Festival Varilux 2016: Meu Rei

por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

Quando Tony (Emmanuelle Bercot) finalmente se deixa seduzir por Georgio (Vincent Cassel), não é a primeira transa o fato mais importante da cena, mas sim o que está sob ela: o azul do lençol, cobertor e travesseiros. Candidato à Palma de Ouro do Festival de Cannes do ano passado, Meu Rei (Mon Roi, 2015) conta, do ponto de vista de Tony, a ascensão e declínio de sua fulminante paixão por Georgio. Abrindo o longa com um acidente que deixará sua perna imobilizada, o filme entrecortará o presente pacato da clínica de reabilitação com o passado intenso do casal.

Encabeçado por uma dupla de bastante sintonia, Cassel e Bercot farão com que o relacionamento cadente (com poucos dias, ele já estaria certo de que queria um filho com ela) seja crível. Sempre muito irônico, o ator esbanja uma sinceridade sensual, fazendo com que conversas inicialmente absurdas para dois recém-conhecidos soem fofas, como aquela em que eles brincam acerca do formato da vagina de Tony. No entanto, será Bercot a responsável por transmitir sensibilidade ao filme. Contrastando momentos de choro contido com outros de total desestabilidade pela embriaguez, ela vai comoventemente expondo a ruína da relação, justificando assim muito bem o prêmio de Melhor Atriz de Cannes, que ela dividiu com Rooney Mara, de Carol (2015).

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Uma vez estabelecida a química do casal, torcemos pelo amor dos dois, assim como posteriormente sofremos pelo abandono de Tony. Vagamente inspirado no relacionamento que a própria diretora, Maïwenn, teve com um de seus ex-maridos, é importante lembrar que mesmo tomando partido de uma das personagens, o filme nunca parece culpabilizar Georgio. Pelo contrário, o enredo não tenta provar se ele a traiu ou se é de fato tão omisso quanto ela diz. Mais do que isso, no fundo, Tony ainda parece sentir uma atração por Georgio, como uma das cenas finais (que não descreverei) muito bem expõe. Não à toa o título, Meu Rei, denota justamente essa contemplação que ela, e por que não dizer também ele, nutre pelo outro. O problema aqui é que esse amor é tão destrutivo que, para nutrí-lo, será necessário que eles se afastem.

E mesmo que a direção não se destaque, é importante ressaltar como a condução de Maïwenn nunca se rende ao melodrama; menos é mais. A cena da balada é, por exemplo, muito bonita por justamente não conseguirmos ouvir nenhum outro som que não o da música. Assim, podemos nos atentar aos olhares cruzados do casal, criando um jogo de sedução bem envolvente. Ainda é preciso destacar o trabalho de montagem de Simon Jacquet que, encadeando dois momentos temporais diferentes, acentua o sofrimento e peso dramático das cenas do passado, relacionando-as com a reclusão e esforço de recuperação pela qual a protagonista passa atualmente.

Dessa recuperação (física, mas principalmente psicológica), voltamos ao azul da cama. Aqui, é interessante perceber como enquanto repousa na clínica, Tony observa constantemente a imensidão do mar. E o filme é categórico ao enquadrar o azul das águas por longos segundos. De certa forma, o mar, o azul, parece trazer paz de espírito a ela. Por outro lado, ele também pode ser desentendimento e melancolia. Como um relacionamento, ele tem seus momentos de tormenta e calmaria, como Tony mesma comenta. Será então o azul da primeira transa a prova de serenidade ou o furor da desavença? Quem sabe não um pouco dos dois? Afinal, se os relacionamentos seguissem um manualzinho, qual seria a graça em amar?

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