Vingança, kung fu e muito sangue: por que não?

O que voce faria se no dia do ensaio do seu casamento seus ex-colegas resolvessem aparecer e atirar em todos os presentes, inclusive você? E se você não morresse, mas acordasse quatro anos depois, e descobrisse que perdeu o seu bebê também? Essa é a trama que Tarantino nos apresenta em seu quarto filme, Kill Bill vol. 1 (idem, 2003).

“A Noiva”, personagem criado por Tarantino e Uma Thurman, após parceria no filme Pulp Fiction – Tempos de Violência (Pulp Fiction, 1994), é uma ex-assassina profissional. Já grávida, e prestes a se casar, ela sofre um atentado do “Víboras Mortais” – grupo do qual fez parte no passado. Única sobrevivente, ao acordar e perceber o dano que os seus ex-colegas lhe causaram, ela resolve se vingar de um por um, até atingir o chefe do grupo (e pai do bebê que carregava), Bill.

Em meio a uma história de ódio e vingança – que ficou tão grande que precisou ser dividida em dois filmes – Tarantino constrói um roteiro repleto de ação do começo ao fim. Não bastasse isso, Kill Bill vol. 1 traz diversas referências do cinema e da televisão dos anos 70 e 80, resultando em um filme extremamente violento, mas ao mesmo tempo intrigante e envolvente.

Assistir Kill Bill vol. 1 é navegar numa homenagem ao cinema Kung Fu que tanto fez sucesso há 30, 40 anos. Antes mesmo de começar, o filme já nos apresenta a logomarca da Shaw Brothers Studio, que por anos produziu diversos filmes do gênero.

Mais adiante na história, “A Noiva” viaja em busca de uma espada forjada por Hattori Hanzo, um personagem ninja que vem da série Shadow Warriors (idem, 1980). Eis que ele é interpretado por nada mais nada menos que Sonny Chiba, ator muito popular no Japão. Ah! E sabe o cara mal-humorado do chá? O ator se chama Kenji Ohba, conhecido por ser o herói da série japonesa Space Cop (idem, 1982).

Bastante coisa, sim? Não para o Tarantino, que quis também homenagear o grande astro das artes marciais. A roupa amarela que “A Noiva” usa na luta contra O-Ren foi inspirada na de Bruce Lee em Jogo da Morte (Game of Death, 1978). E as máscaras dos Crazy 88 também lembram a que ele usava na série de TV Besouro Verde (The Green Hornet, 1966).

Por fim, mais duas homenagens feitas na escolha do elenco. David Carradine, que interpreta Bill, foi o astro da série de sucesso da TV Kung Fu (1972). E a atriz Chiaki Kuriyama, escalada para o papel da mini-psicopata GoGo, é uma referência a uma personagem muito semelhante que a atriz viveu em Battle Royale (2000), último filme do diretor japonês Kinji Fukasaku.

Mas não é só em referências orientais que Kill Bill é inspirado. Um lado meio nerd do Tarantino brilha no filme também. A frase de abertura (“A vingança é um prato que é melhor servido frio”) vem do filme Jornada nas Estrelas II – A ira de Khan (Star Trek II – The Wrath of Khan, 1982). A prova é que diz-se que ela é um provérbio “Klingon” – língua particular da história. O figurino da personagem Sophie Fatale é também inspirado nas vestimentas dos vilões do filme. Outra referência geek é colocar pseudônimos de cobras nos membros da máfia. Os “Víboras Mortais” são uma clara alusão ao Esquadrão Serpente da Marvel Comics, grupo de vilões do Capitão América.

Com todas essas influências, fato é que Kill Bill será um banho de sangue na tela da sua TV, e dos mais divertidos de se ver. Entre cabeças, pernas, braços e outros membros cortados fora pela nossa protagonista – muitas vezes com um tom bem tragicômico -, teremos incríveis cenas de combates corporais, diálogos bem “tarantinescos” e uma trilha sonora maravilhosa para envolver a sua torcida pela vingança d’A noiva. Se ela consegue? Só saberemos no segundo filme.

Por Sofia Soares
sofia.pere.soa@gmail.com

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