Graças às musas: Yorgos Lanthimos

Director Yorgos Lanthimos poses during a photocall for the film "The Lobster" in competition at the 68th Cannes Film Festival in Cannes, souther France, May 15, 2015. REUTERS/Benoit Tessier - RTX1D2PW

Quando se pensa na arte que vem da Grécia, lembra-se primeiramente das grandes obras arquitetônicas construídas em homenagem aos antigos deuses. Mitos como os de Hércules e Édipo também fazem parte da cultura milenar deste país,  já tendo sido retratadas de várias maneiras em livros, filmes e seriados hollywoodianos. Pouco se sabe, no entanto, que o canto das musas ainda não cessou. Pelo contrário, ele ainda inspira reles mortais a contarem incríveis histórias totalmente diferentes das que estamos acostumados, mas que também possuem valor inestimável.

Yorgos Lanthimos nasceu em Atenas em 1973 e começou sua carreira humildemente, dirigindo vídeos de dança, comerciais de televisão e videoclipes musicais. Em 2005, o mundo teve o primeiro vislumbre do que o diretor seria capaz de criar: Kinetta (Kinetta, 2005) foi o primeiro filme escrito e dirigido por Lanthimos a ser lançado. O estranhamento ao assistir tal obra é inevitável; Kinetta é homônimo de um hotel grego, onde se passa uma história delicadamente construída por três personagens que pouco falam durante os 95 minutos de exibição.

O roteiro trata da baixa temporada da hospedaria e, por conta da movimentação quase nula, o marasmo toma conta dos protagonistas, também funcionários do local. Encenando porcamente conflitos entre um casal, os três buscam uma identidade perdida pelo tédio e pela falta de convivência humana. A cinematografia, por sua vez, quase nunca aposta num enquadramento estático; a impressão passada é de que a filmagem foi inteiramente feita por câmeras de mão. Somados ao silêncio predominante, esses fatores resultam num filme de difícil entendimento, mas que ao ser absorvido, funciona como introdução para o apogeu de Lanthimos.

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A Trilogia da Identidade Social

Dente Canino (Kynodontas, 2009) inicia uma sequência de trabalhos que extrapolam diferentes situações sociais, revelando pouco a pouco o quanto a vida de um ser humano é regida por aqueles que estão a seu redor. Na primeira parte desta trilogia, o isolamento é levado ao absurdo por pais fanáticos, que privam seus três filhos de qualquer conhecimento externo ao quintal de sua casa. Sem possuir ao menos nomes próprios, eles vêem um avião como uma miniatura que pode cair em seu gramado e um gato como fera selvagem, por exemplo.

Dente Canino trouxe o trabalho de Lanthimos ao cenário cult com incrível rapidez, refletida pelas inúmeras indicações e premiações que recebeu: Un Certain Regard, no Festival de Cannes e a indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro são apenas duas de várias condecorações.

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Depois de tanto sucesso, a expectativa sobre Alpes (Alpeis, 2011) era imensa, e o diretor correspondeu a ela prosseguindo seu estudo artístico das relações humanas. Dessa vez, o luto foi o tema escolhido para dar trilhos ao enredo. Um grupo de pessoas organiza-se para substituir física e comportamentalmente os mortos, para assim reduzir o pesar de seus familiares e entes próximos. Novamente, a identidade dos protagonistas é colocada em xeque: a vida pessoal dos “substitutos” mistura-se com as inúmeras personalidades adotadas em seu ofício, resultando num clímax controverso.

O grego, então, resolveu aventurar-se em Hollywood. O Lagosta (The Lobster, 2015) finaliza, num universo totalmente distópico, a Trilogia de Yorgos Lanthimos. Nele, os hóspedes de um isolado hotel são obrigados a conseguir um par romântico durante sua estadia de 30 dias. Para estender esse prazo limite, eles caçam fugitivos que deixaram seus aposentos para viver na floresta mais próxima; a cada indivíduo capturado, mais um dia é concedido. Caso falhem na missão, os solitários serão transformados em um animal de sua escolha e poderão viver soltos na natureza. Assim, O Lagosta escracha a pressão social para se casar e, teoricamente, viver feliz de acordo com padrões.

Além de questionar profundamente quanto do comportamento humano é parte de sua natureza selvagem e quanto é imposto pela sociedade em que se vive, os três filmes se interseccionam em outros aspectos – tanto no roteiro quanto no técnico. A inexpressividade de seus personagens é constante, assim como em Kinetta. Poucas emoções são demonstradas pelos protagonistas e, quando elas transparecem, a naturalidade com que isso ocorre é quase nula. Pontos de interrogação deixados sem resposta também marcam a filmografia de Lanthimos: seus longas nunca possuem um fim em si mesmo, justamente com o objetivo de provocar reflexões em quem os assiste.

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A Trilogia conta com trilha sonora sempre discreta, deixando o som ambiente e, muitas vezes, o próprio silêncio transmitirem o clima da cena. O uso das cores é quase sempre simples e de pouco impacto visual, mas brilhos repentinos aparecem em cenas específicas dos três filmes, anunciando uma drástica virada no roteiro.

O grande número de similaridades aproximam demasiadamente as obras de Lanthimos, tornando sua filmografia levemente cansativa. A proposta de crítica e análise social se esgota pouco a pouco pela repetição da abordagem e da temática, entretanto, Yorgos Lanthimos consegue extrair até a última gota da fonte de conhecimento que descobriu. Em 2017, The Killing of a Sacred Deer (ainda sem título em português) será lançado pelo diretor, e veremos quais novidades as musas sussuraram nos ouvidos do grego.

 

por Breno Deolindo
breno.deolindo.silva@gmail.com

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