Katharine Hepburn, a grande atriz

por Carolina Ingizza

“Existem mulheres e mulheres, depois existe Kate. Existem atrizes e atrizes, depois existe Hepburn.”

-Frank Capra

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Katharine Hepburn foi uma das mais importantes atrizes da era de ouro hollywoodiana – período de 1920 até 1960 -, considerada pelo American Film Institute como a atriz mais lendária do cinema. Atualmente, é a pessoa com mais Oscars na categoria de atores, tendo levado quatro prêmios (das suas doze indicações), mas sem nunca ir recebê-los. Foi uma mulher a frente de seu tempo, forte e de temperamento difícil, mas extremamente profissional.

 

Vida Pessoal

Kate nasceu em Hartford em 12 de maio de 1907. Filha de aristocratas, ela teve uma infância atípica, convivendo com pessoas importantes dos Estados Unidos, como políticos e autores renomados. Ela e seus irmãos se vangloriavam por terem lido grandes obras da literatura enquanto cresciam.

Seu pai, Thomas Norval Hepburn, era um urologista e cirurgião, sua mãe, Katharine Martha Houghton, foi uma ativista defensora do voto feminino e do controle da natalidade. A personalidade dela influenciou o caráter de Kate, que sempre se impôs na indústria cinematográfica e era livre de certas amarras sociais, tais como a obrigação da maternidade.

Era muito próxima de seu irmão Tom, e quando ele se suicidou, ficou muito perturbada e teve que passar uma temporada afastada de todos na casa de verão da família. Quando retornou, com 14 anos, já mostrava traços de seu famoso caráter forte, uma vez que desconfiava de todos e envolvia-se com alguns homens. No entanto, ainda abalada pela perda, escolheu ser educada em casa.

Em 1924, ela conseguiu uma vaga na universidade de Bryn Mawr, o mesmo local que sua mãe frequentou. Foi lá que começou a atuar em pequenas peças. Nesse período ela conheceu seu futuro marido, Ludlow Ogden Smith, com quem se casou em 1928. Há rumores de que ela obrigou-o a inverter o nome para S. Ogden Ludlow, por não querer ser conhecida como Sra. Smith. Anos mais tarde, em 1933, o casal se divorciou amistosamente.

Ela só se casou uma vez, mas teve alguns envolvimentos amorosos. Namorou o diretor de cinema John Ford e viveu um longo romance escondido com o ator Spencer Tracy, com quem ficou por 27 anos. Além deles, a atriz se envolveu com Howard Hughes, um milionário e investidor da indústria cinematográfica, história retratada no filme O Aviador (The Aviator, 2004), de Martin Scorsese. No longa, Katharine foi interpretada por Cate Blanchett, que, por sua vez, ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel.

Passou o final da vida na sua casa de campo, em Old Saybrook, Connecticut, onde seus familiares, amigos e o seu biógrafo, Scott Berg, faziam companhia a ela. Em 2003, um tumor agressivo foi encontrado em seu pescoço, mas ela optou por não intervir medicamente. E assim ela morreu em 29 de julho de 2003, na casa da família Hepburn, com 96 anos.

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Katharine Hepburn e Spencer Tracy em A Mulher do Dia (Woman of the Year, 1942)

Carreira

Katharine Hepburn, após a graduação, em 1928, conseguiu seu primeiro papel na peça The Czarina, em que mostrou traços de seu temperamento difícil. Depois, em 1931, se consagrou na Broadway com a peça A Warrior’s Husband, que foi a responsável pela sua entrada em Hollywood. David O. Selznick, responsável pela produção da RKO Radio Pictures, ofereceu um contrato a Katharine, que negociou um salário de 1500 dólares por semana.

Em 1932, atua em seu primeiro filme com o diretor George Cukor, Vítimas do Divórcio (A Bill of Divorcement, 1932). Ele também a dirigiu em diversas outras obras, como As Mulherzinhas (Little Women,1933), em que ela interpretou Jo, uma personagem com traços masculinos, o que aumentou a sua androginia, numa época em que a feminilidade imperava no cinema.

Sua carreira ascendente chegou ao ápice com o filme Manhã de Glória (Morning Glory, 1933), de Lowell Sherman, longa que a fez ganhar seu primeiro Óscar de melhor atriz. No entanto, durante a segunda metade da década de 1930, ela foi perdendo o prestígio e seus filmes não eram elogiados pela crítica e nem iam bem de bilheteria. Nesse período, chegou a ser apelidada de “Veneno de Bilheteria” e seu rápido declínio a obrigou a voltar para Nova York e regressar ao teatro.

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Kate em Manhã de Glória, interpretando uma atriz que quer deixar sua marca na Broadway

A nova fase na Broadway trouxe outro pico de sucesso em sua trajetória. Ela foi escalada para a peça Núpcias de Escândalo, de Philip Barry, que ficou em cartaz por mais de 400 sessões, recebendo aplausos da crítica e do público. Percebendo que era uma boa oportunidade para a carreira da atriz, o milionário Howard Hughes a presenteou com os direitos de adaptação da peça, de modo que só ela pudesse fazer o papel principal.

Hepburn, então, voltou a Hollywood, rompeu o contrato com a RKO (o que lhe custou 220 mil dólares) e ofereceu a adaptação da peça para a MGM. O estúdio aceitou a proposta da atriz e ofereceu Cary Grant e James Stewart para contracenarem com ela. Dirigido por seu amigo George Cukor, o filme foi o responsável pela solidificação da carreira dela, ainda que não tenha ganhado um Óscar com ele.

Em 1942, começa sua parceria nas telas e na vida com o ator Spencer Tracy, com quem contracenou primeiro no filme A Mulher do Dia (The Woman of the Year, 1942). Eles realizaram nove filmes juntos, tendo o último sido Adivinhe Quem Vem Para Jantar (Guess Who’s Coming to Dinner, 1967), já que Tracy faleceu pouco após as filmagens terminarem.

Nas décadas de 1950 e 1960, ela diminuiu o ritmo de trabalho, mas ainda assim realizou grandes obras, como Uma Aventura na África (The African Queen,1951), que protagonizou com Humphrey Bogart. Ela obteve dois Óscares consecutivos, primeiro pelo já citado Adivinha Quem Vem Para Jantar, e depois por O Leão de Inverno (The Lion in Winter, 1968).

Nas décadas seguintes, reduziu seus papéis e se restringiu a personagens secundários, por conta de sua idade avançada. Nesse período ela ganhou seu quarto e último Óscar, pelo filme Num Lago Dourado (On Golden Pond, 1981), em que divide cena com um grande ator americano, Henry Fonda.

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Katharine Hepburn e Henry Fonda numa cena do filme Num Lago Dourado, de Mark Rydell

Em 1991, ela lançou sua autobiografia, Me: Stories of my Life, em que revela seu romance com Spencer Tracy (ela esperou a esposa dele falecer para tornar o caso público) e conta detalhes de sua carreira.Depois de fazer alguns filmes para a televisão, ela se despede do cinema em 1994, quando se recolhe na sua casa de campo.

Após sua morte, em 2003, as luzes da Broadway foram diminuídas durante uma hora para marcar a passagem de uma das mais brilhantes estrelas do mundo do entretenimento.

Hepburn deixou sua marca na história do cinema por ser uma grande atriz e uma mulher forte e independente. Orson Welles, durante entrevistas para a biografia dele, dizia que deveriam estar fazendo uma biografia de Katharine Hepburn, já que ela foi a mais profissional, forte, desafiadora e talentosa atriz que os anos dourados de Hollywood apresentaram ao mundo.

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