A menina índigo: uma introdução à crença das crianças especiais

A menina índigo (2017) apresenta desde o início Sofia (Letícia Braga) como sendo uma criança diferente das outras de sua idade. Seus pais passam a se alertar ao seu comportamento após um incidente na escola, o que provoca mais brigas entre o casal já divorciado. A confusão é mote para que a menina queira se mudar para a casa do pai, o jornalista Ricardo (Murilo Rosa). A partir daí, o pai inicia um processo de descobrimento acerca da criança e do que ela é capaz.

O longa aborda uma crença relacionada ao espiritismo da qual poucas pessoas têm conhecimento. O próprio diretor Wagner de Assis, o qual também dirigiu Nosso Lar (2010), diz que já estava na hora de apresentar ao mundo a geração de crianças índigo e cristal. Tais crianças seriam dotadas de maior sensibilidade, valores morais, imaginação e criatividade, além de terem dificuldade de se encaixar nos padrões da sociedade, podendo ser facilmente identificadas. Elas teriam sido trazidas ao mundo com o objetivo de implantar uma nova era na humanidade, encerrando os ciclos viciosos materialistas e iniciando um momento de maior evolução. Tanto Sofia quando toda a geração índigo recebe esse nome devido a suposta cor de suas auras: azul índigo.

O tema proposto traz uma imensa sensibilidade e apelo emocional ao público, mas seu potencial é subaproveitado. A trama apresenta falas de efeito em momentos nos quais o silêncio seria muito bem-vindo. A cena mais sensível do filme – a qual poderia ter sido modelo para tantas outras – é quando a garota anda em direção a um muro, atraída pela cor azul pulsante dele, revelando que a simplicidade muitas vezes é o melhor caminho para mexer com o espectador.

Por outro lado, o roteiro cumpre seu papel de apresentar como uma criança índigo se comportaria e poderia ser identificada nos tempos atuais. A rejeição aos métodos escolares tradicionais e o diagnóstico precoce de distúrbios de atenção seriam características marcantes dessa geração. Um detalhe a parte é o fato de a personagem de Letícia Braga apresentar também um poder curativo, sendo esse o principal motivo pelo qual ela é tão procurada, assediada e considerada especial.

A fotografia é um dos pontos mais altos – senão o maior – do filme. A tela é preenchida por muita cor e vibração, principalmente pelo azul índigo que permeia o filme do início ao fim. A inclusão de pinturas, quadros e manchas de tinta – a grande paixão da menina – foi uma sacada inteligente para trazer um visual muito bonito, marcante e apelativo ao olhar. Além disso, todo o colorido da obra transmite visualmente um pouco da imaginação e criatividade da criança.  

Não são apresentadas muitas surpresas ao longo do enredo, então não espere um final bombástico ou uma grande revelação. A trama entre o pai e o avô, paralela à história de Sofia, tenta incluir pontos de clímax e conflito ao filme, mas acaba por ser pouco instigante. O longa é quase que uma inserção na rotina do pai e da filha por alguns dias, como um processo de conhecimento mútuo e contínuo.

Apesar de seus defeitos, o filme é interessante para quem tem a curiosidade de saber mais sobre essa crença e também para quem já conhece e gosta do assunto. Para quem não tem o mínimo interesse no tema, talvez essa não seja a melhor pedida para uma noite de cinema.

 

A menina índigo chega aos cinemas no dia 12 de outubro. Assista ao trailer:

por Maria Clara Rossini
mariaclararossini@usp.br

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