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Lion – Uma (fácil) Jornada Para Casa
CINÉFILOS
19 fev 2017 | Por Jornalismo Júnior

Talvez não exista atualmente produtores mais queridos na indústria de Hollywood do que os irmãos Weinstein. Desde a época em que a companhia se chamava Miramax, Bob e Harvey levaram muitos de seus títulos às premiações do Oscar, como O Paciente Inglês (The English Patient, 1996), Shakespeare Apaixonado (Shakespeare in Love, 1998) e Chicago (2002) – todos vencedores na categoria de Melhor Filme. Em 2005, a Miramax fecha as portas, e os dois fundam a Weinstein Company, mantendo ainda assim a tradição de prêmios com obras como O Discurso do Rei (The King’s Speech, 2009) e O Artista (The Artist, 2011). Embora bastante laureados, muitos de seus títulos acabam sendo apenas uma repetição do modelo que a Academia gosta de premiar. E mesmo que eles também incentivem um cinema mais independente e autoral, financiando nomes como Quentin Tarantino e Paul Thomas Anderson, não $e muda em time que e$tá ganhando. Assim, obras genéricas como O Lado Bom da Vida (Silver Lining Playbook, 2012) não só despontam nas cerimônias, como saem com estatuetas importantes. Frente a este histórico, em 2016, a Weinstein Company lança Lion – Uma Jornada Para Casa (Lion, 2016), obtendo moderado êxito.

Após convencer o irmão a levá-lo junto para trabalhar numa cidade maior, Saroo (Sunny Pawar), com pouco mais de cinco anos, descansa na estação de trem, enquanto seu irmão mais velho procura por emprego. Com frio, Saroo decide dormir dentro de um trem de carga estacionado, acordando quilômetros depois, em Calcutá. Como mais uma das 80 mil crianças perdidas por ano na Índia, ele passará por uma série de percalços até ser adotado por uma família australiana, com quem viverá seus 25 anos seguintes.

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Dividido em dois momentos, num primeiro, o Saroo de cinco anos foge da polícia, quase é aliciado por um cafetão, e no fim, ainda é levado, em francas palavras, para um depósito de crianças perdidas, se constatarmos as grades e a rotina similar a que um presidiário teria. Mesmo que alguns desses segmentos ocorram rápido demais, eles são suficientes para elucidar a crueza com que uma criança perdida vive em países subdesenvolvidos. Com isso, chegado o ponto da adoção, estamos totalmente empáticos à dor do protagonista, e por mais que seu desejo de reencontrar a família seja latente, respiramos com as oportunidades que lhe são dadas.

Num segundo momento, acompanharemos a busca de Saroo à família de sangue, e aqui as atuações serão os grandes chamativos. Assim, basta um olhar sobressaltado dele (agora, Dev Patel) ou uma censura de sua mãe adotiva (Nicole Kidman) para que captemos todo o sofrimento pelo qual ambos passam. Além disso, o roteiro também é exemplar ao evitar um sentimentalismo exarcebado com grandes monólogos explosivos; as expressões são suficientes para que sintamos emocionalmente abalados. A todo instante que parecemos prestes a cair em um melodrama, as personagens nos puxam de volta, mantendo-nos fixos à sucessão de eventos e sentimentos que testemunhamos; muito por conta disto, por mais súbitas que sejam, as relações do interesse amoroso (Rooney Mara) e dos pais adotivos para com ele tornam-se críveis justamente por não serem arrebatadoras.

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Da mesma maneira que acerta, o roteiro também pesa a mão, sendo ainda prejudicado pela direção de Garth Davis. Com mais intensidade ao fim da projeção, começam a surgir flashbacks que nada acrescentam, senão evocar esse mesmo sentimentalismo que as interpretações contornavam. Num momento em que ele, por exemplo, vê o doce que não conseguia comprar quando criança, o filme faz questão de repassar a cena da infância. Aqui, bastasse vê-lo defronte ao doce, que não só nos lembraríamos, como a cena também seria muito mais poderosa emocionalmente. Um outro erro dos flashbacks é mostrar a família de sangue também procurando por Saroo. Se a premissa do filme é justamente que Saroo não tenha contato com a Índia, deixando-o confuso, e por consequência, nós também, essas inserções sabotam esse deslocamento psicológico.

Com uma trilha sonora um pouco intrometida, exagerando também ao final com a insistência com que se repete, o saldo é de que Lion – Uma Jornada Para Casa é um drama consistente, mas com alguns desleixos que incomodam. Infelizmente, após resolver a questão central, um dilema consequente e óbvio – mas muito importante – é simplesmente descartado, tornando o filme apenas fácil. E quando os créditos surgem explicando o porquê de Lion, constatamos que os irmãos Weinstein mais uma vez, mesmo que de forma mais comedida, preferiram por um apelo mais comercial, ou em outras palavras, mais lucrativo.

 

Trailer legendado:

https://www.youtube.com/watch?v=oNvcE7YsxWE

por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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