A jornada do herói e suas subversões

Seria uma coincidência diversos personagens do cinema passarem por momentos muito parecidos em suas histórias? Analisando com atenção, fica evidente que grande parte dos heróis e heroínas apresentam jornadas com característica semelhantes. Não, isso não é uma coincidência. Há um padrão que aparece em algumas narrativas muito conhecido atualmente mas que na verdade é muito antigo, presente em histórias como a de Jesus Cristo, Hércules, Buda e até na Odisseia de Homero.

Conhecida como Jornada do Herói ou Monomito, esse conceito de narrativa traz uma jornada cíclica presente em diversas histórias. É uma técnica muito utilizada em roteiros de cinema que tem como objetivo mostrar a transformação de uma pessoa em herói, que passa por muitas provações até alcançar uma recompensa final.

Quem idealizou essa estrutura foi o norte-americano Joseph Campbell, estudioso de mitologia e religião comparada. Campbell publicou em 1949 um livro chamado O Herói de Mil Faces (The Hero with a Thousand Faces) no qual apresentou a definição de Jornada do Herói. Nessa obra, o autor desenvolveu um trabalho de pesquisa em cima de mitos, fábulas lendas, e até mesmo histórias modernas delimitando as semelhanças presentes nelas.

O título do livro, inclusive, faz alusão ao fato de que na verdade é como se existisse apenas um único herói com faces diferentes. Ele descreve a Jornada do Herói como um evento cíclico constituído de 3 grandes atos com 17 estágios pelos quais o protagonista da história passa. No cinema, há uma grande pluralidade de filmes que utilizam essa estrutura narrativa.

Apesar de ser uma estrutura comum a muitas histórias, com diversos aspectos que se repetem, o Monomito pode ser usado de formas diferentes. Os filmes não precisam seguir exatamente todos os passos descritos. Existe a possibilidade de inverter a ordem das etapas, utilizar apenas algumas delas e até mesmo desconstruí-las. É exatamente nesse ponto que as narrativas cinematográficas conseguem se diferir umas das outras, pois por mais que sigam um modelo clássico, subvertem alguns pontos da Jornada do Herói para trazer um toque de originalidade.

 

As etapas da Jornada do Herói de Joseph Campbell

1º Ato: A partida
Estágio 1: O mundo comum e o chamado à aventura

Aqui somos apresentados ao ambiente em que o protagonista vive, seu cotidiano normal. Então, sua rotina é quebrada com algum acontecimento que o forçará a sair para uma aventura. Esse “chamado à aventura” não é necessariamente feito por uma pessoa. Em Jogos Vorazes (Hunger Games, 2012), por exemplo, o que faz com que Katniss (Jennifer Lawrence) vá para a aventura é a iminência de sua irmã entrar para os Jogos. Em função disso, ela se oferece como tributo no lugar dela. Já em Matrix (The Matrix, 1999), Neo (Keanu Reeves) encontra com um homem misterioso chamado Morpheus, que dá à ele duas possibilidades: a de escolher conhecer a verdade por trás dos estranhos pesadelos que tinha ou continuar vivendo sua vida como se nada tivesse acontecido. É nesse momento que o protagonista toma a pílula vermelha e vai ao encontro da aventura.

Morpheus oferece a Neo duas possibilidades (Imagem: Reprodução)

Estágio 2: A recusa

O herói se sente incapaz e inseguro, por isso se nega a sair para a aventura. Ele prefere continuar levando sua vida normalmente, no mundo comum, às vezes por sentir medo ou até mesmo não querer essa responsabilidade. Um exemplo clássico ocorre em Harry Potter e a Pedra Filosofal (Harry Potter and the Sorcerer’s Stone, 2001), quando Hagrid (Robbie Coltrane) fala para Harry (Daniel Radcliffe) que ele é um bruxo, e o mesmo simplesmente não acredita, acha impossível isso ser real. Subvertendo esse estágio, Moana: Um Mar de Aventuras (Moana, 2016) tem uma protagonista que na verdade não nega esse chamado. Moana tem o desejo e a ousadia de ir atrás de uma aventura, contrariando inclusive sua família. E parece que a luz chama por mim e já sabe /

Que um dia eu vou / Vou atravessar para além do mar, canta Moana (Auli’i Cravalho), quando está prestes a sair em seu barco mar a fora.

Moana sente que deve atender ao chamado do mar (Imagem: Divulgação)

Estágio 3: Encontro com o mentor

Um mentor, geralmente mais velho, surge na vida do protagonista para aconselhá-lo e incentivá-lo. Passa vários tipos de ensinamentos com o objetivo de ajudar no processo de transformação do herói que irá surgir. Em Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança (Star Wars: Episode IV – A New Hope, 1977), Obi-Wan Kenobi (Alec Guinness), um homem experiente e sábio, acaba se tornando um mentor para Luke (Mark Hamill). Comumente nessa etapa o herói recebe um objeto especial que o ajudará em sua jornada. Nesse caso, Luke recebe de Obi-Wan o sabre de luz de seu pai.

Luke recebe seu primeiro sabre de luz (Imagem: Reprodução)

Estágio 4: Travessia do limiar

Geralmente, no cinema, é onde acontece o famoso ponto de virada e a finalização do primeiro ato. Segundo Syd Field, autor do livro Manual do roteiro, o ponto de virada é o momento em que a história muda de direção, onde há uma grande mudança que faz com que o herói saia do do mundo comum e vá em direção a aventura. Essa passagem fica clara em O Rei Leão (The Lion King, 1994) quando Simba (Matthew Broderick), já crescido, volta para casa após se dar conta de que não é mais um filhote e que precisa enfrentar Scar (Jeremy Irons).

Estágio 5: A barriga da baleia

Esse é o estágio que encerra o primeiro ato da jornada e faz referência ao conto bíblico de Jonas e a baleia. Nessa história, Jonas se recusou a obedecer as ordens de Deus, que pediu para ele ir até Nínive pregar contra os vícios do povo que ali habitava. Como punição, Deus lançou ao mar uma forte tempestade que fez com que os marinheiros, assustados, jogassem Jonas ao mar. Então, ele foi engolido por uma baleia. Rezando e clamando por Deus durante três dias o jovem se arrependeu e foi cuspido para fora. Essa história representa aqui o período em que o herói passa por uma metamorfose e começa a entender como o mundo novo funciona. Esse processo fica evidente em Harry Potter e a Pedra Filosofal quando Harry chega em Hogwarts e passa a aprender como o mundo bruxo funciona, conhecendo suas regras e seus mecanismos. O garoto é “engolido” pelo desconhecido e precisa aprender a lidar com esse novo ambiente.

 

2º Ato: A iniciação
Estágio 6: A estrada de provas

No primeiro estágio do segundo ato o herói é testado de todas as maneiras, tanto fisicamente como emocionalmente. É comum nessa etapa ocorrer a morte de alguns personagens próximos ao protagonista, como acontece em O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring, 2001) quando Gandalf (Ian McKellen) morre. No que diz respeito a parte dos testes, o filme Mulan (1998) exemplifica bem esse estágio quando a protagonista se disfarça de homem e vai para a guerra no lugar de seu pai. Ao chegar no acampamento ela passa por muitos testes.. No início acaba falhando mas depois é a primeira a tornar-se tudo aquilo que os outros esperam: uma guerreira boa e habilidosa. Vocês não são o que eu pedi / São frouxos e sem jeito algum / Vou mudar, melhorar / Um por um, canta o general Shang (Donny Osmond) enquanto treina os guerreiros.

Mulan passa por um duro treinamento até tornar-se uma guerreira (Imagem: Reprodução)

Estágio 7: Encontro com a deusa ou Aproximação da caverna

É nesse momento que o herói foca em seu objetivo e precisa se provar de todas as maneiras possíveis. É aqui onde ele se prepara para a provação suprema que terá de enfrentar mais a frente na sua jornada, reúne aliados e parte em direção à batalha final. Em Shrek (2001), esse estágio acontece quando o ogro, junto com o burro, vai até o castelo para tentar resgatar a princesa Fiona da torre do dragão. De forma simbólica a Aproximação da caverna pode ser representada pela cena em que Shrek faz um plano de resgate e veste a armadura que encontra no castelo.

Estágio 8: A tentação

Aqui surge mais um problema para o herói resolver e é nesse estágio que comumente as traições acontecem. São situações que têm o potencial de afastar o herói de sua missão justamente por colocá-lo em certos dilemas. No filme Homem-Aranha (Spider-Man, 2002) o herói acaba em uma situação causada pelo Duende Verde (Willem Dafoe) na qual deve escolher: salvar a população, que está em apuros, ou Mary Jane (Kirsten Dunst)?

Homem-aranha luta contra o Duende Verde (Imagem: Reprodução)

Estágio 9: O confronto com o pai

Ápice no qual o herói finalmente confronta o grande vilão da história, que revela todos os seus planos e objetivos. Em Os incríveis (The Incredibles, 2004) após a família Pera ser capturada, o vilão Síndrome (Jason Lee) revela todo seu grande plano, que incluiu matar heróis de verdade para fingir que é um, nas palavras do Senhor Incrível (Craig T. Nelson). Após conseguirem escapar, a família vai em direção à cidade para impedir o vilão, e lá a grande batalha final contra o Omnidroid acontece. Como esquecer da cena icônica, que inclusive foi parodiada em Toy Story 2 (1999), na qual Darth Vader revela ser pai de Luke em Star Wars: Episódio V – O Império Contra-Ataca (Star Wars: Episode V – The Empire Strikes Back, 1980)? Nesse caso, há literalmente um confronto com o pai.

“Eu sou o seu pai” (Imagem: Divulgação)

Estágio 10: Apoteose

Momento de decisão no qual o herói pratica um último ato grandioso com o intuito de atingir seu objetivo. No filme Procurando Nemo (Finding Nemo, 2003) uma das cenas que encerra o arco final trata justamente dessa grande decisão do herói. Marlin (Albert Brooks), que nunca confiou muito no filho Nemo (Alexander Gould) devido a traumas do passado e ao medo dos perigos do mar, faz uma escolha que salva tanto sua amiga Dory (Ellen DeGeneres) como seu filho. Ambos estavam presos, junto com outros peixes, em uma rede de pesca. Então Nemo tem a ideia de fazer com que os peixes nadem para baixo juntos. Marlin a princípio é contra, mas depois acaba confiando no filho e o ajudando. Essa decisão acaba salvando todos no final.

Estágio 11:  A conquista

Acontece quando o herói finalmente cumpre sua missão e seus objetivos. Durante todo o filme ele se preparou para chegar a esse estágio e enfrentou todas as adversidades das etapas anteriores. Em As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa (The Chronicles of Narnia: The Lion, the Witch and the Wardrobe, 2005) os quatro irmãos conquistam a vitória após finalmente derrotar a feiticeira branca em uma batalha. O exército de Aslan (Liam Neeson) triunfa e consegue salvar Edmundo (Skandar Keynes).

 

3º Ato: O retorno
Estágio 12: Recusa ao retorno

Inicialmente o herói não queria ir para a aventura. Entretanto, após vivenciar diversas experiências no mundo especial, ele não quer voltar para o mundo comum. Em Harry Potter e a Pedra Filosofal o protagonista enfrenta esse dilema por não querer voltar para a casa dos tios que sempre o maltrataram. Apesar de Hogwarts ter se tornado um lar, Harry precisa voltar. Subvertendo isso, nem sempre o herói recusa o retorno. Em Jogos Vorazes uma das coisas que Katniss mais quer é voltar para casa viva.  

Estágio 13: O vôo mágico

Processo no qual o herói volta para o mundo comum e que pode esconder problemas e perigos. O “vôo mágico” geralmente tem sentido figurado, entretanto pode acontecer de forma literal como no caso do filme O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (The Lord of the Rings: The Return of the King, 2003) no qual Frodo e Sam são resgatados por águias.

Estágio 14: Resgate interior

Da mesma forma que o herói precisou de ajuda para embarcar na aventura, às vezes ele também precisa para voltar ao mundo comum, especialmente quando está ferido ou enfraquecido, como acontece no filme Jogos Vorazes: Em Chamas (The Hunger Games: Catching Fire, 2013). Katniss recebe ajuda de seus aliados para escapar da arena com vida. Nesse momento a heroína estava desacordada após atirar uma flecha eletrizada contra a redoma que cobria o local onde os Jogos estavam acontecendo.  

Katniss é resgatada por um aerodeslizador da arena (Imagem: Reprodução)

Estágio 15: Travessia do limiar

O herói passa por um momento de reflexão sobre tudo o que viveu e os aprendizados que adquiriu. Isso pode ocorrer tanto no espectro psicológico como no literal. Ele percebe que ganhou muita sabedoria ao longo de sua jornada, pretendendo integrar esse conhecimentos à vida no mundo comum. Em Shrek, ao final da história, o ogro vê que é possível se apaixonar por alguém além das aparências, tanto é que Fiona acaba se tornando uma ogra. Percebe que a beleza é algo subjetivo e uma questão de perspetiva. Além disso, Shrek aprende a valorizar a beleza interior, que é o que realmente importa.

Estágio 16: O senhor de dois mundos

Aqui o herói percebe que não é mais o mesmo do mundo comum, entretanto também não é mais o mesmo do mundo especial. Ele volta totalmente transformado da jornada. Em O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man, 2012) é possível essa dualidade de ser O senhor de dois mundos acontece da maneira mais literal possível. Ao final da história Peter Parker (Andrew Garfield) se dá conta de que, a partir de agora, terá de lidar com sua vida pessoal ao mesmo tempo em que deverá carregar as responsabilidades de ser um super-herói

Estágio 17: Liberdade para viver

Último estágio da jornada onde tudo termina bem. O herói passa a aproveitar o presente, não se arrependendo das coisas que fez no passado e nem antecipando o futuro. Não é muito difícil pensar em um filme em que tudo termina bem. Em Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, 2012) Bruce Wayne abandona a vida como Batman e vai viver uma vida tranquila no final da franquia.

Algumas das principais etapas da jornada do herói (Imagem: Maria Eduarda Nogueira/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior)

A jornada do herói de Joseph Campbell apresenta muitas etapas, que no cinema, são trabalhadas de diversas formas. A grande beleza das subversões que os filmes apresentam está justamente na forma singular que cada um a utiliza. Mesmo sendo um padrão de narrativa presente em muitas histórias, cada uma tem uma maneira diferente de ser contada.

De acordo com a professora Mayra Rodrigues Gomes, docente da Escola de Comunicações e Artes da USP, os filmes trabalham com a jornada do herói de diferentes maneiras. Algumas etapas, por exemplo, podem não estar presentes, mas isso não significa que a jornada não está lá em sua essência. Não só isso, mas certos pontos podem ser trabalhados inversamente na narrativa. Muitos filmes, principalmente os mais atuais, trabalham dessa forma. Eles buscam articulações inovadoras para imprimirem aspectos diferenciados. “As histórias não vão seguir ao pé da letra aquele esquema com todas suas etapas, porque senão acaba tudo ficando padrãozinho”, comenta Mayra.

Mayra também fala sobre os trabalhos posteriores aos de Campbell voltados para a área do cinema, como aqueles feitos por roteiristas. Um dos mais conhecidos é o livro escrito por Christopher Vogler, chamado A jornada do escritor. Quando trabalhava no roteiro de O Rei Leão, Vogler escreveu uma espécie de cartilha chamada O Guia Prático Sobre o Herói de Mil Faces, onde descreveu de forma prática e simplificada as principais ideias de Campbell. Posteriormente, essa cartilha foi aprimorada e transformou-se em seu livro. Outro roteirista muito famoso é Robert Mckee, que escreveu um livro chamado Story. Ambos trabalham os dados da jornada do herói muito bem, pensando nela do ponto de vista das narrativas cinematográficas.

A docente dá como exemplo o filme Amnésia (Memento, 2000), que subverte completamente a linha temporal e exige do espectador atenção para remontar a ordem dos fatos. Apesar da impressão de que a jornada do herói foi abolida, ela está presente no longa.

No próprio filme de Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança, algumas etapas são invertidas. O encontro com o mentor acontece antes do chamado à aventura, por exemplo. Luke conhece Obi-Wan primeiro e só depois que ambos vêem a mensagem da princesa Leia (Carrie Fisher) por completo, transmitida através de R2-D2.

Para subverter a jornada do herói, primeiramente é necessário entender e aprender como ela funciona originalmente. Só assim é possível fazer rearranjos, inversões na ordem das etapas, excluir determinadas passagens e potencializar outras. É dessa maneira que as narrativas cinematográficas sempre se reinventam e trazem inovações. É através desses mecanismos que cada história ganha sua singularidade.

Agora que você sabe como funciona a jornada do herói, que tal conhecer cinco filmes que trabalham ela de forma criativa?

  1. Moana (Direção: John Musker e Ron Clements)
  2. Clube da Luta (Direção: David Fincher)
  3. Procurando Nemo (Direção: Andrew Stanton e Lee Unkrich)
  4. Jogos Vorazes (Direção: Gary Ross)
  5. O Mágico de Oz (Direção: Victor Fleming, King Vidor, George Cukor, Mervyn LeRoy e Norman Taurog)

 

Por Marcelo Canquerino
marcelocanquerino@gmail.com

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