Não devore meu coração: amor juvenil, ódio e mistérios

Não devore meu coração (2017) traz um misto de emoções, histórias complexas e mal resolvidas vividas na fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Baseado nos contos do livro Curvas do Rio Sujo (2003), do escritor matogrossense Joca Reiners Terrons, o filme conta a paixão do garoto brasileiro Joca (Eduardo Macedo) pela índia guarani-paraguaia Basano (Adeli Benitez). “Curva do Rio sujo só junta tranqueira” é o provérbio que dá origem ao livro no qual o filme é baseado. No longa, o Rio Apa, limite natural entre os dois países, é cheio de segredos e conflitos. Basano se vê como dona e protetora  dele.

A rivalidade entre os dois países fica evidente pela rixa entre as gangues dos motoqueiros dos dois lados da fronteira. Do lado brasileiro, Telecatch (Marco Lóris) lidera a “gangue do Calendário”, na qual cada membro representa um mês do ano. Fernando (Cauã Reymond) é Dezembro, o preferido de Telecatch, que o chama de “O Príncipe”. Alberto (Márcio Véron), primo de Basano e apaixonado por ela, lidera os paraguaios. No rio Apa, aparecem cadáveres boiando, mas a causa não é revelada. Com a morte trágica (e misteriosa) do líder da gangue brasileira, a busca por vingança se acirra e mostra desfechos surpreendentes.

Por ser narrado a partir da visão de um adolescente de 13 anos,  o enredo se mostra um pouco desconexo, traz misto de incertezas e muita imprecisão. Ele ama Basano, ao mesmo tempo que tem ódio pelo que sente. Não sabe se seu irmão Fernando é seu protetor ou membro de uma gangue de motoqueiros.

Em debate que acompanhou a exibição do filme, o escritor Joca Reiners explica que os temas da infância também podem ser vistos pela ótica adulta. “Na mesma medida que às vezes a infância parece um paraíso, por outro lado é nela que se formam os traumas mais duradouros”, conclui. O autor do conto morou por um tempo na cidade de Bela Vista, onde o longa foi rodado.

O poder feminino é fortemente representado em três personagens. Basano, apesar da pouca idade (14-15 anos) é mostrada como a predestinada a guiar seu povo e resistir às investidas da conquista do Joca; a Índia (Zahy Guajajara) é uma mulher mística, sagaz e que tudo sabe; Joana (Claúdia Assunção), mãe de Joca e Fernando, traz a essência da mulher que teve coragem de se separar do marido fazendeiro e criar os filhos sozinha.

Por outro lado, como explica o diretor Felipe Bragança, a masculinidade representada no filme traz a forma trágica de como os homens se veem e buscam as soluções para resolver os seus conflitos.  O uso de codinomes também traz vários significados: Joca chama Fernando de Clark Kent; o motoqueiro o chama de Bruce Wayne, em referência às personalidades do Super-Homem e do Batman, respectivamente. Sebastião é Telecatch; Basano é A Tatuada, a menina crocodilo.

Bragança também fala sobre o processo de pesquisa antes da gravação. Em visita às cidades dos dois lados da fronteira, ele nota o imaginário denso da região e o rancor ainda existente de ambos os lados, principalmente o Paraguai, ainda marcado pela guerra. Foram 4 meses de preparação do elenco, com a participação de muitos não-atores, todos são das cidades de Bela Vista (brasileira) e Bela Vista Norte (paraguaia). Márcio Véron, intérprete do motoqueiro Alberto, era frentista de um posto de gasolina. Ele encontrou Adeli (Basano), andando pelas ruas da cidade paraguaia e através de conversa percebeu que ela tinha a personalidade de que Basano precisaria.

Ney Matogrosso, nascido em Bela Vista, interpreta o Mago. Para viver o capanga de César (Leopoldo Pacheco), o cantor se inspirou nos trejeitos dos tios dele. A princípio, Ney faria o papel de Telecatch, mas não tinha a disponibilidade de agenda para a preparação que o personagem precisava. Mas a essência da personalidade de Telecatch foi inspirada nele.

Não devore meu coração é recheado de histórias mal resolvidas que não necessariamente se cruzam. As tramas envolvendo os personagens deixam a entender subjetivamente que se relacionam, mas sem serem explícitas. O longa traz belas paisagens, mostrando um Brasil pouco conhecido. A escolha de toques sutis ajudam a costurar a narrativa entre o real e o lúdico. Enquanto isso, a iluminação, o cenário e a trilha sonora parecem sair de algum período congelado nos anos 80.  A preparação do elenco resulta num bom trabalho tanto dos atores experientes quanto dos que estrearam com o filme.

Assista ao trailer:

Por Luciana Cardoso
ich.lucianacardoso@gmail.com

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