Filmografia da Barbárie: Palestina e Israel no Mundo do Cinema

por Marcos Hermanson Pomar
marcoshpomar@gmail.com

Palestina e Israel: as imagens que vêm à cabeça não são, infelizmente, de paz. A violência na terra sagrada, assim como a sede de sangue dos cães da guerra, parece infinda.

De um lado uma nação cirurgicamente implantada no deserto há meio século, que conta desde então com as armas e as câmeras das potências ocidentais. Do outro, um povo que, impedido de formar um estado próprio, vê o seu território sendo roubado mais e mais a cada ano, mas que ainda assim não desiste nunca de lutar por suas terras e seus direitos.

A carnificina é mais antiga do que se imagina: já em 1948 a região sofre com a primeira Guerra Árabe-Israelense, que resulta num contingente de 750 mil refugiados palestinos. Em 1956, Israel, Estados Unidos e Inglaterra declaram guerra ao Egito pelo controle do Canal de Suez. 1967: alegando promover uma guerra preventiva, Israel ataca a Síria, Egito, Iraque e Jordânia e destes toma as Colinas de Golã, a Península do Sinai e a faixa de Gaza; o episódio fica conhecido como a Guerra Dos Seis Dias e deixa mais 300 mil palestinos refugiados. Desde então o conflito não cessa. Sob ataque constante de Israel, os territórios palestinos encolhem cada vez mais, passando a ser direta ou indiretamente controlados pelo estado judeu, que promove bloqueios, invasões e violações dos direitos humanos. Em 2014, morrem aproximadamente 2.200 palestinos; destes, 250 são crianças.

Apesar de pouco conhecidas neste canto do mundo, são muitas as obras da sétima arte que retratam, sob as mais variadas perspectivas, este triste rincão do Planeta Terra.  Seguem abaixo alguns filmes que podem ajudar a esclarecer aqueles que, como o autor que vos escreve, anseiam conhecer mais sobre esta terra em disputa.

5 Câmeras Quebradas

5 Câmeras Quebradas (Khamas Kamīrāt Muḥaṭṭamah, 2012) é, antes de mais nada, um filme sobre resistência; o documentário é composto pelas filmagens de Emad Burnat, agricultor palestino que compra sua primeira câmera com o intuito de registrar o nascimento de seu quarto filho, Gibreel. O nascimento do garoto coincide, no entanto, com o início de uma ofensiva israelense. Emad se vê então obrigado a registrar a pilhagem de Israel e a resistência do vilarejo de Bil’in, que acaba se tornando um símbolo de luta no mundo todo.

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Em seu emocionante registro visual, capturado ao longo de quatro anos, o cinegrafista autodidata mostra a luta incansável dos habitantes do vilarejo pela devolução de suas terras e pelo fim do muro que os separa das áreas tomadas pelo Estado Israelense; ao mesmo tempo, Emad acompanha o crescimento de Gibreel. Com o passar do tempo, o próprio garoto se torna protagonista da resistência que culmina, depois de muito sangue derramado, na retirada do muro e na devolução de parte das terras palestinas a seus verdadeiros donos. O filme foi amplamente bem recebido no Ocidente, tendo ganhado, entre outros prêmios, o Sundance de melhor direção e uma indicação ao Oscar para melhor documentário do ano de 2013.

Valsa Com Bashir

Nesta animação, mistura de ficção e realidade, o ex-combatente Ari Folman luta para trazer à tona as memórias enterradas do período em que serviu na Guerra do Líbano (1982).

O filme se torna mais e mais comovente à medida que o veterano busca os antigos companheiros e vai, pouco a pouco, recuperando as lembranças reprimidas de um combate brutal e injusto, que deixou marcas profundas também naqueles que foram seus principais protagonistas: os soldados.

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Conversando com aqueles que combateram junto a si, o personagem principal vai resgatando relatos dessa carnificína e recompondo por partes a sua própria versão dos fatos. Todo esse resgate culmina finalmente nos massacres de Sabra e Shatila, episódio em que milícias cristãs dizimaram refugiados palestinos com o apoio e a conivência do exército e do Estado israelita.

O grande mérito do filme, além de suas qualidades técnicas e seu realismo ardente, talvez seja a reflexão que propõe, ao sugerir que os soldados judeus eram, naquele momento, protagonistas de algo muito semelhante ao genocídio sofrido por seu próprio povo durante as décadas de 30 e 40 do século passado.

Paradise Now

Antes de começar a falar sobre o longa-metragem palestino é preciso citar seu diretor, Hany Abu-Assad: “os políticos querem ver [o conflito] como sendo preto-e-branco, bem e mal, e a arte quer ver como algo humano”. É exatamente isto que Paradise Now, de 2005, faz tão bem: retratar os palestinos em seu lado verdadeiramente humano. O filme faz um contraste entre as condições de vida dos habitantes da Cisjordânia e os israelenses, com um enfoque especial no efeito psicológico que a dominação israelita tem sobre suas vítimas.

Na produção palestina, dois amigos de infância,  Said e Khaled, são recrutados por um grupo de resistência para executar uma missão suicida. O enredo acaba por colocar em contraste o cotidiano dos personagens e o papel que devem desempenhar como mártires da resistência. Com o desenrolar da trama, fica difícil não simpatizar com os protagonistas, que colocados entre uma vida de sofrimentos e a morte, escolhem ir dessa para a melhor como homens-bomba.


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Sem deixar de questionar os ataques suicidas, o filme dá voz àqueles que nunca são ouvidos, mostrando de maneira delicada os motivos e as crenças dos homens e mulheres que são, via de regra, tudo o que há entre sua terra e os dentes de Israel, afiados como navalhas, sempre prontos a arrancar mais um pedaço da terra palestina.


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As produções descritas no texto acima mostram as aflições de uma terra que chora. No entanto, ao assisti-las fica a impressão de que há luz no fim do túnel, e de que apesar das indeletáveis marcas da barbárie, a porta da solidariedade e da compaixão entre os povos do mundo não se fechou: tanto entre os israelenses, vítimas também deste passado de guerras, quanto entre os palestinos e sua luta incansável por seus direitos. Ademais, é importante lembrar que esta seleção tem, desde sua concepção, o singelo intuito de prestar uma homenagem às vítimas da insensatez humana.

 

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