God Save The Queen: o Absolutismo no Reino do Celulóide

Hugo Nogueira

Em 1937, o New York Daily News promoveu uma enquete que resultou a eleição de Clark Gable e de Mirna Loy como o Rei e a Rainha de Hollywood. A associação entre o estrelato e a condição nobiliária parecia, então, bastante natural. Astros e estrelas cinematográficos simbolizavam a realeza norte-americana, projetando nas telas o caráter excepcional de suas personalidades enquanto a massa de fãs acompanhava todos os lances de suas vidas como fiéis súditos. Igualmente natural, portanto, foi a profunda identificação estabelecida entre a imagem pública de certos artistas e a figura de reis e de rainhas que mudaram, nas suas respectivas épocas históricas, a face política do mundo.

Lawrence Oliver como Ricardo III

Lawrence Oliver como Ricardo III

No cinema, o absolutismo monárquico alcançou dimensões espetaculares e os reis da Inglaterra foram especialmente privilegiados. Lawrence Olivier, usualmente tomando as obras primas de William Shakespeare como tema para as primorosas adaptações cinematográficas que dirigiu e interpretou, foi um dos atores que mais encarnou a realeza nas telas. Particularmente relevantes no imenso legado artístico de Olivier são suas composições de Henrique V (Henry V, 1944) e Ricardo III (Richard III, 1955). As tramas e malabarismos políticos de Henrique II (Peter O’Toole) também tiveram tratamento primoroso no excelente O Leão no Inverno (The Lion in the Winter de Anthony Harvey, 1968). O destaque da produção, além da presença de um jovem Anthony Hopkins no papel de Ricardo Coração de Leão (especialmente memorável em uma cena ousadamente sugestiva de homoerotismo) é a interpretação de Katharine Hepburn como a brutal e elegante Rainha Eleanor de Aquitânia.

Katherine Hepburn em Mary Stuart, a Rainha da Eascócia

O Rei Ricardo Coração de Leão (Ian Hunter) já havia feito sua aparição nas telas para destronar o Príncipe João Sem Terra com o auxílio de Robin Hood (Errol Flinn) em As Aventuras de Robin Hood (The Adventures of Robin Hood de Michael Curtis, 1938). Katherine Hepburn também já havia sofrido as agruras do poder absoluto no papel-título de Mary Stuart, Rainha da Escócia (Mary of Scotland de John Ford, 1936): a Rainha Stuart perde a disputa pelo trono e sua cabeça (literalmente) para Elizabeth I (Florence Eldridge), a derradeira monarca da dinastia Tudor num filme que foi um imenso fracasso de bilheteria.

Tudors

Os Tudor foram, de longe, a dinastia absolutista mais celebrada no cinema. Emil Jannings interpretou Henrique VIII às voltas com Ana Bolena (Henny Porten) na produção alemã Ana Bolena (Anna Boleyn, de Ernst Lubitsch, 1920). Porém, Charles Laughton ofereceu um retrato definitivo de Henrique VIII em A Vida Privada de Henrique VIII (The Private Life of Henry VIII de Alexander Korda, 1933) ao lado de algumas das rainhas que desposou: Ana Bolena (Merle Oberon), Jane Seymour (Wendy Barrie), Catarina Howard (Binnie Barnes) e Anna de Cleves (Elsa Lanchester). Elizabeth I foi ainda mais bem sucedida que seu tirânico pai, senão no trono, certamente nas telas. A grande diva dos palcos franceses, Sarah Bernhardt, encarnou a personagem pela primeira vez em Les Amours de la Reine Élisabeth (de Henri Desfontaines e Louis Mercaton, 1912), um retumbante sucesso nos Estados Unidos e na Europa. Flora Robson

Robson interpretou a última rainha Tudor por duas vezes no cinema: em Fogo sobre a Inglaterra (Fire Over England de William K. Howard, 1937) e em O Falcão dos Mares (The Sea Hawk de Michael Curtis, 1940). Foi porém com Bette Davis que a Rainha Virgem encontrou sua intérprete definitiva em duas excelentes produções: Meu Reino por um Amor (The Private Lives of Elizabth and Essex de Michael Curtis, 1939) e em A Rainha Tirana (The Virgin Queen de Henry Koster, 1955).

Bette Davis em A Rainha Tirana

Bette Davis em A Rainha Tirana

Franceses

Cena de Intolerância, filme de 1919

Cena de Intolerância, filme de 1919

A monarquia absolutista francesa também mereceu um tratamento digno de nobres nas telas e o destaque cinematográfico girou em torno da ascensão e queda da dinastia dos Bourbons. La Mort du Duc de Guise (de Charles Le Bargy, 1908) coloca em cena as tramóias de Henrique III (interpretado pelo próprio diretor Le Bargy) contra seu rival, o Duque de Guise (Albert Lambert), um dos principais instigadores do massacre da Noite de São Bartolomeu. Os Bourbons jamais teriam alcançado o trono da França caso Henrique de Navarra não tivesse sobrevivido à Noite de São Bartolomeu. Este episódio foi retratado inúmeras vezes pelo cinema sempre com ênfase para a cruel Catarina de Médici. A terrível déspota foi interpretada por Josephine Crowell num dos célebres episódios de Intolerância (Intolerance, Love’s Struggle Throughout the Ages de D. W. Griffith, 1916) e, mais recentemente, por Virna Lisi em Rainha Margot (La Reine Margot de Patrice Chéreau, 1994). Catarina de Médici (Marisa Pavan), não obstante, encontrou uma rival à sua altura em Diana de Poitiers (Lana Turner) no filme Diana de França (Diane de David Miller, 1956).

Norma Shearer como Maria Antonieta

Norma Shearer como Maria Antonieta

Inquestionavelmente, Maria Antonieta,a princesa austríaca da casa dos Habsburgos que se uniu a Luís XVI da dinastia Bourbon foi a rainha francesa mais famosa das telas. Atuando como a protagonista de Maria Antonieta (Marie Antoinette de W. S. Van Dyke, 1938), Norma Shearer estabeleceu o padrão de glamour, sofisticação e frivolidade que serviria de parâmetro para todas as demais interpretações da soberana tragicamente decapitada.

Os Habsburgos foram também esplendidamente relembrados em Juarez (Juarez de William Diertele, 1939), filme que aborda a breve e mal-fadada monarquia mexicana de Maximilian von Habsburg (Brian Aherne) sob comando do Imperador Napoleão III (Claude Rains), o qual, no filme, faz jus ao apelido de Napoleão, o Pequeno, concebido por Victor Hugo, com o qual o sobrinho do primeiro Napoleão entrou para a História. O destaque do filme é a suntuosa interpretação de Bette Davis como a trágica Carlotta de Habsburgo, sobretudo na cena em que sua loucura finalmente vem à tona: mais um dos excelentes desempenhos de Davis em sua melhor fase.

O despotismo esclarecido foi representado nas telas em varias ocasiões. Apesar de não guardar nenhuma semelhança física com a célebre Rainha Cristina da Suécia, Greta Garbo concebeu um retrato esplêndido desta monarca em Rainha Cristina (Queen Christina de Rouben Mamoulian, 1933). O derradeiro e longuíssimo close no rosto imóvel de Garbo ao final do filme desafia o tempo e remanesce como uma das mais famosas e misteriosas cenas de toda a cinematografia norte-americana.

É questionável afirmar que a monarquia absolutista eslava conheceu algum dia uma rainha tão exuberante e independente quanto Marlene Dietrich em A (The Scarlet Empress de Josef von Sternberg, 1934). Nesta produção, a atriz berlinense encarna a Czarina Catarina da Rússia com grande pompa, cercada de uma legião de amantes e idolatrada pela população numa perfeita simbiose da personalidade da grande déspota esclarecida com a própria persona cinematográfica de Dietrich. Catarina II (Pola Negri) já havia surgido nas telas em Fobidden Paradise (de Ernst Lubistsch, 1924) e voltou episodicamente à cena na grandiosa produção alemã Münchhausen (de Josef von Baky, 1942/1943). Mais tarde, a mercurial Tallulah Bankhead encarnou a rainha em A Royal Scandal (outro filme de Ernst Lubitsch, 1945, baseado na vida da imperatriz da Rússia).

Marlene Dietrich em A Imperatriz Galante

Marlene Dietrich em A Imperatriz Galante

Imperatriz Galante

Cumpre também recordar a dinastia russa dos Romanov, a qual foi encarnada pelo clã de atores da família Barrymore, a nobreza da Broadway, em Rasputin e a Imperatriz (Rasputin de Richard Boleslawski, 1932). A produção reuniu o Príncipe Paul Chegodieff (John Barrymore), inspirado em Feliks Yussupov, o assassino de Rasputin, a Czarina Alexandra Romanov (Ethel Barrymore) e o próprio místico Grigori Rasputin (Lionel Barrymore), além da Princesa Natasha (Diana Wynyard), hipóstase da real Princesa Irina. O filme marcou a única reunião dos três famosos irmãos da Broadway nas telas: John Barrymore, afirmou que este encontro seria “como um circo com três baleias brancas” – neste sentido, o grande ator estava absolutamente correto.

A monarquia absolutista européia tem se constituído num longevo fetiche cinematográfico o qual coloca grandes atores diante de grandes reis e de portentosas rainhas o que, simbolicamente, remete a audiência ao papel de súditos dos astros e estrelas cinematográficos. Estes, por sua vez, provêm às personagens históricas com o fascínio de suas exuberantes personalidades. Na mente do espectador, realeza e cinema se confundem numa mesma realidade psicológica e, assim, a Sétima Arte vem escrevendo, re-escrevendo, inventando e re-inventando um dos períodos mais extensos, férteis e incertos da História. Em última análise, tanto o cinema como o absolutismo monárquico partilham da mesma percepção subjetiva de distinção e nobreza que atravessa épocas e gerações mantendo incólume a essência indevassável de seu mistério.

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