41ª Mostra Internacional de SP: O Desafio

Este filme faz parte da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para mais resenhas do festival, clique aqui.

Um felino selvagem desfilando pelo Oriente Médio e se acomodando no banco da frente de uma Lamborghini preta. Grandes SUVs carregando jovens homens árabes até o meio do deserto para competições em que falcões são o centro das atenções — inclusive que aparecem em enormes telões. Muito black mirror? Na verdade, não. Ambas as cenas estão presentes no documentário franco-italiano O Desafio (The Challenge, 2017) e resumem muito bem os absurdos 69 minutos de filmagem.

O Desafio

Imagem: reprodução

Indicado em 7 premiações, dentre elas o IndieLisboa, maior festival português de cinema, e vencedor de 2, o filme registra um final de semana inteiro de catarianos extremamente ricos e adeptos da pouco explorada prática da Falcoaria, arte de criar e treinar falcões para voar e caçar. É bizarro perceber a objetificação e a personificação simultâneas da ave, que parece disputar o protagonismo com o cenário desértico. Tudo é maior do que o homem ali, que se concentra muito em sua devoção, tanto à religião quanto aos animais e às tecnologias.

Tradições milenares, presentes no próprio ato de existir e de ser dos sheiks e nessa espécie de culto aos falcões, mesclam-se na tela com carros de luxo e tecnologias de alto porte. O contraste é, no mínimo, interessante. O conceito do diretor Yuri Ancarani é trabalhar com regiões inexploradas, escondidas, de contar histórias que são negligenciadas e isso é executado com requinte em O Desafio. É como assistir a um excêntrico reality show com vários homenzinhos felizes e impressionados com seus brinquedos. Exceto por um fato: um reality seria atrativo e teria de fato histórias sendo contadas.

O Desafio

Imagem: reprodução

As imagens capturadas são de tirar o fôlego e no começo, o filme segura o espectador por causar estranhamento. Entretanto, depois de 20 minutos observando uma música de suspense tocar enquanto absolutamente nada acontece, a única vontade é de tirar um bom cochilo. Um conjunto de fatores contribuem para o tédio: o enquadramento tradicional, os mínimos movimentos de câmera e, principalmente, a abordagem escolhida. A linha narrativa simplesmente não existe. Não há história, nem nomes. Não há diálogo, nem captura de expressividade humana. Esperamos saber mais sobre quem são aqueles homens tão peculiares, mas isso apenas não acontece.

Considerando a aproximação do filme com o cinema sensorial, que busca retratar a realidade de uma maneira objetiva, talvez essas escolhas façam sentido. Mas fosse assim, a ideia seria muito mais bem-sucedida se fosse realizada em um ensaio fotográfico ou, quem sabe, em um curta. O Desafio é irreverente ao não sugerir crítica ou adesão, mas o único papel cumprido é o estético. É uma série de imagens bonitas e extravagantes do Deserto Moderno, mas só.

O longa estará na 41ª Mostra Internacional de São Paulo, que acontece entre 19 de outubro e dia 1º de novembro. Confira o trailer:

por Anny Oliveira
acoliveiramartins@usp.br

 

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