Isto não é uma resenha de Grindhouse

Deixa eu explicar melhor: não é uma resenha porque “Grindhouse” não é um filme. Como assim? Pois é, leitor, estamos nos deparando com algo diferente. “Grindhouse” é na verdade um projeto feito em conjunto entre os diretores e roteiristas Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. Os dois cineastas resolveram se juntar para homenagear o cinema de terror dos anos 70 (aquele bem trash, a definição de filme B) e também as grindhouses, como eram chamados os cinemas americanos baratos que apresentavam dois filmes do tipo “baixo orçamento mesmo” em sequência, com o valor de apenas um ingresso. Cada um fez um filme, e mais três diretores (Rob Zombie, Eli Roth e Edgar Wright) ajudaram com trailers falsos.

Em uma entrevista na época do lançamento de “Grindhouse”, Tarantino discorreu sobre o valor do projeto e a experiência que ele e Rodriguez tentaram trazer ao espectador: “Eu acho que, na história dos filmes de grindhouses, dos filmes B, parte do seu apelo é o que você vai tirar deles. Esqueça sobre a qualidade dos filmes por dois segundos, eles existem fora das regras de Hollywood. Você vai ter a chance de ver algo que fará seu queixo cair e se perguntar ‘Eu estou mesmo vendo o que estou vendo?’ Esses são os filmes de grindhouses. Então, nós estamos tentando fazer isso, estamos tentando ter alguns momentos nos quais você se pergunta ‘Isso está mesmo acontecendo?’”

Se você conhece os filmes de Tarantino e, melhor ainda, acompanhou as resenhas publicadas no Cinéfilos, já sabe que neles irá encontrar muitos tiros, cabeças explodindo, sangue em abundância jorrando dos mais diversos lugares, e ainda vai acabar rindo de tudo isso. “A Prova de Morte” (Death Proof, 2007), contribuição do diretor para o projeto, é um legítimo filme do estilo Tarantino. Você pode ler a resenha dele feita pelo Cinéfilos neste link.

Após o término de “A Prova de Morte” são exibidos quatro trailers filmados especialmente para o projeto de Tarantino e Rodriguez, bem ao estilo das grindhouses americanas. O primeiro trailer apresentado é “Werewolf Women of the SS”. Nele, há um plano do exército nazista para transformar mulheres em lobisomens. A certa altura do trailer, Nicolas Cage aparece vestido de chinês e dá o grito mais louco e sem sentido da história do cinema. Este trailer é seguido por “Don’t”, filme que homenageia as produções de horror italianas da década de 70, com uma história perceptivelmente confusa e muitos sustos.

Após “Don’t”, somos apresentados ao trailer de “Machete”, que virou um filme lançado em 2010. “Machete” foi escrito e dirigido por Robert Rodriguez e conta a história do imigrante mexicano que tem o nome do filme. Contratado para assassinar um político americano, ele é enganado e leva um tiro. Em busca de vingança, vai contar com o apoio de seu irmão que é padre. Mas não se engane, é do irmão de Machete a frase “God has mercy…I don’t”. O filme tem até mesmo uma continuação prevista para estrear neste ano. Por último, temos o trailer de “Thanksgiving”, thriller sobre um assassino que corta a cabeças de várias pessoas, entre outras torturas, durante o feriado de Ação de Graças, nos Estados Unidos.

Já viu aquele pôster com uma mulher que tem uma metralhadora no lugar da perna? Pois ele pertence a “Planet Terror”, filme de Robert Rodriguez que completa “Grindhouse”. O longa conta a história de um gás ainda em fase de testes que é acidentalmente liberado em uma base militar americana. Esse gás, quando em contato com os humanos, transforma-os em zumbis. Para tentar enfrentar o ataque dos infectados, várias pessoas, entre elas a stripper Cherry (Rose McGowan), seu ex-namorado Wray (Freddy Rodriguez), um médico (Josh Brolin) e o xerife da cidade (Michael Biehn), se unem para salvar as próprias vidas. Tudo acontece caoticamente e num clima de filme B que existe em todo “Grindhouse”.

É uma pena que somente nos Estados Unidos “Grindhouse” foi lançado em seu formato original. No Brasil, os dois filmes entraram em cartaz separados e com meses de diferença.

O projeto foi inovador e bem-sucedido em sua tentativa de homenagear os filmes B, mas também foi um dos fracassos de Tarantino. A bilheteria ficou muito abaixo do esperado, fato que o diretor considerou culpa da longa duração do projeto – mais de 3 horas. “O problema é que as pessoas querem ir jantar e ver um filme, então se você f*** com o jantar delas, elas não vão vê-lo. Quando você dá três horas de filme,elas pensam ‘Hmm, vamos ver essa comédia ao invés disso’”, relatou ao site totalfilm.com na época do lançamento separado de A Prova de Morte. Mas qual seria a graça do cinema se não houvesse diretores dispostos a correr riscos?

por Ana Luiza Tieghi
ana.tieghi@gmail.com

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