O Destino de uma Nação nas mãos de homens instáveis

O Destino de uma Nação (Darkest Hour, 2017) é mais um drama de época sobre a Segunda Guerra Mundial, com todos os tons escuros, música imponente, discursos comoventes e a pompa que um filme nessa tradição merece. Já tem uma porrada de filmes assim. Em geral, são baseados em visões simplistas de moralidade (tendo que a maioria das pessoas concordaria que os nazistas são das figuras mais malignas de nossa História) e viram brigas de mocinhos contra bandidos. O sofrimento da população civil é explorado para choros fáceis até que chega o “final feliz” que todo o mundo já esperava. E todos se levam muito a sério devido ao tema (com a rara exceção de Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009), que não se prende muito à realidade histórica, de qualquer forma). Isto posto, O Destino de uma Nação consegue cativar, divertir, fazer chorar e, finalmente, decepcionar.

O Destino de uma Nação

Divulgação/Perfect World Pictures.

ATENÇÃO: A resenha a seguir contém spoilers. Clique no trecho borrado para revelá-lo.

Muito disso se deve ao — agora vencedor do Globo de Ouro de Melhor Ator em um Drama — Gary Oldman. Mais especificamente, à performance impecável de Oldman como Winston Churchill, protagonista do longa. Somos introduzidos ao ponto de maior pessimismo da Segunda Guerra: Hitler segue com sua conquista galopante da Europa e se aproxima cada vez mais do Reino Unido, sem forte resistência. Em maio de 1940, com um Primeiro-Ministro totalmente desmoralizado por suas iniciativas fracassadas de diplomacia (Neville Chamberlain, interpretado por Ronald Pickup), o Parlamento inglês se encontra fragmentado e precisa de um novo líder para um governo de coalizão. Aí que entra Churchill, o único membro do Partido Conservador respeitado pela Oposição. O filme narra o seu primeiro mês no comando da nação e seu embate com colegas de partido e com o Rei George VI (Ben Mendelsohn), conforme Churchill aplica políticas diametralmente opostas às de seu antecessor, ou seja, notoriamente belicosas.

A força e a fraqueza do longa se encontram justamente na mitologia de Churchill, na qual ele se banha. Muito adorado como a figura que virou o jogo para o Reino Unido na Segunda Guerra e famoso por sua personalidade irreverente, ele encarna o perfeito anti-herói, e o roteiro o trata como tal. Qualquer crítica feita a ele é ainda benevolente, não distante de como sua esposa Clemmie (Kristin Scott Thomas) o enxergava: com uma repreensão leve, eclipsada pela mais verdadeira admiração.

O Destino de uma Nação

Churchill (Gary Oldman) e Clemmie (Kristin Scott Thomas) em um momento de ternura. Divulgação/Perfect World Pictures.

Ainda assim, a dinâmica funciona surpreendentemente bem. A trama se apoia em ótimas atuações de todo o elenco, concedendo um olhar empático até mesmo às personagens menores, como Clemmie e Elizabeth Layton (sua secretária, interpretada por Lily James). E, diferentemente de tantos outros filmes de guerra, este trava suas batalhas no Parlamento, trazendo o que há de mais divertido da tal “mitologia de Churchill” em grande estilo: todas as fofocas, grande oratória e frases icônicas das lideranças políticas britânicas. Oldman, praticamente irreconhecível, impede sua personagem de se tornar unidimensional e traz a intensidade tão necessária ao seu papel.

No entanto, o verdadeiro diferencial de O Destino de uma Nação se revela em sua parte central e está talvez melhor indicado em seu título em português. Com atenção e cuidado especiais, ele aponta ao público o peso das decisões tomadas por aqueles homens e o quão dúbias eram suas motivações. Enquanto Churchill resiste firmemente à ideia de negociações de paz com Hitler, é evidente que seu ego, sua teimosia e seu orgulho o guiavam por escolhas extremamente perigosas, que vieram a definir o destino do Reino Unido e da Europa, além de determinar a vida ou morte de milhares de pessoas. É uma visão aterrorizante. Mesmo que todos saibamos o fim daquela história, o filme consegue inspirar incerteza sobre as atitudes de Churchill, uma vez que as chances estavam todas contra ele.

É lamentável, então, que esse clima de incerteza que tanto diferencia o enredo se dissipe junto com a hesitação de Churchill. Em vez de reconhecer o grande risco tomado em nome de toda uma nação e que nem tudo foi premeditado, o longa celebra a decisão do Primeiro-Ministro como uma grande vitória da coragem sobre a tirania. E o pior: justifica essa decisão com uma cena vergonhosamente demagógica e romântica na qual Churchill consulta a população — população esta que ele próprio enganou e da qual omitiu informações cruciais sobre a situação real da guerra e dos avanços nazistas (ou seja, que só consegue emitir opiniões pouco informadas). Com isso, vemos uma questão até então muito difícil e delicada (e cuidadosamente trabalhada) se resolver no bom e velho maniqueísmo na última meia hora do filme.

Só não é mais decepcionante porque a atuação poderosa de Oldman somada à oratória lendária de Churchill pode convencer qualquer um de praticamente qualquer coisa. É quase impossível não vibrar com ele enquanto consegue convencer o Parlamento de sua decisão. Mesmo assim, como é perfeitamente colocado por seu maior rival, o Visconde Halifax (mão direita de Chamberlain, interpretado por Stephen Dillane), “ele mobilizou a língua inglesa e a mandou para a batalha”. Para muitos, isso será o bastante. Sob direção de Joe Wright, o desfecho de O Destino de uma Nação até parece espetacular, mas é um espetáculo de fumaça e espelhos, que não traz a devida resolução aos dilemas que assolam o longa.

O Destino de uma Nação estreia amanhã no Brasil. Assista ao trailer legendado:

por Fredy Alexandrakis
fredy.alexandrakis@gmail.com

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