Nem formol salva A Múmia: A perpetuação do mesmo Tom Cruise

A Múmia (The Mummy, 2017) inaugura uma incursão da Universal em uma nova franquia de monstros, a do Universo Sombrio. Filmes planejados para sequências já são um dos maiores clichês do cinema moderno e, nesse caso, é apenas o primeiro de muitos que decorrem de um plot surrado e apoiado em um Tom Cruise que continua a interpretar a si mesmo.

Nick e o companheiro menos sortudo, Chris, encontram o que não deviam.

Nick Morton (Cruise) é um soldado americano, conhecido por seu caráter duvidoso, que conta com o apoio de um companheiro de farda, Chris (Jake Johnson) – conhecido pelo papel de Nick Miller na série da Fox New Girl, e interpretando dessa vez um tipo bastante semelhante- em suas andanças durante uma missão no Oriente Médio. Já de início, a coragem de Nick é exaltada, em contraste com a prudência do amigo, e ele se mostra capaz de sobreviver às mais diversas situações limite, inclusive escapar de um grupo de terroristas, ileso e a tempo de soltar uma punchline – aliás, a eterna aparência jovem de Cruise combina com essa aparente imortalidade em todos os seus papéis.

Após tentar roubar uma antiguidade para o mercado negro, hábito pelo qual já era conhecido dentro do exército, a dupla se vê em frente a uma grande descoberta histórica, um sarcófago egípcio em meio ao Iraque, a antiga Mesopotâmia, dois destinos bastante distantes entre si – artefato que encanta a arqueóloga Jenny (Annabelle Wallis), uma mulher que, em um primeiro momento, mostra-se empoderada e combativa.

Após essa introdução que não decepciona em manter um estereótipo profissional de Cruise, se seguem diversos lugares-comuns batidos na ficção em geral. Um duo de amigos que entra em apuros mas sempre saem juntos, no maior estilo pastelão sessão da tarde com um alto orçamento, bem como a mocinha que se apaixona por um galã irresistivelmente cafajeste são muletas nas quais o fraco roteiro se apoia, dissimulando situações bastante retrógradas que não passarão despercebidas aos espectadores mais atentos e exigentes – e que podem causar do riso irônico ao rolar de olhos, deve-se exaltar essa audácia em ser tão comicamente previsível.

Por uma boa parte do filme, a caracterização é outro aspecto a ser destacado.Chris aparece em uma maquiagem que poderia fazê-lo ser confundido com Nicholas Hoult em Meu Namorado é um Zumbi (Warm Bodies, 2013). Em outras cenas, personagens aparecem como imitações fajutas de The Walking Dead, no que mais parece uma reprodução do clipe de Thriller.

Annabelle Wallis, por sua vez, tem provavelmente a personagem mais lamentável de todo o longa. Em algumas de suas cenas, torna-se realmente difícil acreditar que estamos vendo uma produção deste século. Tendo sido lançado com tanta proximidade ao lançamento do inovador Mulher Maravilha (Wonder Woman, 2017), e inevitável traçar um paralelo entre as personagens femininas principais de ambos filmes: enquanto a Diana de Gal Gadot tem personalidade tridimensional, progressão de caráter e importância singular, Jenny existe em A Múmia com um único propósito: fazer Nick Morton parecer incrível.

Tom Cruise segurando com apenas um braço a mocinha desesperada, enquanto ambos giram em um avião em queda livre.

A outra possível personagem/protagonista é a Princesa Ahmanet, vivida pela promissora atriz argelina Sophia Boutella – escalada para uma filmagem da HBO do clássico Fahrenheit 451. Seu esforço para entregar a sedutora, temperamental e ameaçadora múmia é visível, no entanto perde-se em meio a confusão da construção da personagem. A sequência que conta sua origem como a ambiciosa princesa egípcia destinada ao trono (mas prestes a perdê-lo) é vagamente similar a uma novela bíblica brasileira, mas também possui os momentos mais legitimamente assustadores do filme, com passagens de ótima atuação de Sophia. Mas esse ponto positivo também se volta contra ela, na ânsia de impor uma figura que dê medo, ela toma várias formas que parecem uma paródia: ela e uma múmia, mas também poderia ser um zumbi, um vampiro – e acaba sendo qualquer coisa, menos crível.

Sem a força que a vilã prometia, o filme recorre a forma mais básica de terror para causar alguma reação no público: o jumpscare, técnica usada no cinema do gênero que consiste em assustar o público com uma mudança brusca de imagem. É efetivo nas primeiras vezes, mas passa a ser uma ferramenta tão recorrente que, para o meio do filme, o espectador prevê exatamente quando o filme tentará lhe assustar. Importante destacar que existem partes não recomendadas para aracnofóbicos e musofóbicos (pessoas com fobia de ratos), aflitivas até para quem não tem nenhum medo patológico, e uma válvula de escape para a falta de substância cinematográfica.

O olhar ameaçador de Boutella como Ahmanet, em um túnel do metrô londrino.

A trama também conta com a ilustre presença do personagem já conhecido Dr. Jekyll, que é reinventado na imagem de Russell Crowe. Todavia, a atuação do astro é simplesmente passável, e não faz é auxiliada por quem a rege; um personagem extremamente complexo, multidimensional e transtornado, que é o que conhecemos de Jekyll e sua outra face, Hyde, é tristemente reduzido a um ser sobrenatural que personifica a dicotomia “bem X mal” e dificulta a trajetória dos personagens principais. Tendo em vista o rumo dado a este grande símbolo ficcional, temos de perguntar: era mesmo necessário acrescentá-lo?

A Múmia é, em resumo, decepcionante – até para quem não tinha expectativa alguma. Mais que isso, ele não se faz necessário. Sua única grande contribuição à história original é a adição desenfreada de efeitos especiais e artefatos ultra tecnológicos – que contrastam com o roteiro e os personagens que parecem ter sido importados diretamente de um clichê do século passado.

O primeiro filme da iniciativa Universo Sombrio no entanto sucede em nos amedrontar: ficamos efetivamente temerosos sobre os horrores que ela ainda levará às telonas.

A Múmia já está em cartaz nos cinemas! Confira o trailer:

Por Juliana Santos e Pietra Carvalho
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