Los Territorios é uma empreitada bastante pessoal, mesmo em sua universalidade

Quem sou eu? Quais são minhas origens? O que eu estou fazendo? O que eu quero? Em quem devo acreditar? São algumas das perguntas que Iván Granovsky faz durante o seu primeiro longa, Los Territorios (2017), do qual é também protagonista. No filme, narra-se: seus primeiros projetos frustrados como cineasta; a tentativa de fazer um novo documentário sobre jornalismo, a vocação que parece destinada a sua família; sua empreitada como correspondente de guerra, quando descobre que seu pai nunca o fez; e, por fim, quando se reconhece como nada disso.

A metalinguística, sempre presente no longa, aparece pela primeira vez nos instantes iniciais, quando Granovsky fala do que seria seu primeiro filme, um relato sobre um conflito no Turcomenistão. Só que, o narrador admite prontamente que está gravando em Mendoza, na Argentina, e, desta maneira, desmascara toda sua montagem, apontando sua frustração com o que estava fazendo. Faltava autenticidade para lidar com problemas tão grandes como ele queria.

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O interesse de Ivan em assuntos externos à Argentina é uma de suas principais motivações. Imagem: Divulgação

Decide então voltar às suas origens. Seu avô era jornalista, bem como seu pai, e o jornalismo torna-se o objeto de sua nova produção. Nos vaivéns de seu novo trabalho, tem uma decepção, na ocasião em que ao entrevistar seu pai, descobre que ele nunca cobriu uma guerra. O protagonista entra em um impasse, percebe que não conhecer o próprio pai é apenas um reflexo de não entender a si. E todo o projeto que estava conduzindo vai por água abaixo.

À vista disso, compreende que o jeito mais tangível de tratar de assuntos magnânimos, como queria, é produzindo conteúdo jornalístico. Descobre que essa mudança não é tão simples, contudo. Passa um bom tempo ainda confuso, depara-se com diversas frustrações, dando de cara com a sua incompetência na questão. De toda forma, Ivan conta com o suporte financeiro de seus parentes para fazer diversas viagens nessa nova empreitada. Patrocínio essencial para o desenvolvimento do personagem que acompanhamos ao longo da película.

O diretor, ao acompanhar a própria vida, não apenas discute aspectos relacionados à produção de conteúdo informativo, como também adentra a sua pessoalidade. Não há vergonha de expor suas inseguranças,  incapacidade, confusão e até seu egoísmo. Na realização de suas ambições, há sempre um choque entre a liberdade e o fardo que ela lhe proporciona. Suas hesitações aparecem em diversos aspectos cotidianos, dos seus planos à  vida amorosa. Esse ambiente intimista tenta criar o drama e a comédia no longa-metragem.

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Ivan, judeu pró-palestina, conhece pessoalmente o conflito da faixa de Gaza. Imagem: Divulgação

Los Territorios tem dificuldades para prender o espectador, todavia. O dia a dia de Ivan às vezes torna-se demasiado insosso. Prolonga-se muito em certos aspectos não tão marcantes, enquanto outros pormenores mais relevantes ficam em segundo plano. As dificuldades que ele enfrenta, em alguns dos casos, são frívolas a ponto de não despertar curiosidade. Além disso, complementa-se a narrativa audiovisual com informações textuais, que, sem maiores chamarizes, são de difícil assimilação para a audiência.

A produção de Granovsky, portanto, é bastante ousada. O diretor expõe suas dificuldades de produzir algo realmente valoroso, ao mesmo passo que aceita se abrir francamente para o público. A experiência, que pode demandar da boa vontade do espectador, proporciona boas reflexões. Entretanto, fica a dúvida: Los Territorios foi feito para si ou para os demais?

Los Territorios estreia dia 7 de junho nos cinemas. Assista ao trailer abaixo:

por Pedro Teixeira
pedro.st.gyn@gmail.com

 

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