Seja educado ou morra tentando: Mamãe é de Morte

por Ian Alves
ian.andrade.alves@gmail.com

Mamãe é de Morte (Serial Mom, 1994) conta a história de Beverly Sutphin, uma típica (leia-se: estereotipada) dona de casa americana que passa a cometer assassinatos macabros em nome da moral e dos bons costumes estadunidenses. Entre suas vítimas, encontram-se um professor de matemática que criticou severamente o desempenho escolar de seu filho; um rapaz mulherengo que feriu os sentimentos de sua filha e até um casal que negligencia a higiene bucal depois do jantar.

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O humor do filme se baseia na banalidade com que Beverly encara o ato de matar – totalmente psicopata, ela acredita que suas ações promovem o bem estar da sociedade. Se todos tivéssemos sua ótica, o longa seria um filme de super herói, e não uma comédia. Por exemplo: é fácil enxergar, num universo em que matar pessoas seja socialmente aceitável, donas de casa tirando a vida daqueles que mascam chicletes com desdém (outra paranoia dela); professores assassinando seus alunos mais negligentes; ou, quem sabe, uma aeromoça sufocando o passageiro que não responde seu polido “bom dia”. Apesar de serem absurdas, as mortes que Beverly Sutphin comete também têm um teor de coerência, que ecoa no fundo da mente do espectador e o confunde. É esse paradoxo, essa sensação de, mesmo que por poucos segundos, concordar com as atitudes da protagonista, que torna o filme tão intrigante e engraçado.

O longa, que foge dos moldes de comédias convencionais, consegue preservar sua graça mesmo depois de 22 anos de seu lançamento. Algumas de suas passagens são construções humorísticas simplesmente geniais – como é o caso da cena em que Beverly mata uma senhora com um pernil de peru. A pobre vítima, que é condenada por  desobedecer às regras de cuidado com a fita de uma videolocadora, assistia ao musical “Annie” quando é atacada pela “Serial Mom”. O fundo musical ironicamente alegre, o riso frouxo no rosto de Beverly e a imagem perturbadora de um cachorro devorando o pernil banhado pelo sangue de sua recém finada dona são elementos que, quando combinados, resultam em uma das melhores cenas do filme.

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Além de tudo isso, Mamãe é de Morte é uma produção muito bem feita no que diz respeito aos aspectos técnicos. As atuações, baseadas em caricaturas irônicas do american way of life, junto à onipresente alegria em todo o filme (no cenário, no figurino, na trilha sonora), criam uma atmosfera de simplicidade, que é fácil de ser acompanhada por não apresentar irregularidades estéticas. Essa atmosfera se contrasta com as ensaguentadas cenas dos assassinatos, que quebram com muito humor as expectativas de quem está assistindo ao filme. Esse contraste é muito presente, também, na personagem principal – em um segundo, ela está imitando o canto dos passarinhos, com leveza e graça admiráveis. No outro, está vociferando palavrões ao telefone, anonimamente, a uma vizinha que roubou sua vaga no supermercado. Em resumo: Mamãe é de Morte é um filme hilário, recomendado para aqueles que se interessam por comédias fora do padrão.

Assista ao trailer:

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