A Garota Dinamarquesa, mais do que um filme chocante

por Lídia Capitani
lidiamcapitani@gmail.com

A garota dinamarquesa nasceu homem, Einar Wegener. Ele se casou com Gerda em 1904, quando tinha 21 anos, e ela 19. Ambos eram pintores, ele reconhecido por suas paisagens, e ela por pinturas de mulheres. Um dia, uma modelo de Gerda não pode aparecer, e Einar se voluntariou para posar como mulher, assim sua esposa poderia terminar o quadro. Einar se sentiu a vontade naquele vestido, mas sua identificação com o gênero oposto não nasceu e nem morreu naquele momento. Porém, foi em 1930 que Lili entrou para a história ao se submeter a primeira cirurgia de resignação de sexo, com o cirurgião alemão Magnus Hirchsfeld, precursor da primeira fundação que defendia os homossexuais e transsexuais. Depois da primeira cirurgia de castração, Lili se submeteu a diversas outras cirurgias do gênero.

Esta é a parte real do enredo do mais novo filme de Tom Hooper, A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl, 2015), diretor de longas renomados como O Discurso do Rei (The King’s Speech, 2010) e Os Miseráveis (Les Misérables, 2012). Baseado no livro romance-biográfico homônimo David Ebershoff, a produção foi indicada ao Oscar de Melhor Ator com Eddie Redmayne (Einar Wegener/ Lili Elbe), Melhor Atriz Coadjuvante com Alicia Vikander (Gerda Weneger), Melhor Figurino e Melhor Direção de Arte.

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Lili Elbe (Eddie Redmayne) e Gerda Weneger (Alicia Vikander)

De fato, o filme faz jus a tais indicações. Os figurinos dos anos 1920 são incríveis, principalmente as roupas de Lil,i que chamam nossa atenção por serem tão delicadas. A arte e fotografia são impecáveis, com cenas das cidades europeias, enquadramentos e paleta de cores pastéis.

Alicia Vikander chamou a atenção pela performance emocionante de Gerda Weneger. Ela a interpreta como uma mulher forte e madura, pois apoia o marido na transição, mesmo o amando. Alicia abraçou esta dualidade da personagem com maestria e conseguiu nos tocar profundamente com sua vivacidade.

Eddie Redmayne também recebeu diversos elogios por conseguir retratar uma personagem tão complexa quanto Einar/Lili, que apesar de serem a mesma pessoa, não são personagens iguais. Einar é um pintor renomado, que ama sua esposa, porém mantém um segredo, ou melhor, mantém parte de sua persona em segredo: Lili. Einar é Lili, porém, Lili não é Einar. Lili é a verdadeira identidade de Einar, mas, ele a reprime. O filme retrata justamente essa “libertação”, como se Lili vivesse sob o exoesqueleto de Einar. O ator comentou que o roteiro de A Garota Dinamarquesa, escrito por Lucinda Coxon, foi o melhor que ele já leu, mas para conseguir interpretar sua personagem, ele conversou com diversos transsexuais para entender suas angústias, medos, traumas, paixões e o processo de descobrimento do seu verdadeiro “eu”.

A Garota Dinamarquesa 2

Apesar da indicações ao Oscar, o filme recebeu muitas críticas, principalmente por escolher um homem cisgênero para retratar uma personagem transgênero, e ocultar alguns detalhes importantes da biografia do casal. Tom Hooper diz que sua primeira opção foi cotar Eddie Redmayne para o papel, pelo talento do rapaz, que recebeu o Oscar de Melhor Ator em 2015 pelo filme A Teoria de Tudo (The Theory of Everything, 2014), no qual interpretou o físico Stephen Hawking. A crítica, porém, não é em razão ao seu talento, e sim por ele ser um homem interpretando uma mulher, o que realça o quanto a industria cinematográfica exclui tais grupos. O fato não pode nem ser atribuído a falta de atores, basta observar algumas séries em que atores transsexuais interpretam papeis transsexuais, como a Laverne Cox, a Sophia Burset na série Orange Is The New Black e Jamie Clayton, a Nomi Marks de Sense8. O filme ganha pontos aos retratar a história da primeira transsexual, o que conta como uma bela representatividade dessa minoria em Hollywood, porém, peca na escolha do elenco.

Outro erro apontado foi a omissão da sexualidade de Gerda Weneger. Percebemos, ao longo do filme, o quão importante foi a esposa no processo de construção de Lili Elbe. A palavra transexual não existia na época, o que contribuiu para que Lili e Gerda ficassem tão assustadas e perdidas. Quando seu marido passou a se identificar como Lili, Gerda assumiu sua atração por mulheres, na história real. O longa também omite que a companheira de Lili fazia muitas pinturas eróticas de mulheres. Esse pequeno toque teria elevado o nível de sensibilidade da produção, porém, poderia causar mais alvoroço do que já causou e ainda ofuscar o foco em Lili Elbe.

A Garota Dinamarquesa, que estreia em 11 de fevereiro nos cinemas, é um pequeno passo para Hollywood, em tempos modernos cujos direitos humanos são a pauta principal. O sociedade global está caminhando a passos de bebês para, enfim, termos representatividade das minorias, nenhum preconceito e direitos iguais a todos. O simples fato de contar uma história de uma transsexual já choca o mundo, tanto que o filme foi proibido em Catar pelo ministério da cultura por ser “depravado”. Apesar das incoerências, o filme é extremamente tocante e sensível, além de retratar esta história tão, importante da comunidade trans. Ele merece as indicações, o hype, e sua atenção.

Confira o trailer!

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