Neve Negra: os tons sombrios dos contrastes familiares

Ambientado na beleza congelada da Patagônia, o longa Neve Negra (Nieve Negra, 2017), dirigido por Martín Hodara, traz em seu elenco o ícone latino Ricardo Darín (O Segredos dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos, 2009)), juntamente com Leonardo Sbaraglia (Relatos Selvagens (Relatos Salvajes, 2014)) e a espanhola Laia Costa (Victoria, 2015) – um dos pontos altos da obra – protagonizando um dolorido suspense familiar. O diretor argentino veio ao Brasil promover seu trabalho e o Cinéfilos foi conferir o filme e a coletiva, em que ele nos contou como foi o backstage, o que pensa do futuro do cinema argentino e suas expectativas com o longa. E a gente conta um pouquinho da entrevista e o que achamos de Neve Negra.

A trama se passa no retorno de Marcos (Leonardo Sbaraglia), com sua esposa grávida Laura (Laia Costa), para sua terra natal, em busca de dividir com seu irmão Salvador (Ricardo Darín) um terreno herdado na Patagônia, após a morte do seu pai. Movido pela quantia milionária, Marcos procura seu irmão problemático que vive isolado na cabana da família distante de todos. O lugar, a casa, a presença de Salvador, arrastam do passado dolorosas lembranças e conflitos que habitam as paredes do antigo lar para o presente dos protagonistas. A história discute as feridas que a violência doméstica geram na criação dos filhos, e como cada um reage de uma forma única e hostil ao que viveu, tanto no presente quanto no passado. O longa marca o reencontro de Ricardo Darín e Leonardo Sbaraglia após o sucesso de Relatos Selvagens. Fundindo herói e vilão em seus personagens, os dois interpretam irmãos que ora outra invertem seus papéis, dividindo nossos sentimentos.

Logo no início, somos apresentados a uma atmosfera de mistério e perigo iminente – com o uso de flashback e abrindo vários arcos – que vem com força total num primeiro momento, mas com uma sucessão de acontecimentos mornos, se perde na metade do longa. Num último fôlego, um plot twist enlaça nossa pulsação, recuperando o compasso, fechando as pontas necessárias e aprofundando-se nos traumas de cada personagem, com um desfecho impactante que nos deixa presos na poltrona, por alguns minutos após seu fim.

A forma como somos inseridos nos flashbacks em tempo não-linear é imersiva e curiosa, um destaque positivo do filme. Além disso, o uso da câmera panorâmica num mesmo cenário consegue reunir presente e passado sob um mesmo teto, dá fôlego e mostra quão vivas são aquelas memórias em Leonardo. Ao utilizar tal recurso torna imagético o que os irmãos evitam dizer em voz alta e nos responde nossas dúvidas.

Um dos pontos altos do longa é o crescimento de Laura, que na cena inicial – deitada no colo do marido voltando para o antigo lar dele -, é apresentada com um ar ingênuo e até infantil, em contraposição ao ar maduro e tenso do seu esposo. Conforme o passado dele volta de forma arrebatadora, fazendo-o entrar num mergulho introspectivo, ele se fecha e a afasta do que está vivendo. Em cenas de conflito, que são recorrentes na projeção, Laura frequentemente aparece posicionada atrás de Leonardo, como se ele fosse quem tomasse as decisões, porém, é ela quem de fato tem a bravura para tomar a atitude sempre. Quando questionado pela esposa por informações concretas, Leo sempre omite respostas e delega alguma ordem a ela, acreditando estar no controle de tudo. Mas é nesse ponto que ele se engana.

A relação do casal, que até certo ponto soa problemática, é contornada pela moça que ganha força conforme o desenvolver da história. Sua curiosidade a faz colher pistas que a ajudam a desatar os nós do passado do esposo e ligar os fios soltos de cada plot. Apresentada como estrangeira no lugar, grávida e excluída, Laia Costa dá vida, brilhantemente, a uma personagem corajosa e decidida que lidera os confrontos entre os irmãos e quem tem em mãos o rumo do trio. Desta forma, o roteiro ganha pontos em dar espaço para uma protagonista feminina de fibra e ao mesmo tempo delicada e misteriosa, desempenhado com eletricidade por uma atriz que não se intimida em meio a dois atores gigantes, como Darín e Sbaraglia.

Na coletiva de imprensa com o diretor Martín Hodara, que foi muito receptivo e simpático com todos, ele contou detalhes da produção, como por exemplo, o maior entrave para a gravação do longa: o período de 6 anos para a captação de dinheiro. Outro problema enfrentado nas gravações, que aconteceram em Andorra e Buenos Aires, foi a mudança súbita de clima e incidência solar que pediu um cuidado extra na fotografia e iluminação. Sobre os seus colegas de elenco,  disse ver nos antigos trabalhos de Laia Costa, a atriz perfeita para Laura, personagem que ele construiu com cuidado para não recair em clichês. “Decidimos não contar a história dela, ela é uma estrangeira e ninguém sabe muito sobre ela, pois se fosse uma menina rica, a odiaríamos, se fosse uma menina pobre, teríamos pena. Ela é apenas o que vemos”, diz o diretor. Quando questionado sobre como ele via a obra, respondeu: “tudo no filme é uma tragédia, e o herói tem que enfrentar seu destino e seu passado”.

 

Trailer legendado:

por Larissa Santos
larissasantos.c@usp.br

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