A sutileza das relações humanas em O Estranho que Nós Amamos

A problemática das relações interpessoais foi tratada de inúmeras formas no cinema. É difícil pontuar vezes que tenha sido abordada com tanta sutileza e aparente veracidade como nos filmes de Sofia Coppola. A premiada diretora entrou em nossos radares com Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003), propondo uma nova e particular visão de feminilidade. Não é diferente em O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled, 2017), refilmagem da produção de Don Siegel em 1971 e adaptação do romance de Thomas Cullinan. O longa rendeu à Coppola o prêmio de melhor diretora em Cannes este ano, tornando-a a segunda mulher na história do Festival a ganhar o prêmio nessa categoria.

O filme é contextualizado durante a Guerra Civil dos Estados Unidos, e se passa num internato para garotas no interior da Virgínia, que abriga um soldado do norte — ou ianque — ferido e necessitado de cuidados médicos. A chegada de John McBurney (Colin Farrell) traz consigo o surgimento de uma densa tensão sexual entre as mulheres que habitam a escola, num conflito silencioso que perdura por todo o longa.

Imagem: reprodução

O aparecimento do cabo McBurney não pode ser visto apenas como incitador da sexualidade das mulheres ou pior, como se todas fossem guiadas pelo tesão e entrassem numa guerra imatura quanto a quem seria capaz de conquistar o amor dele. Na verdade, a situação é conflituosa até em caráter ideológico, já que McBurney é ianque e luta contra os soldados dos Estados Confederados do Sul, aos quais pertence a Virgínia. Ademais da libido, McBurney dá às meninas mais novas a esperança de conhecer o mundo que reside do outro lado das paredes da escola. Mantidas isoladas para se protegerem da guerra, a criação de muitas se deu apenas dentro daqueles portões, e o contato com alguém do exterior é excitante além do sexual. Com essa chegada, a figura do homem que se manifesta como algo tão distante da realidade daquelas mulheres, ganha personificação e se reverte na figura de amigo, de amante. Cada uma delas o enxerga de uma maneira própria, e o desejo da reciprocidade causa uma urgência em provar seu valor pessoal para ele. Entretanto, antes de tudo isso, elas se comportam como uma família: protegem umas às outras e se unem quando em perigo.

O conservador internato é comandado por Martha Farnsworth (Nicole Kidman). Entre aulas de francês e bordado, Martha visa conceder às meninas o necessário para sobreviver aos tempos de guerra. O caráter tempestuoso e controlador de Martha é interpretado por Kidman de forma magistral: a personagem funde-se à atriz de forma a parecer que nunca estiveram separadas, como se pertencessem uma à outra. Martha é uma mulher que perdeu muito, de franqueza necessária, fala cortante e de pele espessa adquirida ao longo dos anos para proteger quem está sob sua guarda. Quando adicionado ao olhar incisivo de Kidman e à postura matriarcal que adota para Martha, têm-se como resultado uma das melhores personagens de sua carreira.

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O longa foi feito sob a medida certa. A câmera em diversos momentos percorre as matas fechadas da Virgínia, e mesclando-se ao céu rosado do fim de tarde, vê-se a fumaça preta das bombas que estão sendo estouradas à distância. Todo o contexto do filme parece ser desenvolvido nesta base: a sobreposição da delicadeza e da guerra. Entre os laços e corpetes de cores pastéis das moças de maneiras impecáveis do século XIX existe um estado caótico que habita seus interiores e faz parte de quem elas são. Quando explode a bomba do desejo e sexualidade reprimidos, manifesta-se um lado antes impensável, vingativo e manipulador.

De fotografia espetacular, o longa desenvolve-se no silêncio: os sons que mais ouvimos são o farfalhar das gigantescas saias, o tintilar dos talheres, o canto dos pássaros e o estouro das bombas. Tudo contribui para a construção de uma atmosfera muito envolvente, de luz amarela sobre o marrom escuro da mobília e o pastel dos saiotes. Apoiado no figurino bem contextualizado, do penteado à camisola, e na paisagem verde que não cansa os olhos, a impressão que se passa é a de que aquela poderia facilmente ser uma história real. Seja pelo caráter histórico ou pelas relações humanas tangíveis, sem sensacionalização e exagero, o filme discorre com naturalidade perante os olhos, mantendo-os fixos na tela e imergindo o espectador.

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No longa, tudo é muito bem dosado: as prolongadas captações da paisagem, os pequenos momentos de humor, a apreensão criada nos momentos mais decisivos e o perfil pessoal de cada uma das personagens. Trata do convívio no seu aspecto mais vil, em que todos se usam com o objetivo de atingir algum fim. Numa época em que a mulher era colocada no “seu lugar”, o pico de libertação da vida ruralizada e reclusa é atingido com a chegada do estranho, modificando-as de forma permanente. Seja pela descoberta da sexualidade, pelo controle constante do desejo sempre subtraído, pela impossibilidade de clamar seu sexo, essa chegada traz esperança que há vida além daquilo. O filme não é sobre sexo, não é sobre amor nem sobre a guerra, mas de alguma forma é sobre tudo isso junto. Um deleite de sensibilidade e parcimônia, que consegue como poucos tratar de forma tão realista as relações humanas.

O Estranho que Nós Amamos estreia dia 10 de agosto nos cinemas. Assista ao trailer abaixo:

por Giovanna Jarandilha
giovannajarandilha@gmail.com

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