Música pra suar a camisa

Felipe Maia

A música está para o esporte assim como Cheech está para Chong; assim como Bony está para Clyde; assim como Thelma está para Louise; ou melhor, assim como Michael Phelps está para medalha de ouro. E o orelhudo mais rápido das piscinas não deixa mentir sobre a sincronia que há na combinação esporte e música — duvido que o fato de ele chegar às competições ao som do seu iPod não tem a ver com seus quilates recém-adquiridos. E, tomando como inegável a influência da música sobre o comportamento e desempenho humano, o cinema faz sua parte quando quer mexer com as emoções do espectador unindo num só momento seqüências e canções dignas do primeiro lugar no pódio.

Para chegar ao topo é preciso ralar muito. Nem que seja batendo em carne num frigorífico, carregando pedras num terreno baldio ou correndo num frio danado só de moletom. Esse cenário, que bem podia ser de um despatrocinado atleta brasileiro, é na verdade de Rocky Balboa, o boxeador interpretado por Silvester Stallone na franquia Rocky. Além do famoso tema executado por uma orquestra, Eye of the Tiger é outra canção que embala o lutador nos ringues. Tocada pela banda Survivor, a vinheta do boxe na Globo logrou boas posições na Billboard, rendeu participação da banda em outro filme da série e era o que faltava para Rocky detonar com um gancho de direita qualquer adversário.

Ainda na busca do lugar mais alto, Eye of the Tiger só perde para Get on Top, do Red Hot Chili Peppers. Dessa vez o topo é a crista da onda, e os surfistas são os descolados pingüins de Surf’s Up, O clima de adrenalina e competição entre tubos e dropadas ganha força com o wah-wah da guitarra e os ataques do baixista Flea — uma composição que deixaria até Dick Dale empolgado. Em matéria de animação, aliás, os Looney Toons são os campeões disparados — mesmo com a chatice do Patolino. Junte a eles Michael Jordan, basquete e um genuníno hip-hop anos 90 que essa animação se multiplica exponencialmente e literalmente no filme Space Jam. A bola da vez na playlist é o Quad City Dj’s e sua música-título: um sample clássico, alguns gritos de guerra e roupas e danças espalhafatosas. Nada melhor para acompanhar o maior jogo de basquete do século — se não isso, pelo menos o mais sem noção.

Outro muito bem acompanhado musicalmente é Lords of Dogtown. Meio ficção, meio documentário, o longa conta a história das origens do skate. O cenário é a Califórnia dos anos 60, com suas piscinas vazias, asfaltos escaldantes e moleques de cabelo grande com um carrinho sob os pés. Para impulsionar ollies e flips só mesmo boas canções como Fire do dispensa-comentários Jimi Hendrix, Death or Glory, originalmente do The Clash, mas levado pelo Social Distortion, e Iron Man do Black Sabbath. A última, cantada por Ozzy Ousborne, também deu as caras recentemente no filme do super-herói Homem de Ferro. Figurinha carimbada mesmo nos filmes (e, principalmente nos de esporte) é o Queen. Todo técnico deveria colocar We are the Champions nas suas preleções. É mais ou menos o que o treinador de hockey Gordon Bombay (Emilio Estevez) faz com o time dos Super Patos em Mighty Ducks. E se o negócio for levantar a moral do pessoal, nada melhor do que a contagiante We Will Rock You. Se já era assim nos duelos de cavaleiros da Idade Média, como se vê em Coração de Cavaleiro, deve funcionar hoje em dia. O que não dá pra dizer é que o Phelps roubou só porque ouviu uma musiquinha — escolhas não faltam!

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