Uma lenda viva chamada Jack Nicholson

por André Meirelles
andremcdg@gmail.com

O irreverente Jack Nicholson é considerado um dos grandes nomes da história do cinema. Ator de um talento nato, conquistou milhares de fãs e admiradores pela sua forma irreverente e muitas vezes cômica de atuar. Seu sorriso e olhar são chamativos e prendem o espectador em todos os personagens, que se estendem desde um zelador de um grande hotel que tenta matar sua família até um dono de hospital que descobre que tem pouco tempo de vida e tenta aproveitá-la  ao máximo.

Um dos grandes diferenciais de Nicholson é a incorporação do personagem ao ser escalado a um papel. Vive aquela história de forma tão intensa que faz com que seus papéis permaneçam na memória de todos os cinéfilos. E é justamente essa grande atuação que rende a um dos maiores atores do cinema mundial inúmeros prêmios. Nicholson está empatado com Walter Brennan e Daniel Day-Lewis como o ator que mais vezes ganhou a estatueta do Oscar: foram três. Como melhor ator, conquistou pela atuação no filme Um Estranho no Ninho (One Flew Over the Cuckoo´s Nest, 1975) e Melhor é Impossível (As Good as It Gets, 1997).  A outra premiação é como melhor ator coadjuvante em Laços de Ternura (Tearms of Enderment, 1983). Até hoje, já foi indicado 12 vezes e carrega outra marca curiosa: é um dos dois únicos atores a ser nomeado ao Oscar por sua atuação em cada década desde os anos 60 a 2000. Poderíamos dedicar um texto inteiro para contar as diversas nomeações e prêmios recebido por ele, visto que são muitos. Eles se dividem em Oscars, BAFTA, Festival de Cannes, Prêmios Globo de Ouro entre outros. Em 2008 foi introduzido pelo governador da Califórnia e também ator, Arnold Schwarzenegger, no California Hall of Fame, e em 2010, integrado ao New Jersey Hall of Fame. Já apresentou a premiação do Oscar diversas vezes, é um dos membros da Academia e vota nas indicações. Durante toda apresentação da cerimônia, podemos vê-lo sentado na primeira fila.
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Vida e filmes

John Joseph “Jack” Nicholson nasceu no dia 22 de abril de 1937 em Neptune City, em Nova Jersey. Filho da bailarina June Nicholson e do artista Donald Furcillo, assim que o pequeno Jack nasceu, foi entregue aos cuidados da avó materna por um pedido dela, pois queria que a filha seguisse na carreira de bailarina. Assim, cresceu acreditando que ela e o avô eram seus pais verdadeiros e que sua mãe, June, era sua irmã mais velha. A descoberta de suas reais origens veio só quando ele tinha 37 anos, em 1974, após a revelação de um jornalista da revista Time que estava produzindo um livro sobre o ator. As duas morreram antes que ele soubesse a verdade. Assim que completou o segundo grau do colegial, com 17 anos, se mudou para Los Angeles, na Califórnia, onde June  –  sua mãe  –  tinha um apartamento. Lá, Nicholson começou a dar seus primeiros passos no universo cinematográfico, porém eles foram pela porta dos fundos, quando conseguiu um trabalho no setor de animação do estúdio da MGM. Seu início de trabalho como ator foi junto com o diretor Roger Corman, que lançou a carreira de diversos atores como Robert de Niro. A estreia do jovem Nicholson foi em um longa dirigido por Corman chamado The Cry Baby Killer (1958), em que ele interpretava Jimmy Walker, um adolescente delinquente que entra em pânico quando acha que matou outras duas pessoas. Desesperado, Jimmy faz algumas pessoas de refém enquanto a polícia aumenta cada vez mais a procura. Outro filme feito com Corman foi A Pequena Loja dos Horrores (Little Shop of Horrors, 1960), um clássico do terror de humor negro, onde fez uma pequena participação como um paciente masoquista de um dentista.

The Cry Baby Killer

Jack Nicholson com 21 anos quando interpretou o jovem delinquente Jimmy Walker em The Cry Baby Killer (1958)

Voltou a trabalhar com Corman em O Corvo (The Raven, 1963) e em Sombras do Terror (The Terror, 1963), em que teve uma participação como diretor porém não recebeu o devido crédito, assim como Francis Coppola. Em 1971, foi indicado pela primeira vez ao Oscar de melhor ator, pela atuação no filme Cada um Vive Como Quer (Five Easy Pieces), porém perdeu para George Scott, que se consagrou pelo filme Patton, Rebelde ou Herói (Patton). Um dos sonhos de Nicholson era atuar ao lado do grande expoente do cinema, Marlon Brando. Esteve próximo de realizá-lo quando realizou testes para viver Michael Corleone em O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972), papel que foi feito por Al Pacino. Também teve a oportunidade no filme Apocalypse Now (1979), do diretor Coppola, mas não foi dessa vez. A produção que marcou o encontro dos dois mais premiados atores do cinema americano na época foi Duelo de Gigantes (The Missouri Breaks, 1976).

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Jack Nicholson e Marlon Brando atuando juntos no filme Duelo de Gigantes, de 1976

Contudo, para chegar a este posto, Nicholson passou por outras produções que o fizeram crescer. Uma delas foi Chinatown (1974), do diretor Roman Polanski, onde o ator interpretou o detetive de Los Angeles J.J. Gittes no meio das guerras da água da Califórnia. Uma trama que expõe toda uma cadeia de corrupção e sujeira que existe no fornecimento de água do estado, e que rendeu sua terceira indicação ao Oscar de melhor ator. No ano seguinte, conquista sua primeira tão cobiçada estatueta, com o filme Um Estranho no Ninho (One Flew Over the Cuckoo’s Nest, 1975), do diretor Milos Forman, considerado um dos melhores de todos os tempos. Colocado na 16o posição no ranking dos melhores filmes do IMBD, conta a história de Randle McMurphy, um prisioneiro que vai para um hospício. Lá, lidera o grupo dos doentes mentais e estimula os outros integrantes a se rebelarem contra as regras impostas pelas enfermeiras que cuidam do local, principalmente contra a chefe delas, Ratched, interpretada por Louise Fletcher. O filme é considerado um dos melhores justamente pelo grande número de prêmios que conquistou: só pelo Oscar, ganhou o de melhor ator, melhor atriz (Louise Fletcher), melhor diretor e melhor filme. Aos 77 anos de idade, o ator pode dizer que teve uma vida amorosa intensa. Com fama de mulherengo, Nicholson coleciona várias relações com atrizes, modelos e famosas. Viveu um longo relacionamento de 17 anos com a atriz Anjelica Huston, filha do conhecido diretor John Huston, mas se separaram em 1989. Sabe-se que tem quatro filhos com três diferentes mulheres. São eles Jennifer Nicholson, 51, (com sua ex-esposa Sandra Knight), Honey Hollman, 33, (com a atriz Winnie Hollman), e Lorraine, 24, e Raymond Nixon, 22 (com Rebecca Broussard). Além disso, a atriz Susan Anspach alega que Nicholson é pai de seu filho, Caleb Goddard, 44, mas ele nunca assumiu a paternidade.

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O filme Um Estranho no Ninho (1975) garantiu a Nicholson sua primeira estatueta do Oscar

Here’s Johnny

Jack Nicholson pode dizer com orgulho que ao longo de sua carreira trabalhou com alguns dos melhores diretores de cinema de todos os tempos. Um grande exemplo foi no ano de 1980, quando mostrou mais uma vez seu talento artístico sendo o protagonista de um filme do renomado diretor Stanley Kubrick. Em O Iluminado (The Shinning, 1980), vive o escritor Jack Torrance, que aceita um emprego de zelador fora de época em um hotel longe das cidades chamado Hotel Overlook. O local é assustador e foi palco de tragédias no passado, que são vistas pelo filho de Torrance, o garoto Danny, através de suas habilidades psíquicas. Depois de uma tempestade de neve, a região fica mais isolada ainda e faz com que Torrance começe a ser afetado mentalmente. Ele acaba desabando em loucura, o que o faz querer matar a mulher e o filho. No final do filme, durante a perseguição que o louco zelador faz a sua mulher é que se protagoniza uma das grandes cenas da cinematografia. Com um machado, ele começa a cortar a porta do banheiro onde está sua mulher, Wendy, que começa a gritar de horror. Então, ele coloca o rosto em um dos buracos da porta e diz a frase “Here´s Johnny” (Aqui está Johnny). A cena se tornou muito conhecida e acabou estampando a capa do filme. Um dos fatos curiosos é que ela não estava no escripte de atuação. A expressão vem de um programa da época chamado The Tonight Show, em que a frase era pronunciada para apresentar o anfitrião Johnny Carson. Nicholson improvisou a cena e presenteou os espectadores com um dos bordões mais marcantes do cinema.

De Batman a Scorsese

Além das grandes produções que lhe renderam Oscar, Nicholson também participou de outras que valem lembrar. Em 1989, fez o papel do vilão Coringa no filme Batman. Uma atuação com grande destaque e que rendeu ao ator cerca de 50 milhões de dólares. Sua segunda estatueta de melhor ator veio em 1997, no papel de um neurótico no filme Melhor é Impossível (As Good as It Gets). Mais recentemente, os dois filmes de grande destaque foram Os Infiltrados (The Departed, 2006), do diretor Martin Scorsese, e Antes de Partir (The Bucket List, 2007). Este último, contracenou com o brilhante ator Morgan Freeman, em um filme que retrata dois senhores que descobrem um câncer e decidem aproveitar o restante de suas vidas juntos. Torcedor fanático do Los Angeles Lakers, Jack Nicholson é exemplo de uma pessoa simples que faz muito bem aquilo que é orientado. Sua forma de atuar impressiona tanto os mais velhos quanto os mais jovens. Não vê diferença em fazer tanto um personagem principal como um coadjuvante. Nas duas ocasiões atua de forma impecável, participando de filmes que nos fazem chorar, emocionar ou rir. E quem ganha com isso somos nós, os espectadores, que a cada filme de Nicholson descobrimos a genialidade de uma lenda.

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“Existe um assunto sério por trás de toda comédia”, Jack Nicholson

Comentários (1)

  • Christian

    Na minha opinião é o maior ator que existe.. About Schmidt , aqui adaptado “As confissões de Schmidt” do Diretor Alexander Payne ( great ) tem umas das melhores atuações de todos os tempos de um ator (na minha opinião).

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