Jogos Mortais: Jigsaw – o maior pecado do filme é o filme

Ser fã de uma franquia é se empolgar quando uma nova sequência é anunciada. Ser fã de uma franquia de terror também é se empolgar, criar expectativas, contar os dias para a estreia, mas não deveria ser. Fãs de terror deveriam ser todos céticos. Se O Chamado 3 (Rings, 2017) conseguiu ser uma enorme decepção de má qualidade sendo a terceira aparição de Samara Morgan, imagine o potencial desastre do oitavo jogo de John Kramer. Sete anos depois do que se vendeu como o último filme da série, Jogos Mortais: Jigsaw (Jigsaw, 2017) surge como um novo e dispensável episódio.


A premissa é a de sempre: corpos começam a surgir pela cidade carregando mensagens enigmáticas e levam médicos legistas e detetives a se unirem em busca do serial killer, inserindo em cena o desenvolvimento de duas tramas paralelas.

O núcleo investigativo conta com o médico Logan (Matt Passmore), sua assistente Eleanor (Hannah Emily Anderson) e com os policiais Keith (Clé Bennett) e Halloran (Callum Keith Rennie). As desavenças entre Logan e Halloran criam um círculo de desconfiança e acusações mútuas que poderia ser instigante, mas não é. Ambos ganham certa profundidade e a tensão entre eles é palpável. No entanto, o enredo saturado e a atuação mediana de Matt Passmore fazem do antagonismo um grande tanto faz. Existe em cada um uma moral duvidosa, mas a dúvida não é provocativa, ninguém se dá ao trabalho de ficar curioso — a não ser que o espectador esteja muito disposto a fazer o preço do ingresso valer.

Enquanto isso, do lado gore, o jogo está acontecendo. As cinco pessoas escolhidas para a morte ou para a redenção são trancadas juntas e precisam, além de admitir seus pecados, ter um ótimo raciocínio logístico para vencer. “Confesse”, ressoa pelo celeiro a voz característica do serial killer. E eles confessam, mas não convencem nem o criador das regras, nem o público. Suas personalidades são fracas e suas histórias, nem um pouco cativantes. Os pecados não têm nada de inusitado, nada que provoque algum tipo de emoção em quem assiste.

E se a ausência de personagens interessantes fosse compensada pelo sangue, o gore estaria salvo. Mas não é o que acontece. Pensando de maneira passional, a classificação indicativa poderia ser facilmente reduzida. A violência gráfica pode até causar agonia e repulsa em alguns momentos caso o espectador não seja absolutamente apático, mas não é chocante. O que impulsiona os fãs de Jogos Mortais a serem fãs é, em boa parte, a criatividade do jogo. Dessa vez, a impressão é que eles tiveram preguiça de pensar em algo inovador e, para agradar a fanbase, só escolheram referências a filmes anteriores, como o homem enforcado em uma árvore do parque. O problema é que esse tipo de estratégia é uma faca de dois gumes. Alguns fãs podem ficar contentes. Outros vão apenas se frustrar, pois a essência do filme é, necessariamente, a engenhosidade da morte, e não aquilo que é clássico, que já aconteceu. Além disso, o público é maior do que um aglomerado de fãs e se esquecer disso é um contra marketing inaceitável.

Deixando de lado o ponto de vista crítico e o debate entre o criar e o rebuscar, o uso maçante de alusões pode fazer sentido se considerarmos a reviravolta principal do longa, que é possivelmente a única escolha inteligente dos roteiristas. A descoberta do final, que destrói uma revelação feita um pouco antes, é surpreendente. Contudo, o filme é tão insosso e deixa o espectador tão desinteressado em participar da investigação que é possível que a culpa pela surpresa seja mais por conta disso do que pela sacada em si.  

O filme é curto e pode servir como entretenimento que não entretém tanto assim. Mas aqui vai um conselho: se o seu objetivo é reviver a essência do filme, é melhor rever o original ou até mesmo um fanmade no Youtube.

Jogos Mortais: JigSaw estreia dia 30 de novembro. Confira o trailer oficial:

 

por Anny Oliveira
acoliveiramartins@usp.br

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