Jason Bourne: entre nostalgia e frustração

por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

Com o sucesso de A Identidade Bourne (The Bourne Identity, 2002), Paul Greengrass assumiu a sequência A Supremacia Bourne (The Bourne Supremacy, 2004) dois anos mais tarde envolto em muita expectativa. Felizmente, tanto a bilheteria quanto as críticas foram muito positivas, o que deu gás para que ele retornasse três anos mais tarde com um projeto ainda mais ambicioso e que muitos considerariam o melhor da trilogia original e um dos melhores filmes de ação desse último século, O Ultimato Bourne (The Bourne Ultimatum, 2007). Desde então, Matt Damon declarou que só voltaria ao universo se a direção fosse mais uma vez comandada por Greengrass, que não ocorreu em 2012, quando o pífio O Legado Bourne (The Bourne Legacy), desgostou muitos fãs, trazendo um protagonista sem a mesma carisma de Bourne (mas que cujo filme leva o título do mesmo para fins lucrativos). Quatro anos depois, Greengrass e Damon mais uma vez reunidos teriam a chance de redimir a franquia que haviam tão bem alocado no nosso imaginário cinéfilo com este Jason Bourne (2016). Pena que por mais que o resultado seja bem acima do irmão bastardo de 2012, ele seja apenas satisfatório diante do que ambos já haviam nos apresentado.

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Buscando novamente verdades sobre o seu passado, Jason Bourne (Matt Damon) descobre uma trama governamental que o remonta à relação problemática que tinha com o pai já falecido. Nadando entre peixes grandes, ele tenta desmascarar mais segredos, enquanto inevitavelmente começa a frustrar os planos da CIA.

De um porte físico bastante invejável, Damon dá bastante energia a Bourne, sendo lacônico e preciso na medida certa. Alicia Vikander também vem provando que é uma das atrizes mais versáteis da atualidade, compondo Heather Lee como uma agente ambiciosa, mas extremamente imprevisível. Vincent Cassell, Tommy Lee Jones, Riz Ahmed e Julia Stiles fecham o elenco de forma competente. Por outro lado, a falta de protagonismo (tanto do lado dos mocinhos quanto dos vilões) compromete e muito a criação de empatia para com as personagens. Grande parte delas é tratada como se houvesse um grande passado junto a Bourne, que nunca nos é revelado e nunca foi (já que com exceção de uma, nenhuma delas apareceu nas obras anteriores). E mesmo essa veterana de franquia tem um papel tão mal escrito, que a sensação é a de que ela está no filme mais como fan service do que como articuladora da trama.

Os vilões também soam jogados, parecendo competir entre si para ver quem de fato antagoniza a Bourne. Em determinado momento, por exemplo, quando um deles é abatido, um outro que até então vinha como mero coadjuvante, surge para opor o protagonista. As vezes, é até mesmo justo se questionar se o filme não deveria se chamar Heather Lee ao invés de Jason Bourne, uma vez que as suas cenas apresentam muitas vezes um interesse maior que as dele.

Jason Bourne (2016)

As cenas de ação seguem um estilo mais urbano e moderno, com zooms e cortes rápidos e uma câmera tremida que emprega constante tensão às cenas. Embora um pouco incômodo, Grengrass consegue fazer com que a ação corra quase sempre fluidamente. Esses recursos são particularmente interessantes quando utilizados em cenas de multidão e revolta, como numa perseguição no início do filme que acontece durante protestos civis na Grécia. Mesmo excitante, o roteiro mais uma vez peca ao mostrar praticamente tudo que a CIA e sua força-tarefa de satélites, câmeras e agentes sabem, premeditando cada movimento que Bourne faz, ao invés de simplesmente construir a tensão paralelamente às descobertas e percepções do protagonista. Por outro lado, as menções à tramoia do governo são tão poucas, que é de se questionar que o projeto seja de fato perigoso, expondo assim uma falta de urgência do filme.

Mesmo assim, Jason Bourne tem seus momentos de energia, pincelando comentários sutis sobre tecnologia, privacidade, espionagem, grandes corporações e movimentos civis, citando por exemplo, os casos de Edward Snowden e da crise econômica na Grécia. Encerrando com um gostinho de continuação, é temeroso imaginar os rumos da franquia, ainda mais com os rumores de que O Legado Bourne também terá uma sequência. Muito distante de compor um legado à série, o filme passa longe da supremacia dos anteriores mas, se aproximando da identidade característica, ele felizmente não dá um ultimato à reputação do personagem.

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