Ghost in the Shell, um Nó no Fluxo de Informações

 -Recordar: do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração.

O LIVRO DOS ABRAÇOS, Eduardo Galeano.

 

As décadas de oitenta e noventa do século passado marcaram o que é o Japão aos olhos do mundo. Uma nação organizada, rica e tecnológica. Este estereótipo, no entanto, deixa oculta uma sociedade que vive o conflito entre a super-industrialização e o peso inexorável de séculos de tradição. Não por acaso, nestas mesmas décadas, Ghost in the Shell (1995) e Akira (1988) foram feitos. Dois filmes que expressam a convulsão latente na cultura nipônica. O primeiro, em especial, trata das definições de vida e indivíduo à luz de um progresso tecnológico implacável. Apesar da estética datada, as questões apresentadas permanecem relevantes.

Do diretor Mamoru Ishii, a narrativa acontece no, não mais tão distante, ano 2029. Num mundo onde o conceito de nações se confunde com o de corporações, onde o orgânico está tão entrelaçado com o virtual que não há outra guerra senão a cibernética. Neste cenário, a Major Motoko Kusanagui, uma andróide, de sentidos, agilidade e reflexos sobre-humanos, investiga os crimes de um hacker, cujas implicações podem acarretar em graves incidentes diplomáticos.

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O trabalho de direção é, junto com o roteiro, os aspectos da animação que mais se destacam. A composição dos enquadramentos, os elementos em cena, são cheios de simbolismo. Assim como as falas trazem conceitos filosóficos com profundidade, rejeitando diálogos expositivos. Uma sequência, em especial, após o monólogo de Motoko sobre o que define o indivíduo, mostra vários fragmentos da cidade. Sarjetas, vitrines luminosas, letreiros em neon, os guarda-chuvas amarelos de um grupo de crianças em contraposição com os guarda-chuvas pretos dos adultos, tudo sobre um plano de fundo cinza e melancólico. Construindo, em poucos planos, todo um contexto de consumo desenfreado e preponderância do concreto sobre a terra. A icônica cena de introdução da Major, com sua canção em coro, e as ótimas cenas de ação, são outros pontos fortes do longa.

Dentre os debates sobre os quais o filme se debruça, o mais trabalhado é o do indivíduo. Aquilo que nos faz sermos quem somos. Com fortes ecos do mito do barco de Teseu, do filósofo grego Plutarco. A partir do momento em que pudermos nos desfazer aos poucos de cada parte dos nossos corpos, ou conchas, por peças mecânicas, em alguns momentos deixamos de ser quem somos? O filme responde que são nossas lembranças que nos definem, compõe nossos fantasmas. Seguindo esta ideia, num determinado momento, uma personagem se apresenta como uma nova forma de vida. Uma que nasceu virtualmente. Algo que se define como além de uma inteligência artificial, mas como um ser, pois sua definição de vida é um “nó no fluxo de informações”. Um aglutinado de recordações. Estas traduzidas em dados binários. E que, como nossos genes, buscam a variabilidade necessária para se perpetuar e se manter, de alguma forma, imortais.

Ghost in the Shell 2

Ghost in the Shell, é um desses filmes que marcam uma geração e geram ecos. É famoso por ser uma das grandes inspirações de The Matrix (Matrix, 1999) e de toda a estética cyberpunk. A história vai ser revivida numa versão live action com estréia em 29 de março de 2017, e contará com Scarlett Johansson no papel da Major. Enquanto isso, o Cinemark exibirá a animação no dia 14 de março. Para aqueles que já são fãs acalmarem a ansiedade e para quem não assistiu ter a oportunidade de ver no cinema uma obra, no mínimo, instigante.  

 

 

Trailer em inglês da animação:

 

Trailer legendado da live-action: 

por Daniel Miyazato
danielmiyazato@gmail.com

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