Menos sangue, mais história e um final inesperado

Após o derrame de sangue de Kill Bill vol. 1 – e a revelação inesperada que acontece nos minutos finais do filme – é quase impossível controlar a curiosidade por Kill Bill vol. 2 (idem, 2004). Mas para quem esperava ver mais cabeças decepadas e lutas de kung fu, o filme pode ser meio decepcionante.

O segundo filme traz um ritmo bem distinto de se contar a história. A trama fica mais densa e as lutas aqui estarão mais para vale-tudo do que kung fu propriamente. Entretanto, nada disso torna o filme menos interessante do que o primeiro. Tarantino continuou chocando em Kill Bill vol. 2.

Agora, a história é desolocada da Ásia para o Sul dos EUA, e o clima passa a ser de velho-oeste. Não é à toa que as referências orientais ficam ofuscadas pelo destaque aos Westers Spaghettis (filmes de faroeste italianos dos anos 60).

Logo no início do filme, temos um flashback do ensaio de casamento, e vemos “A Noiva”, ao chão, prestes a receber um tiro na cabeça. A cena recorda muito a vivida por Blondie, personagem de Clint Eastwood em Três Homens em Conflito (Il buono, il brutto, il cattivo, 1966).

Sabe aquele close nos olhos da nossa protagonista, com filtro avermelhado acompanhado de flashbacks do seu atentado? A inspiração vem de A morte anda a cavalo (Da uomo a uomo, 1967). E a ideia de fazer uma “Death List Five” nosso querido diretor tira de Os violentos vão para o inferno (Il mercenario, 1968), cuja lista é escrita inclusive de forma muito semelhante.

Tarantino também não esqueceu do clássico Era uma vez no Oeste (C’era una volta il West, 1968). Não só o visual de Budd recorda o do homem da harmônica, vivido por Charles Bronson, como a cena em que temos “A noiva” indo em direção ao trailler de Budd, após ter escapado da cova em que fora enterrada viva, possui o mesmo efeito de deserto ensolarado e sem foco que percebemos na caminhada de Frank (Henry Fonda) no clássico italiano.

E por falar na macabra cena do enterro, o protagonista do western Django (idem, 1966), conhecido como “O Estranho”, e interpretado por Tomas Milian, também é enterrado vivo e consegue cavar até sair. Lembra bastante o desafio encarado por nossa heroína no túmulo de Paula Schultz, não?

Apenas após essa cena, quando Budd e Elle acreditam que “A Noiva” está morta, é que nós descobrimos o seu verdadeiro nome: Beatriz Kiddo. Fato é que nossa protagonista consegue se safar da armadilha na cova e volta em busca dos dois para conseguir a sua vingança. Agora temos derrame de sangue, cabeças voando, lutas de espadas, certo? Errado. A começar que um deles não é morto pela noiva, mais sim por uma alusão a ela. O outro também não é morto pelas mãos da heroína. Na verdade, ele não morre no filme, mas seu destino é quase tão trágico quanto.

Kill Bill vol. 2 se aproxima dos filmes anteriores de Tarantino, contendo mais densidade e situações irônicas. A maior prova disso está no confronto final, entre Beatriz e Bill, no qual eles conversam bastante e lutam bem pouco. Em vez de correr para um fim sanguinolento, Tarantino propõe um desfecho emocionante. Nossa noiva obtém a sua vingança, mas certamente não é da forma que muitas pessoas esperavam – e isso pode ser considerado um grande acerto do filme.

A verdade é que não podemos avaliar Kill Bill vol. 2 separadamente do primeiro volume. Ambos foram concebidos juntos, e como obra, são extremamente completos e bem trabalhados. A sensibilidade de Tarantino para encontrar semelhanças entre gêneros cinematográficos que, a princípio não têm nada em comum (Kung Fu e o Western) resulta em um filme repleto de ação, humor, drama e emoção. Para os mais velhos, valerá a pena ver uma releitura de tantos filmes “de suas épocas”. Para os mais novos, compensa o show visual, a música envolvente e a história intrigante.

Por Sofia Soares
sofia.pere.soa@gmail.com

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