O Amor em Vermelho inesquecível de Moulin Rouge


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“The greatest thing you’ll ever learn /Is just to love and be loved in return” 
(A coisa mais importante que se pode aprender/ é apenas amar e ser amado de volta) é a frase mote que define essa obra prima do diretor Baz Luhrmann. Logo no início de Moulin Rouge: Amor em Vermelho (Moulin Rouge, 2001), ao som de Nature Boy – interpretada por John Leguizamo, ator que representa o pintor Toulouse Lautrec no longa -, ouvimos esse quote pela primeira vez, numa melancólica e marcante cena de abertura que apresenta tanto a boêmia Paris do fim do século XIX quanto um de nossos protagonistas, o jovem escritor Christian (Ewan McGregor). Aclamado inúmeras vezes, de diversas formas e em várias canções, o Amor – a palavra “love” e suas variações são ouvidos 143 vezes em todo o filme – talvez seja o grande protagonista dessa ópera cinematográfica que, mesmo 15 anos depois, ainda é tida como uma das mais marcantes odes ao amor idealizado.

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O romance proibido entre uma cortesã e um jovem escritor conquistou público e crítica por seus belos cenários, figurinos exuberantes e principalmente pela forma como foi transmitido o drama dos amantes, com destaque para as músicas modernas – já características do cinema de Luhrmann – que vão desde Madonna a Nirvana. Como todo bom musical, os momentos mais marcantes são justamente como as canções são inseridas na história sem parecer gratuito ou chato, o que as cinco cenas abaixo provam que Moulin Rouge conseguiu fazer com êxito:

“My gift is my song”

Numa das melhores cenas do longa, a protagonista Satine (Nicole Kidman) acha que vai ter um encontro amoroso com o Duque (Richard Roxburgh) que possivelmente irá patrocinar a primeira peça de teatro do Moulin Rouge, transformando-a de uma simples cortesã em uma atriz. Mas quem está lhe esperando é Christian, um pobre escritor que só queria mostrar sua arte para tentar convencer a estrela do Moulin Rouge a apoiar o show dos boêmios. Numa engraçada cena em que um não sabe exatamente qual é a intenção do outro – ela quer seduzi-lo pois pensa que ele é o Duque enquanto ele tenta recitar sua poesia -, a única maneira de Christian se fazer ouvido é gritando mais alto que os berros histéricos de Satine, e é aí que ele começa a cantar a belíssima Your Song de Elton John. Logo no primeiro verso entoado, “meu presente é minha canção”, se constrói a aura da cena fazendo toda uma Paris apagada ficar acesa e mostrando Satine visivelmente impressionada com o que está vendo e ouvindo.
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A versão da música, na voz suave de Ewan McGregor, é tão intensa que deixa explícito o amor do jovem escritor impresso naquelas palavras. Logo, Christian e Satine interagem numa metafórica Paris dos amantes, onde eles sobem na Torre Eiffel, dançam sob as nuvens, são embalados por um céu estrelado e uma chuva de papéis picados que constrói o cenário perfeito, representando o momento em que os dois se apaixonaram.
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Os olhares trocados enquanto o poeta canta traduzem exatamente o que palavras nunca expressariam.

“We should be lovers!”

Depois de toda uma encenação para enganar o Duque, já que ele viu Satine e Christian a sós, o romântico poeta não consegue parar de pensar na estrela do Moulin Rouge. Ele, então, resolve ir atrás da moça para perguntá-la se a declaração de amor que ela fez enquanto pensava que ele era o Duque era de verdade, ou apenas uma encenação. Satine, clara e objetiva, querendo negar a conexão imediata entre os dois, diz que é uma cortesã e que não se apaixona por ninguém.
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Mas o jovem poeta não aceita aquela resposta e começa a cantar um verdadeiro tributo ao Amor, enquanto Satine vai discordando de tudo que ele diz, formando um fofo dueto chamado Elephant Love Medley, que mostra a aceitação do amor por parte da cortesã. O curioso é que o título da canção não é à toa, para essa música foram usados pedaços de diversas outras músicas como Love is Like Oxygen do Sweet, All You Need Is Love dos Beatles, I Was Made for Lovin’ You do Kiss, Heroes de Bowie e outras de grandes nomes como U2 e Phil Collins.

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Um medley num romântico quarto em formato de elefante que acaba com os dois protagonistas finalmente se tornando amantes.

“Jealousy… will drive you mad!”

“Os olhos dele em seu rosto/ As mãos dele nas suas mãos/ Os lábios dele acariciando sua pele/ É mais do que eu posso suportar”. Christian não suporta o fato de Satine ir se entregar ao Duque, mesmo sabendo que isso aconteceria desde que começou a se envolver com ela. Enquanto o escritor não consegue disfarçar o que está sentindo, um dos atores do espetáculo, o argentino narcoléptico (Jacek Koman), começa a contar/encenar/cantar a história de um rapaz que se apaixona por uma mulher que não era só dele, e de como o ciúme o levou a loucura.

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Essa é, sem dúvida, a cena mais bonita, dramática e bem feita de todo o filme. El Tango de Roxanne, na voz forte de José Feliciano, é uma versão da clássica Roxanne, do The Police, misturada com Tanguera, de Mariano Mores, se transformando no dramático tango que rege um ato envolvendo dança e a construção de tensão através de cortes. A todo momento os planos de Chistian, uma coreografia de tango e Satine com o Duque se alternam. Quanto mais o tempo vai passando, a música se intensifica e Christian se desespera, “por que meu coração chora?/ Sentimentos contra os quais não posso lutar/ Você é livre para me deixar, mas apenas não me iluda/ E, por favor, acredite quando eu digo que te amo!” fazem parte das súplicas cantadas pelo jovem poeta.

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Satine, ao ver o amado da sacada, não consegue mais fingir e o Duque percebe que estava sendo enganado por ela. Com um final quase trágico – pois o Duque quer forçá-la a ficar com ele – gritos, ecos de Roxanne, uma melodia densa, tudo fica cada vez mais alto, e, no fim, Satine é salva por seu guarda-costas que dá um soco no Duque.

“The show must go on”

 

Um clássico do Queen entra em ação para fazer Satine aceitar que seu conto de fadas com Christian não terá o final esperado. O Duque ameaçou matar o jovem escritor se ele ficasse com a cortesã, e ela ainda descobre que está muito doente e pode falecer a qualquer momento. Visando salvar a vida do amado, ela obedece as ordens de Zidler (Jim Broadbent) – dono do Moulin Rouge – e vai dizer ao poeta que não o ama mais.
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A música que entoa esse drama é o hino The Show Must Go On, que ousa trocando o rock por uma uma versão em forma de ópera, com um marcante coral feminino acompanhando o vocal principal. Ao longo da música, todo o cenário e o palco do Moulin Rouge para o show vão sendo terminados, Satine surge ao cair das longas cortinas vermelhas, com holofotes voltados para aquela mais nova atriz. Kidman, mesmo não sendo uma cantora profissional, mostra que consegue elevar o tom e surpreende, dando poder e melancolia a música.

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Uma cena forte com uma versão que faz jus à grandiosidade da canção.

“Thank you for curing me of my ridiculous obsession with love!”

 

O ato final do longa envolve tantas peripécias que é difícil chegar logo ao ponto em que os protagonistas entoam a bela canção do amantes, chamada de Come What May. Em resumo, Christian não aceita que Satine tenha terminado tudo dizendo que nunca o amou e resolve voltar ao Moulin Rouge no dia do show para tirar satisfações. Entre ameaças de tiros e correrias, ele acaba no meio do palco com a cortesã, e lá mesmo ele paga pelos “serviços prestados” por ela a ele e agradece por ela tê-lo curado de sua “ridícula obsessão pelo amor”. Quando Chistian desce do palco, Toulouse – que fazia uma cítara falante na peça – grita novamente o mote do filme “A coisa mais importante que se pode aprender é apenas amar e ser amado de volta”, e é aí que Satine começa a cantar a música dos amantes, a música que sempre que for cantada, não importa o que estiver acontecendo, haja o que houver, representa que o verdadeiro amor de um para o outro permanece vivo.

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O jovem escritor, ao ouvir aquilo, que não estava na peça, vira-se para a amada com um suave “come what may”, e volta para o palco gritando aquela música que materializa todo o sentimento entre os dois . A voz de McGregor nessa cena passa tanta emoção que podemos sentir o amor, a felicidade e o alívio de Christian presente em cada palavra cantada, numa cena tocante do início ao fim.
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A bela Come What May, única música original do longa, ficou de fora do Oscar de melhor canção original de 2002 pois tinha sido originalmente composta para Romeu + Julieta (Romeo + Juliet, 1996), o que tornou a música não elegível para nomeação. No entanto, mesmo sem prêmio, ela conseguiu marcar.

O musical se encerra com um final digno de grandes tragédias românticas. Depois de novamente tocar a melancólica Nature Boy, nosso Christian, mais velho, num dia como outro qualquer, foi até sua máquina de escrever, sentou-se e pôs sua história no papel. Uma história sobre uma época, uma história sobre um lugar, uma história sobre pessoas, mas, acima de tudo, uma história sobre amor. E é exatamente por isso que, mesmo 15, 20, 30 anos depois, essa história será sempre lembrada pelos fãs do gênero.

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por Ingrid Luisa
ingridluisaas@gmail.com

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