A Luta do Século – Um Apelo aos Heróis Abandonados

    A Luta do Século (2018) é um documentário que retrata a rivalidade e a vida de duas lendas do boxe brasileiro — o baiano Reginaldo “Holyfield” e o pernambucano Luciano “Todo Duro” — das ruas de Salvador e Recife ao sucesso no boxe nacional e mundial. E ao “cruel” retorno às suas condições de origem. Essa proposta inicial do filme, entretanto, foi alterada com a participação espontânea e determinante de um dos amigos mais próximos de Holyfield e Todo Duro, Raimundo Ravengar, que fora procurado pelos produtores para entrevista.

“Apreensão” foi o sentimento do diretor, o baiano Sérgio Machado, quando soube que o seu entrevistado marcou uma luta entre os dois pugilistas (mais de uma década após o último encontro no ringue) enquanto era focado pelas câmeras dos documentaristas da Ondina Filmes. A produtora embolsou, em 2014 (pouco antes do início das filmagens de A Luta do Século), um milhão de reais do Fundo Setorial do Audiovisual, um mecanismo que possibilita incentivos retornáveis aos cofres públicos.

A equipe de Machado passou a se voltar à preparação de Holyfield e de Todo Duro para o reencontro na “Luta do Século”. A dinâmica do filme, logo, foi alterada. Como afirmou o diretor, “a gente tentou montar [o documentário] com entrevistas, mas, quando a luta aconteceu, aquilo era tão mais rico que a gente abandonou [as entrevistas]”.

Machado, porém, lamenta, com um semblante de conformação, a ausência de uma entrevista com Ravengar. Relembrando o hábito de leitura do ex-traficante durante o seu cárcere, o diretor revelou a análise da relação entre o baiano e o pernambucano feita por Ravengar à luz de Nietzsche. Supostamente, o prussiano escreve que a verdadeira natureza do ódio se confunde com a do amor. Todo Duro crê em tal explicação para entender sua convivência com Holyfield.

a luta do século 1

Sendo assim, o filme — em um primeiro momento — reconstrói a rivalidade ao longo da década de 1990, intercalando gravações de lutas de Holyfield e de Todo Duro com fotos, notícias de jornais e comentários feitos pelos pugilistas à imprensa televisiva. Em voice-over, uma voz traça a narrativa. Ela permanece da mesma forma na segunda etapa do documentário, a qual cobre de maneira mais ativa e direta a situação dos dois pugilistas aposentados, e suas preparações para a grande luta.

A escolha da cena para abrir o documentário foi muito inteligente. Retirada dos arquivos do programa Bom Dia Pernambuco, ela já apresenta a força das personalidades dos protagonistas e de sua rivalidade. Embora aparentam caricatos, e até mesmo infantis (muito por conta de seus trash talkings [ofensas provocativas]), os dois rivais são muito bem complexados na trama. Seus aspectos pessoais e íntimos são admiravelmente abordados, mostrando-os como Reginaldo e Luciano.

A rivalidade hollywoodiana transcendeu os atletas. No ringue, Holyfield e Todo Duro representaram, de maneira metonímica, a rixa entre Bahia e Pernambuco. Por isso, as lutas envolviam muito o orgulho dos nativos das duas potências geopolíticas do Nordeste. Então, a produção — como apontou o próprio diretor — teve o cuidado de representar em igualdade numérica os dois estados nordestinos na equipe de filmagem, cujo trabalho foi financiado pela Secretaria de Cultura da Bahia por volta de 547 mil reais.

Esse fato não acometeu a imagem dos pernambucanos — nem a de seu representante no ringue. Houve um retrato fiel de Todo Duro, muito conhecido pelas suas provocações, cujo repertório inclui trazer caixões para seus adversários. Charles do Nascimento, o dentista de Ravengar (assista ao documentário para descobrir a importância desse personagem), já demonstra impaciência ao recordar o comportamento do pernambucano. Agora visto como amigo, Todo Duro antes “era um calo no sapato dos baianos”. Quando perguntado se os conterrâneos de Gilberto Gil não são de suportar brincadeiras, Charles titubeou um pouco e condensou sinceramente: “Ninguém aguenta tanta provocação”. A relação auto comburente entre os dois embates (Holyfield vs Todo Duro e Bahia vs Pernambuco), entretanto, poderia ter sido um pouco mais explorada. O público alheio ao cenário que cerca baianos e pernambucanos talvez possa sentir a falta de uma maior contextualização sócio-cultural e política.

a luta do século 2

Outro tema — e que, antes da luta do século, era “o filme” — é a narrativa cíclica da vida dos dois pugilistas. Ou seja, o retorno às condições adversas e periféricas nas capitais nordestinas após terem cravado seus nomes, e sua rivalidade, no boxe brasileiro. Essa era a proposta de Machado antes da intervenção excêntrica de Ravengar no documentário. Acrescida a “Luta do Século” — a qual batiza o longa — o recorte da realidade simples e injusta de ambos teve que perder um pouco de espaço, embora ainda seja realizado com qualidade formidável. Se os espectadores darão a devida atenção a essa crítica social, é difícil de se afirmar. O diretor, em uma entrevista para o Cinéfilos, resgatou seus conhecimentos sobre princípios da arte: “A gente faz um filme na nossa cabeça. Ele vai encontrar com o público, que vai interagir com ele. E cada pessoa vai levá-lo para onde quiser”.

Machado consegue manter certa postura analítica no momento de expor sua decepção com a realidade brasileira, mas não se receia a acusar o país de perversidade com “aqueles que têm tanta dificuldade na largada, e que [mesmo assim] conseguem avançar”. Já Charles e os próprios Todo Duro e Holyfield nem cogitam evitar a erupção de sua revolta contra o descaso aos atletas de grande nome. Heróis abandonados. O pernambucano, como se fosse um político em período eleitoral (mas sem a desonestidade), defendeu uma bolsa para os atletas aposentados e carentes financeiramente. “O Brasil tem um certo problema de amnésia”, disse Holyfield, olhando para o vazio, como se recordando as glórias esquecidas na prisão do ontem.

a luta do século 3

 

Entrando no circuito comercial apenas este ano, A Luta do Século já foi apresentado no Festival do Rio de 2016, tendo ganhado o prêmio na categoria de documentário. Sua construção estética e narrativa não é inovadora, mas prende o espectador, que é imergido em uma das rivalidades mais interessantes e curiosas do esporte brasileiro. Com todo o seu aspecto caricato, mas também metafísico: Holyfield vs Todo Duro é Bahia vs Pernambuco. O governo baiano deve ser elogiado por investir neste projeto, embora seja o mesmo estado que se ausenta à situação de Holyfield, e de seus outros heróis.

Os dois lutadores retornaram aos holofotes, às câmeras de diversos veículos de comunicação (desta vez, concentrados na internet), a 10 minutos no Esporte Espetacular. À fama. Todos (Machado, Charles, Holyfield e Todo Duro) já reconhecem, em graus diferentes, o caráter temporário desse cenário. Mas isso não impede o pernambucano de exaltar o filme — brincando sobre as possíveis sequências análogas à saga de Rocky Balboa — enquanto o baiano, com os olhos cintilando e um sorriso aberto, suspira: “Eu tô no cinema!”

O documentário estreia dia 15 de março. Confira o trailer:

por Caio Mattos
caiomattcardoso@gmail.com

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