Lou: a mulher que Nietzsche amou, Rilke inspirou e Freud ensinou

Determinada, intelectual, feminista… enfim, Lou Andreas-Salomé. A vida (amorosa) da célebre psicanalista foi representada em Lou (Lou Andreas-Salomé, 2016) e chega ao Brasil em 11 de janeiro de 2018. O filme alemão é dirigido e produzido pela também germânica Cordula Kablitz-Post. Estrelado por Katharina Lorenz, que interpreta Lou entre seus 21 e 50 anos, a produção tem caráter biográfico e retrata alguns acontecimentos da vida da mulher que se negou a casar com um dos maiores filósofos da História, Friedrich Nietzsche, que se relacionou com o grande poeta da língua alemã, Rainer Maria Rilke, e que pôde estudar com o pai da psicanálise, Sigmund Freud – todos representados na trama.

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Lou Andreas-Salomé e Rainer Maria Rilke se apaixonam. Divulgação.

ATENÇÃO: A resenha a seguir contém spoilers. Clique no trecho borrado para revelá-lo.

O longa-metragem inicia-se em 1933, na Alemanha, em plena ascensão do movimento nazista, quando o jovem literato Ernst Pfeiffer (Matthias Lier) vai até a residência da então idosa Lou (Nicole Heesters). Em uma conversa, Pfeiffer comenta estar desempregado o que faz com que ela decida começar a produção de sua biografia. Durante todo o longa, o escritor fez inúmeras sessões como ouvinte. O filme é conduzido e composto por longos flashbacks.

Desde a infância, em São Petersburgo, na Rússia, Lou já demonstrava que não seria uma mulher de sua época. Em uma cena, a menina curiosa, ao subir em uma árvore, acaba caindo e consequentemente aparece seu pai para socorrê-la. Ao pegá-la, ele acaba declarando que “meninas devem brincar apenas em casa”, afirmação essa que a pequena criança se nega a concordar.

Esse é o exato momento em que é apresentada ao espectador a inconformidade pela desigualdade de gênero que Salomé tanto sentia.

Após a morte de seu pai, na adolescência, a garota deixa explícito seu descontentamento pela religião, que sua mãe tanto a forçava a seguir. Com questionamentos, Lou conhece o pastor Hendrik Gillot (Marcel Hensema), que acaba se tornando uma espécie de professor particular. Eles ficam tão próximos que o pastor se apaixona e promete até se divorciar de sua esposa para se casar com a moça.

Esse episódio impactou sua vida pois, no desenrolar do filme, é exposto ao espectador o abuso sexual que ela sofreu, justificando, assim, o motivo pelo qual ela evitava se relacionar amorosamente com homens.

A amizade, que foi criada entre ambos, rompe-se e Salomé se muda com sua mãe para Zurique, na Suíça, onde realiza um sonho ao conquistar uma vaga na Universidade de Zurique, única instituição de ensino que aceitava o ingresso de mulheres. Lá, ela cursou Teologia Dogmática e História da Religião. No entanto, por se dedicar horas ao dia, a estudante adoeceu.

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Lou, Paul Rée e Nietzsche em um estúdio fotográfico. Acima a versão reproduzida no filme. Abaixo a fotografia original. Divulgação.

Quando se recupera, sua mãe a leva para Roma, na Itália, onde, em uma festa, é apresentada ao filósofo Paul Rée. A partir daí, inicia-se uma grande amizade que quase foi interrompida pela negação ao pedido de casamento que Rée fez a ela. Lou afirma que não pretende se casar por não querer ser submissa a homem algum. Neste ponto, Paul Rée se conforma e decide manter a amizade que havia construído. Depois de algum tempo de amizade, Paul apresenta à sua amiga textos e conclusões de seu amigo Friedrich Nietzsche. Logo mais, o pensador é apresentado a Lou e os três acabam se tornando um trio de intelectuais. Entretanto, Nietzsche se apaixona por Salomé e o relacionamento entre eles deixa de ser o mesmo.

Assim, Lou decide se mudar para Berlim, na Alemanha, com Rée, que ciumava muito a relação de seus amigos. Após isso, ao conhecer o poliglota Friedrich Carl Andreas (Merab Ninidze, mesmo ator de Lua de Júpiter), o estudioso propõe a ela um casamento de fachada, já que ambos eram solteiros e a havia uma pressão social em no casamento, com o pretexto de que nunca terem relações sexuais. Por ciúmes, Rée rompe e deixa sua amiga.

Após casada, Lou conhece o único homem que a conquistou, o poeta René Maria Rilke (Julius Feldmeier). A conselho dela, Rilke modifica seu nome de René para Rainer, o que o fez conquistar êxito em suas publicações. A partir desse relacionamento, Lou se torna uma nova mulher. Mais para frente, Salomé conhece Sigmund Freud (Harald Schrott) e decide iniciar alguns estudos com ele.

O longa-metragem cumpre a função de contar a história da vida de Lou Andreas-Salomé, principalmente por conter atuações que convencem. Em todo o longa, podem ser observados conflitos que ela teve que enfrentar por se negar a seguir os caminhos que toda mulher de sua época seguia. Hoje, porém, é notado com bons olhos o empoderamento feminino e, por isso, a determinação de Lou em se opor às pressões sociais pode ser vista com muita empatia. Empatia, essa, também criada pela ótima atuação de Katharina Lorenz.

Um pecado cometido foi quando ocorreu em algumas cenas a aproximação dos personagens na câmera em momentos bruscos. Talvez tenha sido, mas até parecia que não foi intencional, ou seja, um erro de fato. Mas isso não fez com que tirasse todas as qualidades que carregam o longa.

O longa decepciona em sua abordagem por focar mais na vida amorosa de Lou, em vez de dar um enfoque maior em sua obra. Portanto, quem acreditar que terá altos papos filosóficos no enredo se frustrará.

Não seria de nenhuma surpresa se você nunca tivesse ouvido falar dela. É reflexo de uma sociedade machista a invisibilidade de feitos de mulheres na História. Isso é tão fato que ela optou por utilizar seu pseudônimo masculino, Henry Lou, ao lançar o seu primeiro livro, Combate por Deus (Im Kampf um Gott, 1885) que fez um enorme sucesso. Foi o marco para que Salomé fosse reconhecida como grande intelectual na época.

Por grande parte da sociedade ocidental ainda ser machista, apesar da qualidade da produção, a probabilidade do sucesso no Brasil é um tanto quanto nula. Isto porque o idioma do filme é o alemão e a forma mais acessível de assisti-lo é através de legendas, fator que não tem a preferência da maioria dos brasileiros.

A feminista que Nietzsche amou, que Rilke inspirou e que Freud ensinou, também pode te conquistar.

Veja o trailer a seguir.

por Jonas Santana
jonasribeirodesantana@usp.br

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