O cinema com um pé na espiritualidade

por Paula Mesquita
paulanmesquita@gmail.com

“Uma sociedade sem religião é como um navio sem bússola”, disse, certa vez, o líder francês Napoleão Bonaparte; já para Karl Marx, a religião era “o ópio do povo”. De uma forma ou de outra, a religião é um dos grandes pilares nos quais se baseia a humanidade desde o início, havendo aqueles que procuram entendê-la, outros que querem refutá-la ou ainda que apenas buscam nela um sentido para a vida, muitas vezes caótica.

Passando pelo cristianismo, judaísmo, islamismo, ateísmo e até crenças tradicionais asiáticas, o Cinéfilos se propõe a descobrir o cinema com um pé na espiritualidade. Conheça cinco filmes clássicos que têm a religião como eixo temático.

A Separação

Em A Separação (Jodaeiye Nader az Simin, 2010) a religião pode não ser a temática principal, mas é importante plano de fundo para a história que se desenrola, cujo cenário é o Irã moderno. Simin está pedindo o divórcio de seu marido, Nader, pois deseja deixar o país e dar melhores oportunidades a sua filha, Termeh.

Nader, no entanto, se recusa a sair do Irã pois tem que cuidar de seu pai, que sofre do Mal de Alzheimer. Sem uma esposa para cuidar da casa, Nader contrata uma empregada para fazê-lo e tratar da rotina de seu pai. A moça, que está grávida, aceita o trabalho sem avisar o marido. A partir daí, se desenrola uma série de conflitos em torno das relações entre homem e mulher, família e Estado, todos eles pautados pelo Islã e as regras ditadas pelo Corão.

a separação

O filme de Asghar Farhadi foi o primeiro iraniano a receber o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 2012. De fato, talvez o prêmio seja atribuído à sua forma de fazer cinema pouco convencional, em comparação ao padrão hollywoodiano. Longo e pouco dinâmico, a trama consiste em acompanhar, quadro a quadro, o cotidiano dos personagens. O fato de nenhuma cena (com exceção dos créditos finais) possuir música de fundo é um traço peculiar que endossa o clima pesado, ao mesmo tempo que contribui para aproximar o espectador da vida rotineira dos personagens – justamente o efeito pretendido por Farhadi.

O Nome da Rosa

Em 1327, o monge franciscano William de Baskerville chega a um mosteiro no norte da Itália acompanhado do noviço Adso von Melk, com a intenção de participar de um conclave. Sua atenção, no entanto, é logo desviada por vários assassinatos misteriosos que começam a acontecer no mosteiro. Como os próprios Sherlock e Watson da Idade Média, William e seu pupilo começam a investigar o caso, que muitos dos religiosos acreditam ser obra do Demônio.

nome da rosa

Baseado no livro homônimo de Umberto Eco, O Nome da Rosa (The Name of the Rose, 1986) traz o veterano Sean Connery no papel principal, ao lado de um jovem Christian Slater em uma de suas primeiras aparições no cinema. A história é digna da maestria literária de Eco, que tece, através das violências sexuais, os conflitos no seio dos movimentos heréticos do século XIV, a luta contra a mistificação, o poder e o esvaziamento dos valores pela demagogia, uma reconstituição livre dos fatos históricos da época aos olhos do espectador.

Por outro lado é notável, até mesmo para aqueles que não leram o livro, a maneira como a adaptação cinematográfica se desvirtuou da obra em que se baseia. Nas telonas, a trama vem direto da boa e velha forma hollywoodiana, com direito à clássica disputa de herói x vilão – William de Baskerville contra seu declarado inimigo Bernardo Gui, o Grão-Inquisidor –, doses dramáticas de sangue e até mesmo um romance, cujo destaque pouco corresponde ao livro e mal cabe na história.

O Sétimo Selo

Neste clássico de Ingmar Bergman, também ambientado na Idade Média, o cavaleiro Antonius Block retorna das Cruzadas para encontrar sua Suécia devastada pela peste negra e pela Inquisição. Em suas andanças, Antonius se depara com a morte personificada e, aceitando-a como um visitante esperado, propõe-lhe uma negociação para ganhar tempo: uma partida de xadrez, que vai acontecendo em várias partes do filme e se tornou uma referência, entrando para o rol das cenas mais famosas do cinema.

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No contexto medieval, em que todo o comportamento e entendimento de mundo eram regidos pelo cristianismo, não haveria espaço para questionamentos acerca do sentido da vida e da morte, muito menos para temê-la. Em 1957, no entanto, os tempos eram outros, e Bergman, grande nome do cinema escandinavo e considerado um dos maiores gênios do cinema mundial, se aproveita dos quinhentos anos passados para propor tais reflexões de maneira única.

Sua obra traz entre as principais marcas autorais os questionamentos profundos sobre a fé e a existência de Deus, dramas com fortes raízes nas teorias da psicanálise e a utilização dos mesmos atores em diferentes obras. Não por acaso, O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet, 1957) é o mais icônico dos filmes de diretor, agrupando todas as características que o tornaram célebre.

Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas

De início, o filme chama a atenção pelo título, longo e pouco convencional. A quem se aventura a assisti-lo, porém, este é apenas o prelúdio de quase duas horas de desafios às convenções – do cinema e da razão.

Críticos de todos os lugares foram ao êxtase quando este exemplar do cinema tailandês foi apresentado no Festival de Cannes de 2010 – do qual, aliás, saiu com a Palma de Ouro –, mas para muitos de nós, reles mortais acostumados ao modus operandi do cinema ocidental, é mais um filme que vamos assistir esperando ampliar os horizontes e do qual saímos ligeiramente desgastados e confusos.

A trama envolve todo tipo de figuras míticas, incluindo espíritos materializados, macacos-fantasma e peixes comedores. Sofrendo de insuficiência renal, Tio Boonmee resolveu passar os últimos dias de sua vida recolhido a uma casa perto da floresta, ao lado de entes queridos. Durante um jantar com a família, o espírito de Huay, sua esposa falecida, aparece para ajudá-lo em sua jornada final. A eles se junta Boonsong, filho de Boonmee, que retorna após muitos anos metamorfoseado em um macaco-fantasma, com o corpo coberto de pelos e assustadores olhos vermelhos. Juntos, eles percorrem um caminho até o interior de uma caverna misteriosa, onde Boonmee teria nascido em sua primeira vida.

tio boonmee

O enredo é misterioso e esotérico do início ao fim. Mesmo entre os leigos, porém, as qualidades plásticas do filme são indiscutíveis, com destaque para a fotografia, que não só e tem um papel importante na construção da atmosfera esotérica com um ‘quê’ de primitiva do filme.

Parece muito absurdo? A chave é ir sem expectativas e aceitar que não é necessário entender tudo para que o filme passe sua mensagem. O trabalho do diretor Apichatpong Weerasetakhul é sensorial e, a quem se permite experimentá-lo de peito aberto, a descoberta é de uma experiência muito maior do que apenas mais um filme.

A Lista de Schindler

O judaísmo é, talvez, a religião mais abordada em produções cinematográficas, principalmente sob o enfoque do antissemitismo que motivou o Holocausto. Em 1994, uma delas levou sete Oscars para casa, incluindo Melhor Filme, Melhor Direção para Steven Spielberg, Melhor Ator para Liam Neeson e Melhor Ator Coadjuvante para Ralph Fiennes.

Filmado em preto e branco para, segundo o diretor, diminuir o impacto da violência gráfica de algumas cenas, A Lista de Schindler (Schindler’s List, 1993) traz mais uma perspectiva do nazismo e da Segunda Guerra Mundial; desta vez, com foco na perseguição aos judeus na Polônia, sua recolocação no Gueto de Cracóvia, em 1941, até a transferência de todos para o campo de concentração comandado pelo terrível oficial Amon Göth.

Interpretado por Liam Neeson, Oskar Schindler é apresentado aos espectadores como um anti-herói: um empresário ganancioso e sem escrúpulos que enriqueceu se aproveitando da guerra, usando judeus marginalizados pelo regime como mão-de-obra-barata. A princípio ele procura se manter afastado dos horrores que acontecem à sua volta, mas, gradativamente, vai se sensibilizando até o ponto de se sentir obrigado a agir em favor dos oprimidos, gastando toda sua fortuna para salvar 1100 judeus do extermínio em Auschwitz. A história é verídica.

a lista de schindler

Uma das cenas mais famosas do filme é a da menina do vestido vermelho, que, em meio ao preto e branco, ganha cores na pós-produção. Construída a partir de duas sequências chave usando um recurso simples, mas extremamente eficaz, sua figura é usada para marcar o ponto de transformação do protagonista: num primeiro momento, ela é vista por Schindler correndo perdida no meio dos nazistas e, mais tarde, já morta, sendo levada para a pilha de cadáveres em chamas. Nesta cena, A Lista de Schindler atinge seu ápice como obra cinematográfica, e, numa brilhante combinação de som, imagem, música e atuação, honra todo o mérito que recebeu, arrepiando a todos que o assistem.

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