredo no tempo, refletem a moda e os costumes de uma época, e também ditam novas tendências. Eles vão além do que o roteiro é capaz de expressar nas falas e são capazes de eternizar tomadas, cenas, atores e até mesmo os próprios filmes.

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